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Epílogo

Times like these we'll never forget, staying out to watch the sunset…
I'm glad I shared this with you.
You set me free, showed me how good my life could be.
How did this happen to me?...

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# Bela

A brisa gélida - mais gelada que o normal pra uma noite de verão em Londres - chocou-se contra o meu rosto, mas eu não senti frio. O ambiente do qual eu acabara de sair estava demasiadamente quente, então eu me senti confortável com a mudança brusca de temperatura. Respirei fundo e tentei me equilibrar sobre meus coturnos, mas minhas pernas não corroboravam. Talvez fosse efeito do álcool, talvez fosse a maconha.

- Bela, está bem?
- Sim... - minha voz soou mais vacilante do que eu planejava. Não tinha tanta certeza se estava realmente bem.
- Que bom, porque eu não tô não. Provavelmente vou inventar uma doença e faltar a escola amanhã... Hoje tava muito louco!
- Hoje foi foda mesmo. - eu queria demonstrar a minha animação, mas o cansaço e moleza dominavam cada parte do meu cérebro. - Mas eu realmente quero minha cama agora.
- Tudo bem, vamos logo... - Sam puxou minha mão pra que andássemos mais depressa. - Chris! Ei, Chris!
- Oi, meninas! Bela, seu sutiã tá aparecendo... Oh, não! Acho que a blusa é assim mesmo. Que ousada! - ele gargalhou. Drogado como sempre. Acho que nunca vi Chris "limpo" em toda a minha vida.
- Cala a boca, Chris. Pode nos dar uma carona? Precisamos chegar em casa logo... Já são quase cinco da manhã, daqui a pouco o pai da Bela levanta pra trabalhar e vai dar uma merda gigante se a princesa dele não estiver em casa, então, anda, leve a gente.
- Sim senhora, sobe aí! - ele maneou a cabeça indicando que subíssemos em sua moto nada sofisticada. Eu estava um tanto inconsequente naquele momento, então simplesmente não me importei de sentar sobre a motocicleta que seria conduzida por um adolescente chapado. Mas, talvez, mesmo se eu estivesse completamente sóbria, não me importaria.

Quando Chris nos deixou na vila onde eu e Sam morávamos, já passava das quatro e quarenta. Eu tinha poucos minutos. Corremos cada uma para sua respectiva casa e a tarefa de subir a árvore que me levava à sacada do meu quarto pareceu complicada demais. Eu estava mesmo mal dessa vez...
Assim que meus pés tocaram o assoalho alvo do meu quarto, escutei o despertador do meu pai tocar.
- Merda! - murmurei baixo, tirando a roupa na maior velocidade que meu corpo permitia, enfiando o pijama que estava sobre a escrivaninha. No minuto seguinte, eu já me encontrava afogada debaixo dos cobertores e com o rosto enfiado nos travesseiros. Pude contar até cinco antes de ouvir meu pai batendo na porta.
- Filha? Acorda.
- Já acordei, pai, obrigada. - tentei não deixar que ele visse meu rosto. Eu ainda estava de maquiagem.
- Certo. Te espero lá em baixo pra tomarmos o café da manha. Não demore ou vai se atrasar, princesa. - eu odiava quando ele me chamava assim.
- Tá. - resmunguei, me mexendo preguiçosamente na cama. Ao longo dos anos mantendo essa "vida dupla", aprendi a ser uma boa atriz.

- Chegou atrasada hoje. - Olhei na direção da qual vinha a voz e pude observar Lucas escorado no batente da porta, com os braços cruzados, sobrancelhas arqueadas e seu fiel companheiro: o olhar petulante, analisando-me enquanto eu escovava os dentes.
- Foi uma noite... Interessante.
- Posso sentir o cheiro de álcool e maconha de longe... Como meu pai simplesmente não percebe?
- Eu, sinceramente, não sei... Sou uma pessoa de sorte. - dei de ombros. - Agora sai porque eu preciso tomar banho.
- Você é uma péssima garota, Bee... - balançou a cabeça, inconformado, enquanto ria, provavelmente orgulhoso de mim.
Eu seria tão boa quanto ele, no futuro.

# Tom

- Olá, Fletcher! Mais uma vez, você por aqui.
- Oi, Sr. Johnson. - respondi sem o menor ânimo. Eu não imaginava o quão grande era minha ficha negra, então não sabia se deveria temer ou não aquela conversa.
- Ele não estava sozinho, Sr. Johnson. A trupe toda estava envolvida no incidente.
- Bom saber! - Edward bradou, um tanto irônico. - Pode mandar o resto entrar, Helga.
A inspetora rechonchuda sacudiu a cabeça, consentindo, antes de se retirar da sala e voltar, depois de alguns segundos, acompanhada dos meus amigos.
Os três sentaram-se ao meu lado e o diretor nos olhou irrequieto. Um sorriso peculiar brincava no seu rosto. Ele parecia se divertir com aquilo. O fato é que eu também me divertia, lhe proporcionado alguns fios de cabelo a menos.
- Me expliquem exatamente o que fizeram dessa vez. - pediu com toda sua pomposidade, entrelaçando os dedos sobre a mesa.
- Nada demais, meu amado diretor. - Harry começou a explicar com sua cara de indiferença. - Apenas molhamos alguns bolos de papel higiênico e arremessamos no teto do banheiro, que estava imundo. Nosso intuito era apenas limpá-lo.
- Claro que não, a gente queria... - Danny ia desmentir quando Harry o cortou:
- Cala a boca, Jones. - ele ordenou entre dentes e eu rolei os olhos. Não sei como o Danny consegue ser tão burro e sem noção...
- O fato, Sr. Johnson, é que os porrolhos – era como chamávamos os nossos bolos de papel higiênico molhado - deixaram o banheiro mais bonito. Parece até um museu que eu visitei com minha tia Velma outro dia. - Dougie opinou e eu prendi o riso, coisa que Danny deveria tentar fazer ao invés de ficar gargalhando das nossas desculpas esfarrapadas.
- Incrível como vocês pensam que sou idiota! Eu, por acaso, tenho cara de idiota?
- Tem. Desculpe a sinceridade, Sr. Johnson, mas minha mãe me ensinou a sempre falar a verdade. - Danny respondeu mantendo a integridade, dificultando consideravelmente a minha tarefa de prender o riso. 
- Pode acreditar que eu não sou idiota, Jones. - retrucou ríspido. Sua diversão parecia diminuir tão rapidamente quanto a minha aumentava. Pude jurar, inclusive, que o tom enrubescido de seu rosto havia se intensificado.
- Você sabe que eu te amo, não sabe?
- Tenho certeza disso, Danny. - o diretor parecia cada vez mais raivoso. E eu estava quase me mijando. Acho muita graça desses momentos, sabe? - Sem mais gracinhas. Quero que me escutem bem. Estou farto de vocês cometendo esses delitos, estão comprometendo o bom funcionamento da minha escola e desonrando o dinheiro que seus pais investem em vocês! A próxima visita, especialmente sua, Fletcher, à minha sala lhes renderá uma suspensão. - Sorriu sarcasticamente. - E eu realmente espero que não haja uma próxima vez. Estamos entendidos por aqui?
- Sim. - respondemos em uníssono.
- A propósito, a sala de detenção ainda está em manutenção. - informou rolando os olhos e eu sorri minimamente. Acabar com a fiação elétrica daquela sala nunca me pareceu tão conveniente. – E, já que dificultaram o trabalho dos faxineiros no banheiro masculino, vão compensar de outra forma. Terão que limpar a sala de química laboratorial após as aulas. - sorriu. - Durante alguns bons meses.
- Meses?! - Dougie arregalou os olhos e eu quase me engasguei com minha própria saliva.
- Preferem a suspensão?
- Não, não! Limpar o laboratório está ótimo. - Harry respondeu rápido.
- Tudo bem, então comecem hoje. Estão dispensados.

Alguns poucos minutos depois, eu estava na aula de História ouvindo qualquer coisa sobre a Rússia enquanto desenhava uns aliens invadindo o planeta Terra - era a minha versão de como o mundo acabaria - e pensava no que faria hoje à noite, afinal, sexta feira não é o tipo de dia que se pode desperdiçar ficando em casa pra jogar videogame.
- Senhorita Johnson? - escutei a professora de história chamar e olhei, assim como toda a sala, para a dita cuja. Ela parecia sonolenta. - Está prestando atenção?
- Sim. – respondeu indiferente. Eu sempre a achei meio estranha. Um pouco fechada e nerd demais.
- Sobre o que eu estava falando, então? - a professora indagou, astuta.
- Sobre a Rússia.
- Isto é óbvio. - rolou os olhos, impaciente - Quero saber do que eu estava falando especificamente.
Observei que Bela lançou uma olhadela discreta para o caderno de Sam, cuja cadeira estava pareada à sua, e voltou a olhar para a professora com um quase sorriso querendo brotar em seus lábios e um olhar que correspondia à expressão desafiadora da professora.
- A senhora estava falando especificamente sobre a conjuntura estabelecida na Europa ocidental durante o período de transição entre o socialismo da União Soviética e o capitalismo Russo.
E então a professora ficou sem mais argumentos. Johnson estava certa. Mais que certa. Era uma pessoa realmente esperta... Eu tinha certeza que ela mal sabia do que estava falando. Sorri sozinho, voltando a olhar para meu desenho.

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- No que está pensando? - Harry me perguntou e só então percebi que ele estava ao meu lado no sofá.
- Ahn?
- Você está mesmo no mundo da lua... Passou umas duas horas olhando pra esse cubo colorido, jogado no sofá que nem um bêbado.
- Eu tava pensando em uma pessoa.
- Em quem?
- Bela Johnson. - confessei, o vendo arquear uma das sobrancelhas.
- Por que está pensando nela? - sua voz demonstrava claramente o estranhamento que aquela declaração lhe causara.
- Não é nada demais... Estava tentando entender como aquela menina funciona. Quero dizer... Eu a observo muito, sabe? Faço isso porque tem algum mistério nela que me deixa curioso.
- Não entendi o seu ponto.
- Ela é estranha. Fica completamente isolada com aquela menina, Sammy Bradley, mesmo com toda a atenção que insistem em dar a elas...
- Fácil, elas são antipáticas e metidas.
Ignorei e me remexi para continuar meu discurso.
- Além disso, ela vive matando aulas, não presta atenção em nenhuma matéria, mal a vejo com algum caderno na mesa, senta sempre no fundo da sala e, ainda assim, tira as melhores notas da escola inteira.
- Ela é nerd, deve estudar em casa.
- Ela não parece gostar de estudar...
- O que você acha que ela fica fazendo, se a garota mal sai de casa, nunca vai às festas da escola ou qualquer outro tipo de evento social? Ela fica entocada com o cu na cadeira lendo pilhas de livros todos os dias.
- Talvez, mas tem alguma coisa nela...
- Fletcher, seja lógico. Ela é apenas uma nerd, filhinha do diretor, que quer passar pra uma universidade foda e construir uma família tradicional.
Pra Harry, tudo é sempre muito simples. Mas nada naquela menina é simples... Sempre a achei um pouco... Diferente.

# Bela

- Oi, Lia! - a abracei animada.
- Como vai, Bela? E onde está a Sam?
- Ah, ela foi pegar um garoto que conheceu na semana passada. Segundo ela, o menino é rico por isso resolveu ficar com ele mais de uma vez. Sam acha que talvez ele comece a pensar que os dois são ficantes e a presenteie com "coisas de gente rica".
- Sam tem merda na cabeça, sempre desconfiei.
- Sempre tive certeza disso. - balancei os ombros com indiferença enquanto Lia ria.
Thalia era uma ótima professora de dança. De street dance, pra ser mais exata. Porque essa é a única dança que eu me presto a praticar. Quando eu era nova, dançava balé, mas isso sempre foi algo que odiei fazer.
A aula era na escola, e contava como atividade extracurricular. Eu que havia convencido meu pai a adicionar o street dance à grade de atividades extras e, bom, foi realmente uma boa ideia. Todas as pessoas que dançam, amam.
Apesar de ser, aqui na escola, basicamente destinada ao público feminino, Alexander - não tenho tanta certeza se ele faz parte do público masculino, de fato - era parte da turma. O único homem.
Nós até que éramos amigos.

- E aí, Bela? O que vai fazer hoje à noite? - Alex me perguntou assim que acabou a aula, enquanto Lia desligava o equipamento de som.
- Vou à casa dos Bakers. - fiz careta - Eles são amigos antigos do meu pai.
- É, você já comentou sobre isso. - ele deu de ombros, amarrando os cadarços.
- E depois você vai direto pra casa, pra dormir que nem pessoas normais fazem, não é? - Thalia, de repente, entrou na conversa e eu a olhei, sorrindo marotamente.
- Mas é claro que sim. - meu olhar demonstrava por si só o que eu realmente quis dizer.
Não sei se Alex entendeu algo, mas ele desatou a rir e me deu dois tapinhas nas costas.
- Vocês são doidas... - murmurou antes de sair da sala.
- Corrigindo: você é doida. - Lia destacou o "você", apontando seu dedo na direção do meu rosto. - E sabe que esse tipo de vida não é o que você quer, verdadeiramente. – afirmou, caminhando até o interruptor na extremidade próxima à porta.
- Talvez ainda não seja mesmo. - mexi os lábios expressando certa indiferença enquanto ajeitava minha mochila nas costas e andava até ela pra que fossemos embora. - Mas eu tenho certeza que vai acabar sendo, algum dia.

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Eu encarava meu pequeno closet - quase do tamanho de um armário, a diferença era que podia entrar nele - desejando que eu pudesse pegar uma das minhas roupas "rebeldes", como diria Sr. Wilson, e não aquelas vestimentas adoráveis e comportadas que meu pai tanto gostava que eu usasse.
Me vesti rapidamente, de um jeito que eu esperava que meu pai não reclamasse. Aquela roupa já me incomodava suficientemente para procurar algo mais pudico.Ignorei qualquer tipo de maquiagem, e não fiz nada no cabelo. Apenas desci as escadas para me deparar com meu irmão vestindo roupas que me matavam de inveja. Seus jeans mais surrados do que tudo eram rasgados nos joelhos, ele vestia uma blusa preta completamente digna, estampada com o logo do "The Who", seus vans pretos estavam imundos, e a jaqueta preta completava o estilo "foda-se, pai" que eu tanto venerava.
Sorri e ele sorriu de volta.
- Mas que bonitinha! - provocou. - Bee parece mesmo uma princesa, não é, pai?
- Apenas cale a boca, Lucas. - papai rosnou. Eles se odiavam. Muito.
Rolei os olhos.
- Vamos logo, pai. Preciso dormir cedo hoje. - falei e observei, de esguelha, o sorriso discreto de Luke.
- Tudo bem, Bela. - meu pai sorriu. - Lucas, não traga seus amigos marginais e nem suas prostitutas pra casa hoje ou você arrumará sérios problemas.
Claro que não trarei, querido pai! Tenho prazer em te obedecer! 
Senti vontade de rir, mas eu não podia.
- Ah, pai, vai manobrando o carro porque eu esqueci uma coisa lá no meu quarto...
- Certo, princesa, vai logo.
Esperei que ele saísse de casa e me virei para o meu irmão que esperava o que quer que eu fosse dizer, de braços cruzados.
- Sam me avisou que algumas roupas novas chegaram. Pode ir lá buscar, por favor? – pedi, me aproximando dele.
- Posso.
- Certo. Então busque e deixe no fundo falso do closet. E avise a ela que dou o dinheiro mais tarde. Ah, e também avisa que o Chris descobriu um lugar novo pra gente, mande-a ligar pra ele e pegar o endereço de onde vamos nos encontrar pra seguir até esse tal lugar.
- Nossa, sou o oficialmente o homem dos recados.
Sorri.
- Você é apenas um bom irmão. - apertei suas bochechas. - Traga um de seus amigos ou alguma puta hoje... Adoro quando meu pai fica de mal humor. - gargalhei.
- Eu também adoro. - ele sorriu ladino ao mesmo tempo em que ouvimos a buzina do carro.
- Tchau, boa noite. – reverberei, já me afastando. 
- Boa festa. Não me deixe preocupado, você sabe.
- Não vou. - sorri uma última vez, antes de sair.

# Tom

- O que vamos fazer hoje, cara? - Danny me perguntou, abrindo uma cerveja.- Por que eu tenho que escolher?- Eu estou sem ideias. – ele deu de ombros.- Vamos a qualquer pub. Eu topo tudo desde que não envolva nossa casa. - Harry resolveu participar da discussão - O pessoal da escola vai ao Tigger.- Não quero saber do pessoal da escola... - reclamei. - Quero carne fresca, entendem? - desenhei curvas femininas com as mãos, sorrindo com malícia.- Tem um PUB muito louco que eu escutei falar... - Dougie sugeriu e eu subitamente me interessei. - Só quem vai é um pessoal mais sem noção... Garotas com mais personalidade, sabe? - ele riu. - E rola de tudo lá.- Gostei.- Eu também. - concordei com Harry, já me levantando do sofá e pegando a latinha na mão do Danny. - É pra lá que nós vamos. - Bebi o último gole de cerveja e joguei a lata fora.

- Qual é o nome do pub? - Danny perguntou, assim que chegamos à rua indicada no GPS do celular. Não parecia ter nenhum pub ali.
- Fabric. - Dougie respondeu. - Vocês devem ter errado o caminho.
- Não erramos, idiota. - Harry retrucou, olhando envolta. - Deve ser em algum lugar dessa rua.
- Caras... Essa rua é meio sinistra, não acham? Sei lá, pode aparecer alguém e sequestrar a gente, roubar nossos órgãos e...
- Cala a boca, Danny. - o cortei, achando graça. - Vamos perguntar pra aqueles caras ali, que estão fumando.
- Você ficou maluco? - pude ouvir Danny gritar enquanto eu saía do carro. - Tom! Volte aqui!

- Ei, cara! - cheguei perto de um deles. Todos pareciam meio intimidadores mesmo... - Sabe o onde é o Fabric?
- Iniciante... - um deles murmurou, mas eu ignorei.
- Mano, se você nem sabe como entrar no Fabric, nem venha falar com a gente, já é? – o outro, com uma voz que me fez quase (eu disse quase) borrar as calças, respondeu e eu arregalei os olhos.
- Cara, você podia ser mais educado! - Foi sem querer, mas eu falei. E só depois fui perceber a merda que fiz. Não que eu tenha medo de brigas, confio no meu taco, e meus amigos estão logo ali, no carro, mas eu não costumo brigar à toa. Só que esses caras parecem exatamente os tipos que brigam à toa...
- Como é?! – um dos grandalhões rosnou indignado e eu recuei alguns centímetros. (coisa pouca, nem deu pra perceber!).
- Ei! Vocês aí! - uma voz diferente, vinda de trás de mim, chegou aos nossos ouvidos e eu virei, vendo um cara com roupas escrotas (um pouco coloridas e sem o menor senso de combinação) se aproximar. - Brad e Tyler, não vão arranjar briga aqui fora de novo, não é?!
- Não se mete, Chris. - um dos dois falou.
- O que está acontecendo aqui? - Ouvi a voz de Harry soar agressiva e só então notei que todos os meus amigos tinham se aproximado.
- Olha, se vocês querem brigar, briguem lá dentro! – O tal do Chris falou, meio pilhado. – Aqui fora pode dar polícia e se eles descobrirem o que rola lá, vai dar merda pra todo mundo.
- Não vamos brigar com ninguém. - Garanti, sem tanta certeza. - Só quero saber por onde entra na Fabric.
- Ah, sim. Me sigam.

O lugar era no fim de um beco. Uma portinha minúscula e muito pesada - parecia ser à prova de som - revelava a escada comprida por onde já dava pra se ouvir, ao fundo, um som baixo.
Um som baixo que se tornou extremamente alto assim que abrimos a segunda porta pesada, no topo daquela escada.
Era um mar de gente. Muita fumaça. Muitas garotas gostosas dançando. Muita bebida. Muita gente se pegando loucamente pelos cantos. Muito calor. Muitas luzes coloridas... Era louco.
- Insano... - escutei Dougie soltar, abobalhado.
- Caralho! Volto aqui todo dia! - Harry gritou antes de se perder por aí.

Acabei encontrando com o tal do Chris quando fui pegar algo para beber no bar.
- Você é algum tipo de organizador ou sócio disso aqui? - perguntei, observando que todas as pessoas, inclusive os que trabalhavam no bar, pareciam conhecê-lo.
- Hm... Não. Eu sou apenas uma presença importante. Estou aqui quase todo dia. Eu e minhas amigas somos a elite da Fabric. - ele riu. - Sou Christopher Miles, e você?
- Tom Fletcher.
- Tom Fletcher? - fez uma cara engraçada, como se estivesse confuso e com sono ao mesmo tempo. Seus olhos pareciam pesados. - Me lembro de já ter escutado esse nome em algum lugar.
Me senti lisonjeado, por um momento. Chris parecia o tipo de cara que conhece muita gente, então "conhecer meu nome de algum lugar" me soou como algo importante, de alguma forma.
- Seja bem vindo ao meu segundo lar, cara! Vou te apresentar uma garota sensacional!
O acompanhei até uma mesa grande no canto próximo aos banheiros (onde havia várias, VÁRIAS, pessoas se pegando).
- Ei, gente, esse é Tom Fletcher. Tom, esses são Spencer, Florence, PJ e Maxxie.
- Oi. - Acenei tentando parecer amigável e procurei pela mesa a tal garota incrível. Bom, só podia ser Florence, a única menina, mas ela parecia mais interessada em fumar sua maconha e mexer no cabelo de Maxxie do que em olhar pra mim.
- Bom, Angie ainda não tá aqui... Ela deveria estar. - Miles disse (provavelmente para si mesmo) tentando achá-la na multidão. - Oh, ali está ela! - de repente, vi Chris sair correndo atrás de Angie. Ela era mesmo bonita.

- Sou Angella Shelsher. - ela sorriu, beijando minha bochecha. - Mas me chame do que quiser.
Angie está ótimo. - sorri ladino. - Sou Tom.
- Quer dançar, Tom?
- Claro.

# Bela

Eu já não aguentava mais.
- Pai, estou realmente passando mal e já são nove da noite. Podemos ir? - insisti mais um pouco e ele finalmente pareceu me ouvir.
- Tudo bem, filha. Vou apenas ao escritório do Gregory ver uns papeis e nós vamos.
- Certo. - suspirei resignada, torcendo para que fossem poucos papeis.
- Pra que tanta vontade de sair daqui? - Brendon provocou mais uma vez. Ele tinha plena certeza de que seus olhos extremamente verdes, seu maravilhoso cabelo escuro e arrepiado na frente, seus dentes brancos e sorriso malicioso me enlouqueciam. E Brendon Baker estava certo. Perto dele, eu sempre estava enlouquecida de vontade de enchê-lo de porrada.
- Acho que você não tem noção do quanto te odeio.
- Você me ama, Bela. Aprenda isso.
- Eu sinto repulsa quando o assunto é vo-
Mas o barulho da porta me interrompeu. Alice entrou em sua (agora ex) casa de mãos dadas com o namorado, com seu sorriso radiante e olhos tão verdes quanto os do irmão.
- Alice! - nos abraçamos. Eu senti mesmo falta dela.
- Bela! Que saudade! Como você tá linda!
- E você?! Meu Deus! Seu cabelo tá lindo! - reparei que estavam muito mais curtos. Seus fios escuros costumavam ser longos e muito lisos, e agora batiam um pouco abaixo do ombro.
- Sim, cortei! Kurt disse que preferia antes, mas eu amei assim. - ela passou a mão nas madeixas.
- Eu acho que vou ter que discordar do Kurt... - o olhei, vendo-o sorrir.
- Até eu discordo de mim mesmo agora. - ele declarou e eu ri comedidamente.
- Vim passar um tempo aqui na casa do papai. - Alice contou e eu me senti feliz. Nós éramos muito amigas. - Oi, pirralho! - acenou para Brendon, que ignorou. - Oh, ele continua temperamental.
- Continua tudo de ruim, como sempre foi. - confirmei e Brendon comentou desnecessariamente que eu o amava.
Tive que ir embora (agora não mais tão felizmente quanto antes) alguns poucos minutos depois. Eu estava alegre por saber que Alice havia voltado à Londres. Ela tinha se mudado para Nova York com o namorado para cursar uma faculdade de medicina lá. Lembro-me de ver Sam dando Graças a Deus por isso - elas não se gostavam muito.
Quando cheguei em casa, tive que esperar meu pai ir dormir para começar a me arrumar. Quando fiquei pronta – uma de minhasroupas costumeiras e maquiagem escura - já eram onze e quarenta.
Corri para a casa de Sam e ela já me esperava na porta. 
- Você está atrasada, sua prostituta.
- Eu sei, desculpa, mas hoje meu pai demorou a ir pra cama.
- Sr. Wilson te deu cobertura até aqui?
- Óbvio, senão eu demoraria ainda mais.
- E você viu as roupas que mandei pelo Luke?
- Não deu tempo, me arrumei às pressas.
- Mas trouxe a grana?
- Trouxe, Sam. - rolei os olhos e lhe dei as duzentas libras gastas em roupas. Eram muitas roupas, acredite. - O que estamos esperando?
- O sinal do Sr. Wilson!
- Ah, sim...
- Daqui a pouco ele deve mandar uma mens... Chegou! - ela exclamou ao receber o sms do nosso vigilante noturno. "Barra limpa" era o que dizia na tela.
Isso significava que nenhum dos nossos vizinhos estava circulando, ou olhando pela janela. Ele era o vigia noturno da vila e nos ajudava toda noite. Um cara excepcional. Nós simplesmente amávamos aquele homem. Sério.

Ao chegarmos à rua do Fabric, ligamos para Chris.
ALÔ. - mal consegui o ouvir.
- CHRIS, VAI AO BANHEIRO, JUMENTO!
CALMA AÍ, TO CHEGANDO LÁ, SÓ UM MINUTO... - bufei, revirando os olhos e tentando não rir. - Pronto. Fala, Bela! Já chegaram?
- Estamos aqui embaixo, Miles.
Certo. Vou me despedir de todos e já desço. Ah! Têm uns caras legais, eles são novos aqui, será que eu posso...
- NÃO! Nada de iniciantes. Essa noite é só de nós três, Chris. Já combinamos isso. - reclamei, e Sam me deu razão.
Tá, calma, não precisa morder. Me esperem aí, tchau! - ele desligou e desceu alguns poucos minutos depois.

Chris nos conduziu até um outro lugar da cidade, mais distante do que eu esperava. Sam ficou fazendo perguntas sobre o que era, mas ele não quis falar. Só disse que nós iríamos amar.
A rua, diferente de onde era Fabric, era muito movimentada pra aquela hora da noite. Não que tivesse muitas pessoas na rua, mas, comparado ao local ao qual estamos acostumados, aquilo parecia muito movimentado. A moto foi estacionada perto de um prédio comercial não muito grande. Não consegui entender quando Chris disse que era pra nós entrarmos naquele edifício.
- Que porra é essa, Christopher?
- Relaxa, Sam. Apenas siga o mestre.
De tão vazio, nossos passos ecoavam por toda a recepção do prédio. Tudo estava escuro, silencioso e sinistro, mas a curiosidade, naquele momento, era o meu combustível.
- Chris, tem certeza que você não está chapado demais e trouxe a gente pro lugar errado? Isso aqui é um prédio onde pessoas decentes trabalham, e não onde loucos feito nós fazemos festa. - Sam quis saber.
- Sam, já disse pra relaxar. - ele parou em frente a uma porta comum, que parecia de acesso à escada.
E era.
Descemos as escadas até o andar debaixo, que consistia num estacionamento. Caminhamos mais um pouco por ali e eu já estava ficando impaciente.
- Chris, você não está sendo muito convincente, rodando que nem uma barata tonta por esse estacionamento. - falei.
- Vocês estão extremamente chatas hoje! Não beberam antes de vir, né?
- Não. - nossas vozes ressoaram em coro.
- Sabia! Mas, olha, tá vendo aquela tampa de bueiro? - ele apontou e nós concordamos. - Ali é nossa porta. Eu só estava procurando aquela tampa. Percebe como ela é a maior de todas?
- Vamos logo! - corri até lá, ansiosa pra saber a que tipo de lugar estávamos indo.
Assim que puxamos a tampa, já pude escutar o barulho vindo de longe. Descemos a escadinha que lá se encontrava e andamos por uma espécie de túnel, onde, a cada passo, a música ficava mais alta.
- Essa é uma entrada provisória. - Chris explicou. - Essa boate só será estreada na próxima sexta e a entrada será pelo outro lado, por dentro do prédio. Estamos numa festa especial de pré-inauguração da...
- Aura. - paramos em frente a uma porta, encarando o minúsculo letreiro avermelhado e as luzes de dentro escapando pelas frestas.
Foi Sam quem leu, entusiasmada, segundos antes de abrirmos a porta.
- NOSSA, CHRIS! COMO VOCÊ DESCOBRIU ISSO?! - eu estava boquiaberta.
- Sou especial, vocês sabem...
Aquele lugar era... Indescritível. Eu já achava Fabric fantástica, mas Aura era, sem dúvidas, surreal.
Era tudo escuro e o chão piscava. Sim. As luzes vinham debaixo do piso transparente e em curtos intervalos. A decoração era com elementos (barras, pontos) em néon, que me lembravam da galáxia. Tudo era meio... Galáctico.  O bar era gigantesco, a área com mesas era minúscula. Devia ter 15 mesas no mínimo. E não havia ninguém lá. Todos dançavam. Todos.
Quando olhei para o lado, não encontrei nem Sam e nem Chris, o que me fez gargalhar e mergulhar naquele mar de gente para curtir uma noite num lugar que eu sabia que iria marcar minha vida.

- EI, BELA, BELA! BELAAAAAA!
- Sim.
- Estou bêbada.
- Eu também. Acho que... Mal consigo ficar de pé, HAHAHHAHAHAHAHAHA!
- Eu... Já peguei uns doze caras. Um deles estava com umas pílulas. Eu não tomei.
- Combinamos de não nos drogar... - eu disse.
Nós tínhamos esse combinado. Não usávamos droga. A fumaça que ingeríamos não propositalmente era tanta que sempre saíamos das festas com a sensação de ter consumido algo, mas nós nunca realmente usávamos. Foram raras as vezes que eu me droguei, de fato. Raríssimas. Talvez umas duas ou três.
- Eu nunca tomei aquelas pílulas. Mas hoje... Hoje eu quero provar.
- Eu também. - assumi. Eu estava nessa vibe hoje. Não sei por quê.
- Vamos arranjar com o Chris, vem.

- Chris. Queremos pílulas. - fui direta, assim que o achamos perto do banheiro. Ele pareceu subitamente animado. Quer dizer, mais que o normal (já que ele era SEMPRE muito animado).
- Tenho esses quatro últimos aqui. Eu tomo dois e vocês ficam com o resto.

E depois disso, eu só me lembro de ter acordado no meu quarto no dia seguinte, com a sensação de que eu estava muito, MUITO, fodida.

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Thomas demorou um tempo pra se acostumar com a claridade, depois que abriu os olhos.  Cambaleando, deslocou-se até o banheiro e sua cabeça parecia pesar toneladas, apesar de não sentir dor alguma.
Ele demorou mais que o normal pra fazer a higiene matinal. Sentia-se realmente lento, mas seu cérebro pareceu finalmente despertar assim que viu um sutiã rosa sobre a tampa da privada.
Saiu do banheiro, confuso, atrás de explicações, já que não se lembrava de levar garota alguma para a cama naquela noite.
- Er... Danny? - chamou, assim que invadiu o quarto do amigo.
- Quê? - Jones não deu muita atenção, continuando compenetrado em sua busca por algo dentro do armário.
- De quem é esse sutiã? - Thomas mostrou a peça ao outro, que nem ao menos se deu ao trabalho de olhar.
- Não deve ser meu, cara.
- Eu sei, Danny, os seus são um pouco maiores. Seus peitos são muito grandes pra caberem nisso. - revirou os olhos com ironia. - Sério, de quem é?
- Eu não sei, deve ser de uma das garotas que Harry trouxe.
- E o que estava fazendo no meu banheiro? - perguntou curioso, recostando-se no batente da porta.
- Ele entrou lá porque o banheiro dele ainda está entupido, fedendo a merda e completamente bagunçado.
- Eles se comeram no meu banheiro enquanto eu dormia?
- É provável que sim. - Danny finalmente tirou a cara do armário, encontrando o rosto incrédulo em sua porta - Não acho minha cueca lilás!
Tom rolou mais uma vez os olhos e saiu do quarto do amigo, voltando para o seu. Ele precisava colocar alguma roupa porque não seria nada bom cruzar com uma das garotas do Harry nesses trajes íntimos. Ele não era como Danny ou Dougie que saíam pelados pela casa, pouco ligando se havia visita ou não.

- Esse é o lado péssimo de morar com amigos... - pensou ele em voz alta, pouco antes de encontrar a calcinha, também rosa, da menina, debaixo do armário da pia. -... Nós não temos privacidade! Como Harry simplesmente entra no meu quarto pra comer uma garota? 


Bela estava com medo de levantar da cama. Não sabia se todo o sistema que havia construído com Sam tinha ido por água abaixo, não sabia se seu pai tinha descoberto, não sabia como tinha parado em sua cama... Ela não sabia de nada.
- Bom dia. - Escutou a voz de seu irmão soar e, na mesma hora, preocupou-se com a rigidez incomum de suas palavras.
- Luke... O que aconteceu ontem?
- Sam me ligou. Disse que você estava mal e pediu pra que eu fosse buscá-las. Já eram quase cinco da manhã e você estava jogada no estacionamento do shopping, desacordada e completamente... Drogada. - a olhou incisivo, fazendo-a sentir-se subitamente mal. - Por que você se drogou? Você me deu sua palavra, há tempos atrás, de que não faria isso. - sua voz era grosseira, mas ele não se exaltou em momento algum.
- Não fale como se você nunca tivesse se drogado. - Bela retrucou, irritadiça.
- É diferente! Eu nunca prometi isso a você, e se eu tivesse prometido, certamente cumpriria.
Talvez ele estivesse certo. 
Talvez.
Ela suspirou forte.
- Não quero que você use essas coisas de novo, ouviu?
- Desculpe, Lucas, mas você não é meu pai, não manda em mim e eu faço o que eu bem quiser com a porra da minha vida! Se eu quiser me afogar nas drogas eu vou, foda-se se você acha ruim ou não! - cuspiu as palavras de modo grosseiro, pouco se importando com o olhar severo lançado pelo irmão. Ele levantou-se bruscamente da cama e disparou em direção à saída do quarto, olhando-a brevemente antes de bater a porta. 
Bela pôde sentir toda a decepção emanada daqueles olhos acastanhados e, sentindo o arrependimento assolar seu coração, esbravejou, lançando um travesseiro contra a parede.
- Merda! 
Ela simplesmente ODIAVA brigar com Lucas. Ele era a pessoa pela qual mais prezava nesse mundo inteiro. Luke era, basicamente, o centro do seu universo. E, além disso, não era como se ela tivesse razão na discussão que travaram segundos antes. Bela realmente prometera não se envolver com drogas, quando o contou sobre as escapadas noturnas. Ela havia descumprido sua palavra. Havia falhado com seu melhor amigo. 
Sentiu-se verdadeiramente mal.


- Filha? - Bela escutou a voz preocupada do pai enquanto ele entrava em seu quarto, logo depois dela sair do banho.
- Se sente melhor?
- Er... Bem melhor. - sorriu incerta.
- Vou te levar a um médico, princesa... Seu irmão me falou do seu mal estar durante a noite. Você vive passando mal, isso deve ser alguma coisa.
- Oh, não, não precisa se preocupar pai. Eu to bem, isso tudo é apenas uma consequência do ciclo feminino.
- Tem certeza? - Edward a avaliou com os olhos.
- Claro.
- Se os sintomas continuarem, não tem discussão, você vai ao médico, tudo bem?
- Sim, pai. - sorriu novamente pra ele, recebendo um outro sorriso de volta. - Vou para a casa da Sam daqui a pouco, ok?
- Ok. - O escutou murmurar ao sair do quarto.

---

- Teve um retiro. Retiro das mulheres solteiras. - Sam explicou, trazendo mais cerveja para todos. - E, olha, não vou ficar de garçonete não, tá, folgados? Se vocês querem beber, vão lá e peguem com suas próprias mãos. - jogou-se no sofá.
- Então sua mãe vai passar o fim de semana fora? - Chris inquiriu, recebendo a confirmação de Sam com um aceno de cabeça.
- Ou seja... Temos uma casa vaga para festas! - Spencer vibrou.
- Claro que não, Spencer. A mãe da Sam é amiga de todos os nossos vizinhos E ISSO INCLUI MEU PAI. Com certeza ia dar problema se nos vissem envolvidos nesse tipo de coisa. - disse Bela, ouvindo múrmuros de concordância vindos de Bradley, que logo adicionou:
- Ela me colocaria de castigo pela eternidade, se mudaria para as Bahamas e cortaria os pulsos.
- Ah, Sam, não exagera. - Angie reverberou, abraçando PJ pelas costas. - Não dá nem pra gente fazer uma reuniãozinha?
- Reunião tipo essa? - Sam questionou, erguendo uma das sobrancelhas e descruzando as pernas.
- Talvez um pouco mais animada.
- Ah não, Angie. Aí complica. - Sam reprovou. - Por que não faz na sua casa, então? Seus pais não são crentes e estão pouco se fodendo se você anda fazendo merda com um bando de drogados.
- Sua grosseria me encanta, Bradley. - Angie bufou, fazendo Bela rir junto com Chris e Maxxie.
- Ei, desamarrem essa cara! Vou colocar uma música pra gente dançar! - Bela pulou do sofá e caminhou apressada até o aparelho de som. Deixou numa radio qualquer e começou a dançar com Chris, enquanto Maxxie e PJ tentavam fazer o passo da minhoca, sem obter sucesso. Não demorou pra que Sam se juntasse a eles na dança. 
Spencer e Angie não eram como os demais, no entanto. Os dois não eram tão "felizes" como o resto do grupo. Não dançavam loucamente como se não houvesse amanhã, não eram de rir muito ou contar piadas. Spencer era mais o estilo de menino que ficava sentado com sua bebida, analisando as mulheres pra decidir quais ele levaria pra cama. Era rápido e intenso, assim como Angella. Ela era quase como a versão feminina dele. Gostava dessa coisa de seduzir e instigar.
Maxxie era gay, porém ficar com homens na frente de todos não era de seu feitio.  PJ era quase assexuado. As drogas eram seu lance. Nem homem, nem mulher. Bela desconfiava que ele nunca tivesse beijado alguém, e o problema não era feiura, na opinião dela, porque, acredite, PJ era um menino bonito. Talvez um pouco nerd demais, mas nada que atrapalhasse tanto assim. A real questão é que ele não gostava de nada além de drogas. Diferente de Chris, que também era bastante viciado, mas muito mais sociável. Chris era, para Bela, o tipo que todos querem por perto. Extremamente simpático e engraçado. Ele era autentico, nunca se conhece alguém igual. Alguém que usa roupas tão desconexas e coloridas, alguém tão alheio a tudo, tão distraído e burro, mas, ao mesmo tempo, pilhado e esperto. Bela não sabia bem como defini-lo, mas ele era, com toda certeza, alguém com quem ela sempre queria poder estar junto.

# Tom

O fim de semana passou tão rápido que quase morri de desgosto quando escutei meu boneco do James Brown gritar I Feel Good. Eu costumava gostar mais dessa música antes começar a usá-la como despertador...
Levantei da cama me sentindo exausto e fui lavar o rosto, ainda meio desacordado.
- Por que escola, meu Deus? Por quê?!
Certo, eu fico um pouco dramático nas manhãs de segunda...

- Ei, Tom... Viu meu leite? - Harry perguntou - Já é a segunda vez que meu leite some dessa porra. - fechou a geladeira com força.
- Desculpa, cara, fui eu. - Jones se entregou, cabisbaixo, com a metade do cabelo TODA pro alto (senti uma vontade absurda de rir disso), coçando o sovaco e sentando na bancada. - Mas é que ontem de manhã eu senti muita vontade de beber leitinho quente... Não pude me controlar, desculpe.
- Danny, às vezes você não percebe o quanto consegue ser gay. - Comentei, só pra não deixar passar, enquanto me servia de cereal.
- Porra, Danny! - Harry esbravejou. - Você pode beber leitinho de MUITOS lugares! Você podia ir à merda do mercado ali na esquina e comprar leite, você podia comer uma mulher que acabou de ter filho e chupar o peito dela, você poderia até foder uma vaca e tomar leite da teta! Mas o meu leite? Quantas vezes disse que ele é só meu?
- Ah, Harry, não exagera. Bebe outra coisa. - sugeri, sem realmente me preocupar com a história.
- Eu compro mais leite hoje pra você, cara. - disse Danny, meio indiferente, e Harry bufou.
- Certo, é bom que compre mesmo. Cadê o Dougie? A gente vai se atrasar.
Não que Judd realmente se importasse com isso. Ele só estava querendo ser chato pra tentar nos irritar. Harry costumava fazer isso quando estava estressado... Nada que eu, Danny e Doug já não estivéssemos acostumados.

- DOUGIE, FODEU, FODEU, ACORDA, TÁ VINDO UMA TSUNAMI E GOVERNO PEDIU PRA EVACUAR A CIDADE, ACORDA PORRA, ACORDA LOGO!
- AAAAAAAAAAAAAAAAAH MÃE, SOCORRO, POR FAVOR, MAMÃE, ME AJUDA! - Dougie saltou da cama e começou a correr pelo quarto enquanto nós três nos mijávamos de rir. - Ah, seus filhos da puta. - ele gesticulou nervosamente. - Tem como vocês me acordarem dignamente UM DIA dessa vida?
- Não. - respondi ainda rindo. Eu não gostava de ter crises de riso (apesar de ter muitas), porque às vezes eu ria fino que nem mulher. 
Mas eu não sei por que exatamente falei isso.
- Se arruma pra escola, cabeça de cabaço. Já são quinze pras nove. - Harry avisou e todos saímos do quarto.

- Filmou Danny? - perguntei, descendo a escada. Referia-me ao surto matinal do Dougie.
- Claro que sim! Vamos ver. - ele mexeu no celular e sua feição animada deu lugar a uma duvidosa. - Ué...? Cadê? Er... Acho que não apertei o play, foi mal.
- Porra, Danny, seu inútil. - dei um tapa em sua cabeça e decidi ir logo para a escola. 

# Bela

- Johnson! Está, por algum acaso, ouvindo o que eu tô falando?! - Sam indagou, irritadiça.
Não, eu não estava.
- Claro que sim, Sam. Continue.
- Duvido! O que eu tava falando, então?
- De como Danny Jones consegue ser gostoso e sensual com aquela gravatinha da escola mal amarrada.
- Ai, sua puta, cachorra, falsa! Eu não estava falando nada disso! - estapeou meu braço.
- Outch, Sam! Foi mal... É que eu tava distraída.
- Novidade...
Dei uma risadinha antes de sentar na última carteira da penúltima fileira. Sam sentou ao meu lado, na carteira colada à parede.
- Enfim, como eu estava dizendo, você pegou a prova de Literatura? - ela sussurrou.
- Ah! Peguei. - Respondi no mesmo tom e vasculhei minha bolsa atrás da avaliação.
Bom, esse era mais um dos nossos esquemas. 
Como eu fazia pra ser uma aluna brilhante, com as notas mais altas de toda a escola? 
Simples. 
Descobri a senha do computador do meu pai, onde ele armazena todas as provas bimestrais, trabalhos e testes surpresa, além, logicamente, dos gabaritos. E é óbvio que eu compartilhava tudo com a Sam.
A partir daí, você já pode entender de onde nossas notas boas vinham.

- Aqui está, professora. - entreguei minha prova, depois de uma hora inteira fingindo fazê-la. Como tinha decorado as respostas, eu resolvi as dez questões em pouco mais de cinco minutos. 
- Obrigada, senhorita Johnson. Corrigirei ainda hoje e mando alguém lhes entregar mais tarde. - Ela sorriu pra mim.
- Tudo bem. - assenti antes de voltar para o meu lugar. Mesmo depois de longos sessenta minutos de prova, eu tinha sido uma das primeiras a acabar. 
- Ei, Johnson! - escutei um sussurro. Era Harry Judd, que estava na minha diagonal. - Sabe a sete?
- Hm... Ela pergunta em qual movimento o texto se encaixa, certo? - Harry confirmou com um movimento rápido de cabeça, intercalando seu olhar entre mim e a professora, entretida com seu livro de Shakespeare. - É o Modernismo.
- Valeu. - Ele sorriu brevemente, antes de anotar a resposta.

# Tom

Estava quase na hora da saída e o professor de física enchia nossos ouvidos sobre as curiosidades do espaço sideral. Eu não podia estar mais interessado.
É sério.
-... E, bom, falei sobre tudo isso na aula de hoje porque vou passar um trabalho em grupo. - Sr. Wurts informou, sentando sobre a mesa com seu jeito despojado. - Vocês terão que abordar algum fenômeno físico relacionado ao espaço, e as leis da física que expliquem os respectivos fenômenos. Além disso, quero também algumas curiosidades, fatos surpreendentes que não tenham sido comentados na aula. Façam um trabalho bem feito, pessoal. Podem entregar na próxima aula. O melhor ganhará dois pontos diretamente na média bimestral. - a turma vibrou nessa hora - Quero três grupos de dez. Vocês podem escolher seus grupos nesses cinco minutos restantes e me informem na hora que o sinal tocar, mas sem caos, por favor!
Ignoramos a parte do "sem caos". 
A turma inteira se ouriçou, preocupados em formar bons grupos, afinal, dois pontos na média é algo indiscutivelmente maravilhoso. 
- Cara - Dougie chegou perto de mim - Eu já me fodi em Literatura hoje cedo, já me fodi em matemática, em Inglês, em Geografia, Química, Biologia e...
- Já entendi que você está muito fodido, Poynter.
- É. E ainda faltou falar de Física. Eu PRECISO desses dois pontos, a gente tem que fazer um grupo bom.
- Eu também tô muito ferrado... - Danny comentou. - Em tudo. Se eu não começar a melhorar agora, vou acabar reprovando. Aí sim: FODEU.
- Eu e Tom somos razoáveis em física... - Harry disse pensativo. - Mas precisamos de mais gente boa no grupo.
- Meninos, podemos fazer com vocês? – Brooklee Bailey, a líder de torcida gostosa com peitos lindos, veio nos perguntar, enrolando uma mecha de cabelo.
- Er... - eu não sabia exatamente como dizer "não" sem ser grosseiro. Brook não era burra, mas Física definitivamente não era sua melhor matéria. Além de tudo, tê-la no grupo, junto como suas amiguinhas igualmente gostosas, seria uma GRANDE distração, e não uma ajuda. - Você é boa em Física?
- Não, mas você é, não é, Fletcher?
- Na verdade, não. - Menti. - Estamos todos precisando de pontos e queremos fazer com alguém inteligente.
- Oh, nós também! - Ela sorriu, sentando sobre a minha mesa.
- Podemos chamar Lizzie Lancaster. - Danny opinou, olhando para a menina concentrada em seu livro, no canto da sala. Ela era a mais nerd da escola inteira, nunca vi seu rosto direito já que tava sempre escondido atrás de algum livro sobre fatos Históricos. Bizarra...
- Seria uma boa. - Harry concordou.
- Então vai ficar... Você, eu, Sophia, Yawanee, Judd, Poynter, Jones, Lizzie... - Brooklee foi contando nos dedos. - Faltam duas pessoas.
- Bela Johnson. - Falei. Foi a primeira pessoa em quem pensei. - Bela Johnson e Sam Bradley. São as outras duas mais inteligentes. Elas vão ajudar.
- Boa, cara! - Dougie se animou.
- Acha mesmo que a Johnson já não tem grupo? - Yawanee perguntou com descaso.
- Não custa tentar. - dei de ombros.
Brook e suas servas fecharam a cara. Eu achava a coisa mais idiota do mundo essa rixa entre elas. Até porque, a meu ver, Bela e Sam realmente defecavam para tudo isso.  
- Vamos lá! - Harry me puxou pela camisa pra perto das duas, que papeavam, alheias à bagunça, sobre algo aparentemente muito engraçado. - Er... Oi, meninas.
- Olá, Judd! - Bela sorriu simpática e Sam acenou, também sorridente.
Sorri pra elas pra não parecer antipático, e fui devidamente retribuído. Reparei em como o sorriso de Bela era surpreendentemente ainda mais bonito quando visto de tão perto.Mas por que mesmo estou me prendendo a esses detalhes?
- Já têm grupo pro trabalho? - Harry perguntou.
- Que trabalho? - Bela devolveu a pergunta com um olhar confuso. Eu e Judd nos entreolhamos rapidamente, sem entender.
- Urgh, Bela, você deveria cavar um buraco no chão e se jogar lá dentro, nos poupando com a sua morte. - Sam disse, ácida, enquanto Bela ria. - Como você consegue NUNCA prestar atenção em NADA?!
- Ok, discussões à parte: que trabalho? - ela repetiu a pergunta, ignorando as reclamações da amiga, e eu dei uma risada antes de responder.
- O trabalho que o professor acabou de passar sobre a galáxia. - pude ver seus olhos brilharem com a informação. Então ela também gostava da galáxia?
- Jura?!
- Sim... - Harry respondeu em tom de obviedade e logo depois deu uma risada antes de continuar - Você andou se drogando antes da aula?
- Não. - ela deu de ombros e eu observei Sam segurando um risada, provavelmente por causa de alguma piada interna. Garotas têm essas coisas. - Enfim, nos querem no grupo de vocês, é isso?
- É. - ele assentiu. - O pessoal do meu grupo é meio burro e precisamos de pessoas inteligentes.
Escutamos o sinal bater.
- E então? - perguntei ansioso. - Pode ser?
- O Jones tá no grupo? - Sam quis saber e Bela não conteve uma gargalhada alta.
- Está.
- Então tudo bem, Thomas. A gente tá dentro. - ela sorriu rapidamente. - Vamos, Bela, tenho que te mostrar uma coisa.
As duas foram saindo com pressa e eu as acompanhei com o olhar. O estranho foi quando Bela, inesperadamente, retribuiu o olhar antes de ser puxada porta afora pela amiga. Ela sorriu minimamente, me fazendo sorrir de volta.
Não sei exatamente por que, mas eu fiquei olhando que nem um babaca para aquela direção por um tempo indeterminado, pensando sobre como havia gostado de receber aquele último sorriso, até o Dougie me cutucar.
- Que foi, seu drogado?
- Nada... - reverberei vagamente. - Vamos? Temos um laboratório de química a limpar!

---

- Ela perguntou isso?! - Danny riu.
Já estávamos em casa há algum tempo, descansando depois de mais um ensaio.  
- A nerdzinha está na sua, Jones! - Harry zoou, dando tapinhas em seu ombro. - Imagina os dois namorando... Danny querendo transar e Sam o pedindo pra esperar enquanto ela estuda sobre Karl Marx.
- Não seja idiota, Judd... Eu nunca namoraria a Sam. Ela é... Sei lá. Estranha.
- A acho bonita. - Dougie disse, mudando o canal da TV.
- Eu também. - concordei enquanto me concentrava no meu cubo mágico. - Eu nunca vou conseguir colocar todas as cores em uma face só! - reclamei, largando o cubo colorido de lado.
- Eu não disse que ela é feia, só disse que é estranha. - Danny justificou.
- E daí? Você também é. - Argumentei e todos concordaram.
- Porra... Eles repetem o mesmo episódio umas três vezes por semana! - Dougie reclamou, desligando a TV.
- Você já viu todos os episódios de Tartarugas Ninjas de qualquer jeito... - Harry falou, tomando o controle da mão dele e ligando a TV novamente.
- Cara... - Danny me chamou um pouco mais discretamente, enquanto Harry e Dougie discutiam. - Você pegaria a Sam?
- Eu pegaria a Bela.
- Eu também. Mas eu também pegaria a Sam.
- É, eu também. Já foram três “tambéns”. Quatro, com mais esse. – informei e ele deu uma risadinha antes de continuar.
- Mas... Você não acha que elas são... Sei lá, um pouco chatas demais? Nunca conseguiria pegar uma garota com o perfil delas... Deve ser uma merda. Inclusive, elas não devem nem saber o que é pênis.
Gargalhei alto com a suposição.
- Pode crer... - concordei, depois voltei a rir.

# Bela

- O que é que você queria me mostrar? - Perguntei curiosa, ao chegarmos à sala de dança.
- Nada não, era só uma desculpa pra sair logo dali. Perguntar sobre o Jones não foi uma coisa muito inteligente de se fazer...
- Não mesmo! - concordei rindo. - Está gamadinha!
- Eu, gamadinha? Pffff - abanou o ar com descaso. - Eu só acho que ele é lindo. Vai ser uma delícia fazer o trabalho de Física olhando pra ele. Não é nada como o seu amor secreto pelo Fletcher.
- O que?! - me dei ao trabalho de gargalhar. Certo, por mais lindo que ele fosse, eu nem mesmo me lembrava da existência de Thomas Fletcher durante a maior parte do tempo. - Claro, sou louca por ele. - ironizei, terminando de trocar a roupa para começar a aula. 

- BOA! Ficou ótimo, Bela, nossa! - Lia aplaudiu, junto com Sam. - Andou ensaiando?
- Pior que sim! - ri baixo. - Essa série é difícil...
- Você fez tudo perfeito. - Ela sorriu, apertando minha bunda. - Sua vez, Brooklee!
Fui me sentar ao lado de Sam enquanto Brooklee dançava sua série.
- Não sei por que você ainda perde seu precioso tempo vindo às aulas de street se você nem levanta a bunda do chão e fica com esse celular o tempo inteiro. 
- Eu tenho que fingir para a minha mãe que me exercito. - deu de ombros. - Segundo ela, o corpo é o templo de Deus e temos que mantê-lo saudável! - disse debochadamente. 
- Não deveria brincar com essas coisas. - opinei, porém sem esconder minha vontade de rir. 
Eu ainda tinha minhas duvidas sobre a existência de Deus, mas preferia não brincar com esse tipo de assunto. Sei que devemos respeitar e tudo mais, só que é impossível quando se trata da Sra. Bradley. Seu excesso de religiosidade rendia-me boas gargalhadas.
A aula se passou rapidamente e eu fui embora com um pedido de Lia pra que a ligasse à tarde. Sabia que não seria nada bom, já que pude perceber suas tentativas falhas de nos convencer que estava tendo um dia normal. Ela era minha amiga e eu sabia que tinha algo errado.

Adentrei meu quarto, desovando meu material escolar sobre a escrivaninha. 
Eu estava cansada. 
Decidi me deitar por alguns momentos e, fitando o teto, pus-me a pensar sobre a vida.
Tudo vinha sendo muito estranho nos últimos três anos. Minha mãe foi embora quando eu ainda era uma pequena garotinha de dois anos. Não me lembro de seu rosto e não há fotos para que eu possa ao menos ter uma ideia de suas características físicas. Meu pai sumiu com todos os vestígios dela. Lucas também não tem muitas memórias, ele acabara de completar oito anos quando ela partiu deixando somente um bilhete que dizia "Não dá mais. Essa vida não é para mim".
Luke sempre culpou meu pai. Edward Johnson nunca fora uma pessoa muito fácil de conviver. Ele queria um mundo utópico, um mundo perfeito onde tudo ocorresse exatamente como ele gostaria. Nunca aceitara a personalidade mais descontraída e descolada do meu irmão. Quando eu tinha doze anos, comecei a observar que as coisas estavam mudando. Lucas não era mais o mesmo. Seus amigos não eram mais os que meu pai queria que fossem. Ele saía toda noite e voltava com cheiro de bebida alcoólica, imundo e nem um pouco são. 

Flashback On

- Luke? - minha voz saiu fraca e tímida. A verdade era que eu estava com medo dele.
- Sim, Bee?  - Respondeu, enquanto vestia uma jaqueta de couro.
- Vai sair hoje de novo?
- Vou. 
- Por quê? - tomei coragem e perguntei. - Por que está tão diferente? Não gosta mais de nós? - ele, então, parou o que fazia e me olhou intrigado.
- Claro que não, Bee. Eu te amo mais que tudo, você sabe disso. - suspirou. - Vem cá. 
Atendendo a seu chamado, caminhei inibida até ele, e sentei ao seu lado na cama. 
- Vou te explicar tudo. Sei que você é esperta e vai me entender. - suspirou novamente. - Olha... Não gosto do jeito como meu pai quer controlar minha vida. Ele não aceita quem eu sou de verdade, ele quer que eu mude só pra manter as aparências. Quer que a gente pareça uma família adorável, quer que nós sejamos filhos perfeitos quando na verdade, nossa família está começando a cair aos pedaços por culpa dele mesmo. - pausou, me olhando nos olhos e ajeitou uma mecha de meu cabelo. - Eu estou apenas fazendo o que me dá na telha! Não quero maia saber das opiniões dele.  - sorriu.
- Tudo bem, eu te entendo. - sorri também. - Vou dormir, tome cuidado. - levantei-me, sentindo o coração apertar. Minha família está desmoronando? O que isso quer dizer? 

Flashback Off

Aos catorze, comecei a entender melhor o que Lucas queria dizer. O meu pai era uma pessoa insuportável. Eu até mesmo entendi minha mãe, por ter ido embora. Não que isso tornasse sua atitude menos inescrupulosa, mas eu podia imaginar o que ela passava.
O sentimento de rebeldia, de reafirmação da minha personalidade, de identificação pessoal me atropelou como um caminhão. Eram os hormônios da adolescência, eu sabia, mas o que fazer diante daquilo? Não pude controlar. Comecei a me interessar pelo mundo do meu irmão, pelas festas que ele vivia indo e pela vida que ele levava. Eu queria aquilo. Queria diversão. 
Não nasci pra ser a nerd que meu pai queria que eu fosse. O foi então que tomei minha decisão. 

Conheci Sam aos doze, quando ela matriculou-se na escola de meu pai, e nós nos tornamos amigas por uma semelhança em nossas historias.  Eu havia sido abandonada pela minha mãe, ela, por seu pai. 
Sam nunca havia o conhecido pois o indivíduo abandonou a Sra. Bradley logo que soube que seria pai. Não era à toa que Sam tinha apenas um sobrenome. Nem isso o cara deu à filha. Aliás, a única coisa que o sujeito quis dar foi o espermatozoide. 
Sua mãe era quase uma freira, e seria, se fosse católica. Uma das poucas igrejas evangélicas de Londres a tinha como membro mais fiel. Obviamente, Sra. Bradley fazia questão que a filha fosse igual. 
Nós duas - Sam e eu - passávamos pelo mesmo problema.
Então, na avalanche de hormônios dos catorze anos, partimos para essa vida dupla. Aos poucos, fui me acostumando, me familiarizando e conhecendo pessoas incríveis como Chris. 
Em três anos, minha vida mudara drasticamente. Eu e Sam passamos a ser conhecida em todas as boates alternativas que frequentávamos. Passamos a ser tão populares quanto Chris, naquele universo. Não há quem vá às "festinhas" e não conheça Chris Miles, Sam Bradley e Bela Johnson. 
Na escola, eu precisava manter as aparências, no entanto. Eu e Sam somos vistas apenas como nerds que tiram notas boas e não têm vida social. Pra eles, somos idiotas sem amigos. 
Que se danem todos eles. Em pouco tempo eu sairia da escola e seria livre de todo aquele sufoco, de toda aquela personalidade falsa que eu era obrigada a sustentar. 

O barulho agudo do telefone fixo interrompeu meus devaneios, me fazendo despertar do mar de reflexões no qual me encontrava mergulhada. 

# Tom

- Fletcher, se esse seu telefone tocar de novo, enfio ele no seu rabo! - Danny esbravejou, jogando o aparelho em mim. 
- Animal, não percebeu que eu tava dormindo e não escutei tocar? - retorqui antes de atender. - Alô.
Thomas Fletcher! - Uma voz familiar saudou. - É o Chris! - Ah, sim. Chris.
- E aí, cara, a que devo a honra?
Eu liguei porque vou dar uma festa. Seria legal se você fosse, tá afim? 
- Que horas, onde e quando?
Hm... Às nove, no campo aberto ao lado daquela Madeireira que fica no começo da estrada.
- Hoje mesmo?
É claro!
Que idiota dá uma festa no início da semana assim, sem mais nem menos? 
Bom, eu sou o tipo de idiota que faria isso, certamente.
- Estaremos aí! - confirmei.
Beleza, até mais, cara! 

# Bela

- Bela, é para você! - a voz do meu pai ecoou da sala e eu atendi no meu quarto.
- Alô.
- Bela? Por que não atendia o celular? - reconheci Thalia do outro lado da linha.
- Hm... Não sei. Eu estava distraída e meu celular tá pra vibrar. - expliquei. - Desculpa, Lia, esqueci totalmente de te ligar.
- É... Eu já esperava, sua cabeça não é muito boa. - brincou, fazendo-me rir antes de iniciar o assunto. - Não tô muito bem hoje. - ela admitiu o que eu já sabia. - Terminei com meu namorado e não, não quero falar sobre isso. Eu consigo superar sozinha. - garantiu, mantendo sua típica pose de durona.
- Entendo...
- Te liguei pra avisar que quero ir com você numa dessas suas festas loucas. 
- Hum, wow! Que inesperado! - ri um pouco - Está mais que bem vinda. Hoje o Chris arranjou uma festa legal, a céu aberto, você vai gostar e nem vai se incomodar muito com o cheiro da maconha, porque o lugar não é fechado. - falei sério mas ela riu, o que me fez rir também. 
Certo... Quer que eu passe aí e te dê carona?
- Ah, seria ótimo! - Exclamei, me ajeitando no colchão. - Mas passe na casa da Sam. A mãe dela não está e eu vou dizer ao meu pai que vou dormir lá.
Tudo bem por mim, o caminho é o mesmo de qualquer jeito. 
- Pois é. - concordei vagamente. - Então a gente se vê mais tarde!
- Isso! Até mais. Beijo.
- Beijo. 
Desligamos. Fui até o closet escolher uma das minhas roupas escondidas. 
Quando a combinação me pareceu razoável, separei a maquiagem necessária e uma muda de roupa para o dia seguinte. Coloquei tudo e mais alguns objetos pessoais numa mochila qualquer e avisei ao meu pai que dormiria na Sam.
Chegando lá, começamos a nos arrumar para a nossa noite e alguma coisa me dizia que seria fatídica.

# Tom

- CA. RA. LHO. - Harry soltou assim que avistamos a festa. 
Caralho.
Era só o que podíamos falar. 
Ou Chris era muito rico ou Chris era muito foda.
Ou os dois, é claro.
A festa era num campo enorme - ou algo maior que enorme - e mesmo assim parecia lotada. A iluminação era incrível e havia uma espécie de bar gigante à direita. Muitos bartenders trabalhavam, fazendo malabarismo com as garrafas de bebida e se engraçando para as mulheres... E que mulheres
Elas eram todas diferentes das superficiais comuns que costumávamos encontrar em Pubs e boates normais. Elas tinham personalidade. E belas pernas. 
A música só não era ensurdecedora porque estávamos a céu aberto. Ao andar por entre aquelas centenas de pessoas, pude sentir os cheiros mais diversos - drogas, álcool, suor, cigarro, perfumes de todos os tipos - e quase me perdi de Dougie, que era o único que ainda estava perto de mim, porque o idiota foi querer parar pra amarrar o tênis. Continuei minha caminhada árdua em busca de alguém conhecido - além de Dougie, Harry ou Danny - mas fui surpreendido ao ser cutucado no ombro. Virei-me no intuito de descobrir quem era a dona - eu sabia que era mulher - do dedo e a surpresa apenas aumentou com que meus olhos encontraram. 

# Bela

- Johnson! - Chris me agarrou no meio do caminho. - Demorou! 
- Pois é... A gente se perdeu algumas vezes. - dei uma risadinha e apontei pra Lia, que jazia inquieta ao meu lado.  - Essa aqui é a Thalia. Lia, esse é o famoso Chris.
- Muito prazer, Chris! - ela sorriu, apertando sua mão.
- Seja bem vinda a minha festa, Thalia! - Cumprimentou ele, sorridente. 
- Essa festa é mesmo sua, Miles? - ergui uma sobrancelha, descrente.
- Claro que não! - abanou o ar com descaso, me fazendo rir alto. - É de uma amiga da Angie, mas eu digo que é minha, para mais pessoas virem e me acharem legal. 
- Justo. - Dei de ombros e ri mais um pouco.
- Ei, cadê a Bradley? - Chris perguntou entre uma golada e outra de cerveja.
- Mal chegamos e ela saiu correndo pela festa porque precisava beijar alguém. - repeti as próprias palavras dela e Lia riu.
- Ela disse que a boca estava seca hoje, precisava beijar. - me completou. 
- Ah, venham aqui! - Chris pareceu lembrar-se de algo - Preciso apresentá-las para uns caras que conheci. Eles são demais!

Andamos cinco minutos com Chris para nada, os tais caras estavam sumidos pela festa. Logo decidi parar para beber e dançar junto com Lia e mais alguns conhecidos. Mal percebi quando Sam e Maxxie se juntaram a nós. 
Algum - muito - tempo depois, já sentia minhas pernas moles. 
Muito provavelmente por conta do álcool em excesso na minha corrente sanguínea. Eu precisava sentar um pouco. Sentar e beber mais. Caminhei cambaleando pelo espaço lotado, sentindo as gostas de suor brotarem em minha testa. Eu já estava chegando perto do bar quando dois braços que eu conhecia bem agarraram minha cintura.

# Tom

Devia ser a sexta garota de Harry, a terceira de Danny e a segunda do Dougie. Eu não estava exatamente contando.
O fato era que hoje eu tava em desvantagem, mas não liguei muito. Desde que Angie me cutucara, nós começamos a ficar e não nos desgrudamos mais. Ela era realmente muito boa. Seus pequenos seios - não tão minúsculos, mas de um tamanho bom - quase sumiam na palma da minha mão, e seus lábios cheios capturavam os meus com devoção. Angella sabia o que fazer, disso eu tinha certeza.
- Você é muito gostoso, Tom... - Vociferou em meu ouvido. - Muito gostoso.
- Quer ir lá pro carro? - perguntei, a desencostando da árvore. Estávamos nos pegando ali, onde era um pouco mais afastado do aglomerado de gente, há um bom tempo e eu não sei como não pensei nisso antes. 
- Sabia que você era um cara esperto. 

Volto a dizer: como não pensei nisso antes? Não que eu me importe muito agora, mas foi constrangedor fazer todas aquelaspreliminares num lugar onde todo mundo podia ver. No entanto, também não é como se aqueles tipos de pessoas ligassem. Eles faziam tudo isso bem mais expostamente.  
- Tom? - Angie chamou com a voz rouca. - Tem camisinha?
- É claro. - sorri ladino, antes de subir o nível da minha noite. 

# Bela

- Spencer... - murmurei, sentindo seus beijos em meu pescoço. - Não te vi em lugar nenhum.
- Nem eu. - disse ele, virando-me pra que ficássemos frente a frente. - Estou com saudade disso aqui. – apertou minha cintura fortemente e abocanhou meus lábios com urgência. 
Spencer e eu já fomos namorados. Eu tinha quase dezesseis naquela época. Lembro-me de ter começado a namorar com ele como uma forma de provocar meu pai. Não que ele soubesse de onde Spencer vinha ou como o conheci, mas eu tinha certeza que não aprovaria. Pra ele, eu namoraria apenas Brendon Baker, mais ninguém. 
E, é claro, só depois dos dezoito.
Mas as coisas não eram tão fáceis para meu ex-namorado. Ele realmente gostava de mim. Quando terminamos, pouco mais de cinco meses após o início, Spencer ficou abalado e eu me senti culpada. O jeito que arranjei pra ficar em paz comigo mesma foi dar a ele toda a liberdade de ficar comigo quando quisesse. Por isso, desde então, ficamos constantemente. 
Mas também não é como se fosse uma tarefa complicada para mim. Além de Spencer ser extremamente bonito, seu beijo tinha um bom encaixe com o meu e sua pegada era indiscutivelmente maravilhosa. 
Estávamos nos beijando há alguns minutos quando Sam me puxou fortemente, exibindo uma expressão de desespero. Não fiquei preocupada de início, já que Sam era uma pessoa realmente exagerada, principalmente quando estava bêbada. Entretanto, meus sentidos se aguçaram quando observei que Lia também exalava desespero pelos olhos. 
- O que foi?!
- O Tom tá aqui, Bela. Tom Fletcher e seus amiguinhos da escola. – Sam explicou nervosamente. 
O QUÊ?
Como assim?! 
- O que diabos Thomas Fletcher está fazendo aqui?! Vamos embora agora!
- Vamos, antes que algum deles veja a gente. - Sam me puxou pela mão e nós fomos correndo até o carro de Thalia.
- Que merda! Que raiva! - esbravejei, entrando rapidamente dentro do carro. - Que porra eles estão fazendo aqui?! Isso não é lugar pra eles.
- Estava me perguntando a mesma coisa! - Sam ralhou, do banco de trás. - Eles deviam estar lá naquele Pub que o pessoal idiota da escola vai. O Tigger. 
- Ei! Eu vou ao Tigger, qual é o preconceito? - Lia brincou, arrancando com o carro. 
- Nenhum. - dei de ombros - Mas ele não se compara ao nosso bom, velho e secreto Fabric.
- Ou ao nosso bom, novo e igualmente secreto Aura. - disse Sam, me fazendo concordar.
- Preciso conhecer esses lugares, então. - Concluiu Lia, trocando a marcha.
- Então vamos, ora! Ainda são dez praz quatro, a madrugada é uma criança e o Fabric nunca para! - Sam exclamou gesticulando e Lia pisou mais forte no acelerador antes de sentenciar:
- É só me ensinar o caminho. 

# Tom

Whoa! I feel good
I knew that I would, now…I feel goodI knew that I would…
Senti os raios de sol invadirem meu quarto pela pequena fresta entre as duas bandas da cortina, incomodando meus olhos. 
 Acertei com força o James Brown sobre a mesa de cabeceira, e o boneco-despertador caiu no chão, continuando com a cantoria.
- Urgh! – urrei irritado. - Merda de despertador! - impulsionei-me para fora da cama, apanhando do chão o atual foco da minha desgraça e desligando-o.
Pensei em não ir à escola naquele dia, já que havia dormido, no máximo, durante duas curtas horas naquela madrugada, mas logo me lembrei de uma questão pendente da noite passada:
Eu havia visto Bela Johnson beijando um cara no meio da pista de dança, assim que saí do carro com Angie. Tinha certeza. 
Se não era ela, era alguém muito parecida. 
Eu precisava esclarecer minhas duvidas, então a curiosidade me moveu naquela manhã. Driblando o sono, me vesti rapidamente e desci para comer algo, me surpreendendo ao encontrar Danny, Harry e Dougie ali também.
- Pensei que não fossem ter disposição pra escola hoje. - falei, sentando junto com eles e começando a servir-me do café da manhã.
- Pensei o mesmo. - Danny confessou, mastigando um pedaço de pão. - Mas hoje tem prova de Geografia.
A prova! Aquilo nem passou pela minha cabeça... Eu provavelmente teria faltado se não fossem minhas questões pendentes.
- Ontem eu vi a Bela na festa. - Contei, um pouco menos entusiasmado do que gostaria por conta do sono. 
- Puta merda, olha as ideias. - Harry não deu a menor credibilidade, debochando da minha notícia fatídica. Coitado de mim.
- To falando sério! Era ela com certeza. Ou um clone talvez.
- Mais provável que tenha sido um clone que ela construiu durante um estudo de biologia em seu laboratório pessoal. - Dougie zombou, arrancando gargalhadas de Danny.
- Pode até ser, mas era ela, de qualquer forma. – reafirmei com certeza.
- Tom, meu querido, cai na real! - Danny exclamou. - O que uma garota dessas faria numa festa daquelas?! Não faz nenhum sentido, vê se maneira na bebida, hein, cara. 
Realmente. 
Eu estava bêbado. E não fazia o menor sentido Bela Johnson estar naquele ambiente. Mas eu podia jurar que era ela (por mais bêbado que estivesse) usando as roupas mais incríveis que já vi. 
Eu não era como Danny, que tinha alucinações quando bêbado. Aliás, eu sempre fui um bêbado bem comportado, já que nem costumava consumir tanto álcool assim. Não era possível que estivesse fazendo tamanha confusão... Era? 

 # Bela
Dormi em praticamente todas as aulas, naquele dia. Só acordei pra fazer a prova e isso já foi muito para mim.
Tom não estava sendo nada discreto e isso me fazia surtar. Ele não parava de me lançar olhares durante as aulas... Por isso preferi dormir. Além de estar extremamente cansada, qualquer coisa era melhor do que aqueles olhos cor de mel me analisando.
Foi um alívio quando ele decidiu matar aula com seus amigos, no último tempo.
- Percebeu que ele ficou olhando pra gente? – Sam sussurrou.
- Percebi. – suspirei. – Ele podia ser mais discreto, pelo menos.
- Eu não consigo entender como eles foram parar lá... - Devem ser conhecidos da verdadeira dona da festa, e foram originalmente convidados, antes do Chris entrar na história. – supus.- Provavelmente sim... Na verdade, eu espero que seja. Ninguém merece um bando de retardados estragando nossa vida.Eu ri com a reclamação.- Desde quando acha que eles são retardados? – perguntei debochadamente e ela empinou o nariz.- Ué, desde sempre. Não é porque são bonitos e legais que não podem ser retardados.- Ah, ok... – continuei com o tom debochado, finalizando a conversa antes que o professor nos chamasse atenção.

# Tom

 No final da penúltima aula, recebi uma mensagem do Harry que veio em boa hora.
“ Vamos lá pro terraço? Não to afim de ter mais nenhuma aula...”
 Alguns poucos minutos depois, nós quatro já estávamos lá em cima, sentados perto da caixa d’água sobre o céu azul e limpo, e jogando conversa fora.
- Eu passei a aula inteira de olho nela, hoje.
- Você é meio idiota, eu sempre soube. – Harry disse, arranhando o chão com uma pedrinha.
- Não, sério. Ela estava muito sonolenta. É por causa da festa de ontem.
- Deixa de ser retardado, Fletcher! – Danny reclamou. – Já dissemos que é obvio que não era ela.
- Eu vi com meus próprios olhos, cara. Era ela sim!
- Eu tô com uma vontade absurda de mijar. – Dougie falou de repente, cortando o assunto.
- Por que você não foi ao banheiro antes de subir aqui? – questionei, e ele deu de ombros, sem saber responder.
 - Eu vou mijar nas calças!- Faz aí na caixa d’água... – sugeri, sem realmente pensar a respeito.- Que nojo! – Danny murmurou rindo – Tem gente que vai beber essa água da escola... Com urina de Dougie!- Desde que eu não beba está tudo bem. – Harry balançou os ombros. – Mas, com certeza, os professores bebem... E o diretor também.- Então vou botar esse ingrediente especial na água deles... – Poynter decidiu. O ajudamos a empurrar a tampa da enorme caixa d’água, e ele abaixou as calças.- MAS O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! SEUS BANDIDOS! DIRETORIA, A-G-O-R-A! – assim que a voz desesperada de Helga encontrou meus tímpanos, meu cérebro processou somente uma informação: fodeu.

# Bela

- Johnson. – Brooklee me chamou quando o sinal bateu.
- Oi. – respondi educadamente.
- Pode ir à minha casa hoje para começarmos o trabalho de Física?
- Er... Mas meu grupo é com os meninos do McFLY... – Era o nome da banda deles, que todos da escola conheciam.
- Johnson, o grupo é de dez pessoas. – Ela falou, meio agressiva. – E vocês todos estão no meu grupo.
Oh, droga.
- Ah, tudo bem. Posso ir, então.
- Apareça lá depois da dança. – disse. – Tchau.
Virou-se bruscamente, com seus cabelos enormes chicoteando o espaço entre nós.
Eu não entendia toda essa implicância de Brooklee contra mim e Sam. Talvez porque ela não goste de ninguém que não seja tão popular quanto ela.
Na verdade, eu prefiro achar que é por causa de Brendon. Todos sabem da obsessão dele para comigo e ele, bom, é do time de futebol da escola (lindo, popular, gostosão e blá blá blá). Mas o fato é que essa obsessão vem desde muito antes dele entrar na escola. Meu pai é amigo dos Bakers há anos, por isso Brendon desenvolveu essa espécie de sentimento – não que seja bom, mas não deixa de ser um sentimento – por mim. Com certeza, se tivéssemos nos conhecido na escola, ele nem ao menos olharia na minha cara. Mesmo assim, me sinto melhor achando que toda a implicância de Brook é inveja e não pena.
Mas enfim, minha vida de colegial não é um clichê só por ter uma líder de torcida bonita e popular que não gosta de mim, e tem uma queda pelos caras bonitos e tão populares quanto ela. Isso é uma lei natural da vida, pois:
1 – Para ser líder de torcida - além de ser uma pessoa fútil, patricinha, metida e tudo mais – você precisa ser bonita e popular.
2 – Quando você se torna uma líder de torcida, você automaticamente se sente melhor que todo mundo, e começa a esnobar os pobres e oprimidos e cobiçar os caras gatos, maravilhosos e populares da escola, para obter o máximo de atenção possível.
3 – Se você é uma líder torcida, você passa a viver numa sociedade hierárquica onde a capitã sempre será a abelha rainha, e as subordinadas farão tudo o que ela quer. Ou seja: a capitã sempre ficará com os melhores caras.
Então, volto a dizer. Só porque Brooklee é a capitã gostosona, linda, perfeita etc etc das líderes de torcida, e é metida e desagradável, não significa que tudo é um clichê. É apenas a lei natural da vida. E o mesmo serve para os caras do time de futebol.

Caminhei até a sala do meu pai, junto com Sam, depois de contá-la sobre a conversa com Brooklee Bailey. Quando me aproximei da porta escrita “diretoria”, Helga veio me interromper.
- Desculpa, senhorita Johnson. Seu pai está ocupado.
- Ocupado com o quê?
- Com os meliantes de sempre... A trupe do mal.
 Sim, eu sabia de quem ela falava. E eu adorava tudo aquilo que eles viviam fazendo.- O que eles fizeram dessa vez? – Sam quis saber.- Eles ficaram loucos! Extrapolaram os limites – esbravejou a rechonchuda, com seu sotaque russo – O Sr. Poynter urinou na caixa d´água.Quase morri de rir. Internamente, é claro. Pude ver que Sam passou pelo mesmo processo dificílimo de prender a risada.- Está brincando! – Me fingi de indignada. – Que travessos!- Não acredito que cometeram tamanha infração! – Sam utilizou o mesmo tom que eu, e Helga concordou.- Eles são mesmo incorrigíveis! Sr. Johnson os suspenderá, com toda certeza. – ela informou e eu me senti mal por eles.No momento seguinte, a porta da sala do meu pai se abriu e os quatro saíram, com expressões indiferentes. Quis rir. Meu pai devia estar absolutamente irritado.
Pus-me a caminhar na direção da sala novamente, deixando pra trás o hall que precede a diretoria, mas meu coração afundou quando senti uma mão envolver meu braço devagar. Eu sabia de quem era.
- Bela... – Tom Fletcher chamou meu nome, enquanto tirava a mão do meu braço – Hm... Você por acaso... Estava, er... Quero dizer, ontem à noite, você estava...
- Na minha casa estudando. – Sam interrompeu. – Sim, ela estava lá, não é mesmo, Bela? Ela estava lá porque a gente ama estudar até tarde, sem parar. Oh, mas nós também vimos alguns filmes. Foi engraçado porque a Bela até chorou em Marley e Eu, sendo que ela não chora com nada! Fala sério, é só um cachorro que morre! Tudo bem que ele morre, eu até chorei também, mas ela, que é uma insensível, foi chorar logo com isso? Muito idiota. Ah, eu já falei que a gente estudou muito? Pois é, nós estudamos dema-.
- Tudo bem, Sam. – a cortei, pra minha vida não ficar pior. Tom já estava com uma das sobrancelhas erguidas, e eu não sabia onde enfiar minha cara. – Ele já entendeu.
- Er... Certo. Então, até mais. – ele pigarreou. – Vocês vão à casa da Brook, não é?
- Vamos. – respondi rápido, antes que Sam decidisse recomeçar com a falação.
- Então tá... A gente se vê. Tchau. – acenou, virando-se e começando a andar.
- Me lembre de nunca te deixar falar quando estivermos mentindo sobre algo. – sentenciei, antes de entrarmos, finalmente, na sala do meu pai.

- Pai... Só vim pra avisar que hoje, depois da aula de dança, vou à casa da Brooklee pra fazer um trabalho, tudo bem?
 - Sim, sim... – ele não me deu nenhuma atenção, mexendo em alguns papeis. Parecia transtornado.
- Ok, então até mais tarde.
- Até.

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# Tom

- O que você estava perguntando a ela, cara? – Dougie inquiriu assim que me reaproximei deles.
- Não me diz que era sobre a noite passada. – disse Danny, me olhando impaciente.
- Ela contou que estava estudando na casa da Sam... – confessei desapontado.
A professora de dança!

- A gente disse! A gente disse que não era ela! – Jones voltou a falar. Mas eu não me conformava. Claro que era! Eu vi muito bem! Era o mesmo rosto, só que lotado de maquiagem, no escuro, e com muitas pessoas passando pela frente...
Ok, talvez haja alguma margem de erro. Mas é pequena! Eu não confundiria o rosto dela assim.
Não que isso signifique algo.
Continuamos caminhando, destinados à sala de química laboratorial, mas, ao passarmos pelo pátio, uma lâmpada acendeu sobre minha cabeça.
Eu tinha certeza que também havia a visto na noite anterior. Isso era inegável. Inclusive, fora ela quem me fez concluir que a menina aos beijos com um cara era Bela Johnson. Eu tinha a visto, mas não me lembrava de onde a conhecia, então a segui com os olhos enquanto ela se aproximava de uma garota que depois descobri ser Bela. Na verdade, não foi uma descoberta, foi uma forte suspeita. E ainda é, apesar da explicação de Johnson e Bradley sobre a noite passada.
Corri na direção dela e me esforcei para frear antes de derrubá-la.
- Ei, você é a professora de dança, certo?
- Hm... Sim. Thalia Hoppus. – estendeu sua mão para nos cumprimentarmos.
- Tom Fletcher. Er... Ontem você estava numa festa, onde eu estava também. – afirmei, sem dar espaço para oposições. – Com quem foi?
- Erm... Eu... E-eu... Por que quer saber?
- Você estava com Bela Johnson, não estava?
- O que? Não. Não, não estava. – riu brevemente. – Bela é uma grande amiga, mas não pra esse tipo de evento. – Thalia informou, frustrando-me.
- Hum, entendo. Tudo bem, eu só queria saber, porque pensei tê-la visto ontem.
- Oh, com certeza não era ela. Deve ser alguém parecida. – sorriu novamente. – Tenho que ir, vou dar aula agora. A gente se vê. – me deu as costas, seguindo seu caminho contrário ao meu.
- Você é doente ou o quê? Tá mamado, cara? – Harry gesticulou indignado. – Quantas pessoas mais vai abordar pra se convencer de que NÃO ERA BELA JOHNSON QUEM ESTAVA NAQUELA PORRA DE FESTA ONTEM?
- Eu já me convenci. – me ouvi dizer. Sim, era verdade. Assumo que talvez o álcool houvesse influenciado um pouco as minhas conclusões.  Pelo menos eu tinha essa desculpa. – Foi mal, eu tava bem bêbado e aquele cheiro de maconha deve ter me afetado um pouco.
- Depois eu que tenho delírios quando bebo... – Murmurou Danny, voltando a andar.

# Bela

- Muito bom, gente. Estão dispensados. – Lia disse, encerrando a aula. – Bela, vem cá.
- Sim? – falei ao me aproximar o suficiente, percebendo que o assunto era particular.
- Também quero saber! – Sam veio correndo, se juntando a nós.
- Tom veio me perguntar se você foi àquela festa ontem. Ele me viu lá.
- Sério?! – espantei-me. – E o que você disse?
- Que não era você. Falei que ele devia estar se confundindo, porque você não costuma ir a esses lugares.  – eu e Sam suspiramos aliviadas com a informação. – Mas eu quero saber por que vocês tanto querem esconder isso deles.
- Lia! Seja esperta! – Sam exclamou – Imagina se eles descobrem? Acabou todos os nossos personagens. Do jeito que aqueles quatro são malucos, aposto que vão tirar uma foto, imprimir mil cópias e espalhar pelo colégio.
- Eles iriam contar pra todo mundo. – completei. – E nós duas estaríamos fodidas.
- Entendo. Bom, tudo bem, nunca pensei em contar pra ninguém mesmo. – deu de ombros. – Hoje vocês vão sair de novo?
- É claro! – confirmei sorridente.
- Me incluam na lista!  - disse Lia, enquanto nós andávamos até a saída da sala.

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Cheguei junto com Sam à casa da Brooklee. Eu imaginava algo bem mais luxuoso, já que ela fazia questão de exalar riqueza. Quem nos recebeu foi a Sra. Bailey, segurando um poodle minúsculo no colo. Ela informou que todos estavam no porão, nos esperando para começarem.
- Oi, Johnson. Oi Bradley. – fomos recebidas sem nenhuma alegria (previsível) pela anfitriã e eu só reparei em duas coisas: “O QUE BRENDON ESTAVA FAZENDO ALI?” e “Por que Brooklee estava de camisola?”
Bom, a resposta para a segunda pergunta era clara. Uma tentativa – provavelmente, bem sucedida – de seduzir e impressionar os meninos.
Quanto ao Brendon, a resposta mais admissível era que ele era um dos integrantes do grupo. Por isso, eu me chicoteava mentalmente por não ter perguntado sobre quem faria o trabalho conosco antes.
- Brooklee, desculpe minha indiscrição, mas... Por que você tá de camisola? – Foi a primeira coisa que Sam proferiu, e eu quis rolar de rir. Mas me contentei em só soltar um barulho, pelo nariz, de quem prende a risada.
- Eu fico de camisola quando estou em casa, oras. – Ela respondeu depois de alguns segundos atônita.
Ah, como eu amava a espontaneidade de Bradley.
Observei que Thomas Fletcher e seus amigos riam discretamente (ou pelo menos tentavam), disfarçando suas gargalhadas com os livros perante os rostos. Uma das amiguinhas fieis de Bailey (Sophia, se não me engano), também ria. Gostei disso.
- Sim, claro. Posso imaginar. – replicou Sam, indo sentar perto de alguém (Danny Jones, com certeza).
- Ah, gente, me esqueci de falar. Brendon entrou no nosso grupo porque Lizzie Lancaster não quis fazer conosco. – Brooklee comunicou.
Posso entender a coitada.
- Oh, ótimo... – Fletcher sussurrou ironicamente e, como estávamos lado a lado, pude escutar.  Sorri pra ele perceber que eu concordava com sua insatisfação.
- Tá feliz com isso, Bela? – Baker começou com as provocações, sem se preocupar com todo aquele público.
- Obviamente não. – respondi sem ao menos olhar para aquele ser desprezível.
- Está sorrindo por que, então? – perguntou, erguendo as sobrancelhas.
- Não que eu lhe deva alguma satisfação a respeito das minhas atitudes, mas é que Tom é uma pessoa legal. – achei minha resposta inteligente, e Fletcher surpreendeu-se com a menção de seu nome. – Ele falou uma coisa engraçada que me fez rir.
- Podemos nos concentrar no trabalho, por favor? – Brooklee interrompeu a troca de farpas depois de pigarrear. – Sobre o que vamos fazer?
- Eu estive pensando... Podíamos fazer sobre o buraco negro. – a asiática, Yawanee, eu acho, sugeriu e eu adorei a ideia.
- Boa! – Tom exclamou. – Pensei sobre isso também.
- Sabe alguma coisa disso, Bela? – Harry me perguntou e eu assenti. Sam me olhou descrente desse fato, mas eu não liguei. Precisava manter as aparências de nerd, não é?
- Posso explicar a vocês, mas preciso ir ao banheiro antes. Tô meio apertada. – falei.
- Tem um banheiro aqui embaixo. – Brooklee disse. – É aquela porta ali. – apontou, e eu segui naquela direção.
Tranquei-me no pequeno cômodo, sentei sobre a tampa da privada e peguei meu celular, pesquisando rapidamente – antes que as pessoas começassem a achar que eu tava cagando o banheiro todo – sobre o buraco negro.

- Certo. – suspirei, ao sentar de volta em meu lugar. – Podemos começar?
- Claro. – assentiram.
- O conceito do buraco negro foi desenvolvida de acordo com a teoria geral da relatividade.  – comecei e Sam percebeu tudo, depois de alguns minuto de explicação. Eu tinha um grande facilidade com oratória, então podia encher bastante linguiça com as poucas informações que eu recordava. Fui falando sobre o assunto durante um bom tempo e quando me vi sem mais ideias, concluí.
- Então podemos resumir tudo isso em uma apresentação oral, passar alguns vídeos interessantes e fazer uma maquete representando um buraco negro perto de um sol, pra mostrar mais ou menos o tamanho dele e tudo mais. – Sophia opinou.
- Sim, perfeito. – Brooklee concordou. – Vocês vão anotando as informações pra dividir as falas enquanto eu, Tom, Harry e Brendon subimos pra pesquisar vídeos, ok?
Eu quis rir.
- Tudo bem por mim. – falei, por fim.

# Tom

Eu estava encantado pelo modo como ela dominava o assunto do espaço sideral. Bela era um pessoa adorável, apesar dos pesares. Talvez, o fato de ela ser nerd não fosse tão ruim assim.
Não que isso signifique algo, obviamente.
Passamos a tarde compenetrados no trabalho e, no fim, acabou ficando bom. Ainda faltava alguns detalhes da maquete, mas deixaríamos para outro dia.  Estávamos quase indo embora, quando Brooklee nos chamou.
- Meninos, vou dar uma festa no próximo fim de semana. – ela informou. – E queria que vocês fossem.
- Ah, claro, podemos ir.  – Danny deu de ombros.
- Certo, será ótimo! – sorriu, mexendo no cabelo. – Oh, Bradley e Johnson, eu sei que vocês não vão, mas estão convidadas. – Brooklee deu de ombros, ajeitando seu... Traje íntimo.
- Que ótimo jeito de se convidar alguém, Bailey. – Sam respondeu ironicamente.
- Esse tipo de ambiente é um tanto inóspito para pessoas como nós, Brooklee, mas valeu pelo convite, de qualquer forma. – disse Bela, sorrindo educadamente. Eu gosto do sorriso dela, já falei disso não é?
Não que signifique alguma coisa, claro.
- Hm... Já vamos indo. São quase oito horas e meu pai não gosta que eu pegue ônibus no escuro. – Bela voltou a falar e eu acabei dizendo sem raciocínio prévio:
- Querem uma carona?
- Não tem lugar pra duas pessoa no carro, Fletcher! – Harry rapidamente interveio, me deixando meio sem graça.
- Ah, quê isso!  A gente aperta!  - Dougie falou e eu decidi concordar.
- Não queremos atrapalhar. – Bela replicou.
- Mas uma carona seria bem vinda. – Sam foi sincera, me fazendo rir.
- Não tem problema, meninas. – Danny disse. – A gente leva vocês.
- Obrigada mesmo, mas eu realmente não ligo de ir de ônibus com a Sam.
- Espera, onde está meu cavalheirismo?! – Brendon decidiu se manifestar, enchendo o ambiente com aquela voz insuportável dele. – Tenho espaço de sobra no meu carro, lindas. Vai ser um prazer levá-las.
- Oh, Brendon, que gentileza! Mas a casa deles é bem mais perto da nossa. Vou com eles mesmo. Tchau. – Johnson respondeu acidamente e eu sorri vitorioso.

- Hmmm, isso será um pouco estranho.  – Dougie murmurou.
Estávamos enfiando quatro pessoas no banco de trás de um mini Cooper, onde três já ficavam apertadas. Muito apertadas
Harry estava no volante e Danny no carona. Eu e Dougie fomos no banco dos passageiros junto com elas mas era fato que, pelo menos, uma teria que ir no colo.
- Dougie pode ir no colo do Tom. – Harry sugeriu.
- Não! – respondi na hora, extremamente incomodado. – Ele peida! Não quero que faça isso em cima de mim.
Bela gargalhou alto e eu me senti estranhamente satisfeito com isso.
É bom quando te acham engraçado, não é?
- Então quem vai no colo de quem? – Danny questionou do banco dianteiro.
- Eu posso ir no colo da Sam.
A ideia de Bela foi bem aceita e nós tentamos nos ajeitar ali. Tentamos.
- Não dá, não tem espaço pra minha bunda aí não. – Dougie constatou o óbvio.
- Certo, precisamos mudar essa configuração. Ou o Dougie vai no colo do Tom, ou-
- Não, Harry, já falei que isso não é uma possibilidade. – o interrompi de imediato.
- Tudo bem, nós vamos no colo de vocês, sem problemas. – Sam decidiu, por fim. – Quer dizer, eu não ligo... Se vocês ligarem, nós podemos ir de ônibus.
- Claro que não! – me apressei em dizer. Claro que não mesmo. - Sentem aí.
Sim, Bela foi no meu colo, por traquinagem no destino. Ou não.

# Bela

Depois dessa viajem extremamente desconfortável, cheguei em casa, tomei banho e fiquei fazendo hora antes de me arrumar pra sair.
A noite foi incrível como sempre.
O dia seguinte foi normal, como todos os outros dias da semana.
Eu poderia pular diretamente para o dia do trabalho de física, porque nada que valha a pena redigir sobre ocorreu durante aqueles dias. 

Eu estava indo embora do Fabric pois já eram quatro e meia. Meu pai costumava me acordar às seis, então era bom que eu estivesse em casa às cinco, pelo menos. Estava perto da porta quando Angie me chamou.
- Bela! Preciso falar com você, é rápido, eu juro.
- Pode falar. – sorri brevemente.
- Eu acho que tô apaixonada.
- Ahn? Você? – ri um pouco – Por quem?
- Ah, você não conhece. É um amigo do Chris. – ela suspirou. – Mas eu não sei o que fazer.
- Conta pra ele, ora.
- Eu contaria se tivesse certeza de que ele sente o mesmo. Quero dizer, nós temos ficado todo dia. Eu já até dormi na casa dele, conheci seus amigos e tudo mais. Mas eu queria que ele me chamasse pra sair, sabe?  Que nem um casal normal.
- Wow, essa não é a Angella que conheço! – exclamei e ela riu. – Bom, vocês ainda nem são um casal... Talvez se você contar que está gostando dele, ele comece a te chamar pra esse tipo de programa. Fala pra ele! Anda, fale agora!
- Tudo bem, vou falar, mas não hoje. Talvez amanhã, se ele vier. Ele tem aula daqui a pouco, por isso já foi embora.
- Uuuuh, Angie pegando os novinhos! – a cutuquei e ela riu.
- Não costumo ficar com pirralhos, mas esse vale a pena. Você não imagina o quão gostoso e lindo ele é! E os amigos também não são nada mal, você precisa conhecê-los!
- Ok, então me apresente na próxima vez. Tenho que ir agora, Angie, Sam já desceu e deve tá querendo me matar... A gente tem um trabalho de física pra apresentar daqui a pouco.
- Certo, então vai lá. Boa sorte. – apertou minha bunda antes de voltar para a festa.

- Por que demorou tanto?! – Bradley esbravejou assim que me viu.
- Angie quis falar comigo. Está apaixonada.
- Pfff, duvido!
- Eu também, mas tudo bem...
Rimos antes de tomarmos nosso caminho.

# Tom

Não era novidade o fato de eu estar virado e morrendo de cansaço. Aquilo estava acontecendo frequentemente naqueles últimos dias, por contas das saídas com Chris. O problema era que eu deveria estar bem hoje, pelo menos na aula de física, por conta do trabalho.

- Fletcher? – a voz de Brook despertou-me. – O trabalho é no próximo e as duas nerdzinhas ainda não apareceram!
- Hm... Fale com Harry. – Essa era uma boa estratégia. Quando não se está com cabeça pra pensar em nada, passe o problema para outro.
- Harry disse pra eu falar com você! – sussurrou irritada.
- Então fale com Danny ou Dougie. Eles com certeza saberão o que fazer.
- Thomas! – exclamou, ainda em tom baixo.
- O que eu posso fazer, Brook? Não tenho como resolver esse problema.
- Vou comunicar ao diretor que sua filhinha perfeita cabulou todas as aulas do dia. Aposto que ele nem sabe.
- Melhor não fazer isso. – opinei. – Espere até a aula de Física começar. Se ela ainda não estiver aqui, tentamos contatá-las de alguma forma...
- Se elas não estiverem aqui na aula de Física, eu mesma me encargo de resolver esse probleminha com minhas próprias unhas. – grunhiu ela e eu prendi o riso, tornando a deitar a cabeça nos braços, sobre a mesa.

- Com licença, professor Wurts. – escutei a voz de Bela Johnson e suspirei aliviado, já no meio do trabalho do segundo grupo. – Eu e Sam tivemos alguns problemas. – ela comunicou. – Desculpe pelo atraso. Podemos entrar?
- Sabem como odeio atrasos na minha aula, não é? Mas vou deixá-las entrar. Só por causa do trabalho.
- Certo, obrigada. – Sam respondeu educadamente, procurando um acento vago. Os que elas costumavam sentar já estavam ocupados.

A apresentação do trabalho foi basicamente dividida entre Brooklee, Bela e Sam. O resto do grupo ficou quase todo o tempo quieto, falando somente parte do que fora ensaiado anteriormente. Mas obtivemos sucesso, a julgar pela cara de satisfação do professor, que logo veio a anunciar que nós fomos os ganhadores dos dois pontos.
Senti-me feliz, mas nada se comparava a Danny e Dougie, pulando abraçados pela sala e berrando palavrões. Concordei freneticamente com Harry, quando ele soltou um “que vergonha alheia!” durante o surto de alegria dos outros dois.
- BELA E SAM, AMO VOCÊS! – Danny as agarrou e beijou as bochechas de ambas, sendo imitado por Dougie. Fiquei um pouco constrangido por elas, mas as próprias nem ligaram. Riam mais que qualquer um.
- Não é pra tanto, Jones. – Sammy disse rindo. – Foram só dois pontos e não um bilhete premiado da loteria.
- Não, é sério, vou passar o intervalo inteiro com vocês. – Danny avisou.
- Vamos te bajular o dia todo, lamber o chão que vocês pisam. – completou Poynter, ainda eufórico.
Interessei-me subitamente naquelas declarações. Quer dizer, se os dois passariam mesmo o intervalo com elas, eu poderia passar também, não é?

Bela sentou-se à mesa segurando sua bandeja que tinha comida para ela e para Sam.
O resto – eu, Danny, Sam, Dougie e Harry – já estava lá, sob um silêncio incomum, esperando-a pra comermos.
- Olha, se for pra ficar nessa mudez toda, prefiro passar meu recreio sozinha com a Bela porque é muito mais divertido e interessante, a gente não cala a boca. – Sam avisou, nos fazendo rir brevemente.
- Concordo. – Bela disse, enfiando o canudo em seu achocolatado.
- Puxem algum assunto, então. – sugeri. – Porque eu, definitivamente, não sei o que conversar com vocês.
 - Hm, deixa-me ver... – Johnson coçou o queixo, pensativa. – Vocês moram sozinhos em uma casa, não é? Como sobrevivem sem uma mulher?
- Somos perfeitamente capazes de sobreviver sem mulheres! – Harry exclamou e eu parei, por um segundo, pra refletir sobre o quão gay aquela frase soou, se olhada por outro ângulo. – A gente divide as tarefas e vivemos bem com isso.
- Devem sobreviver de comida enlatada e pizza. – Sam especulou. Ela estava essencialmente correta.
- Claro que não! Fletcher cozinha, às vezes. – Disse Dougie.
- A verdade é que temos uma diarista que passa lá pra tirar nossas porquísses uma vez por semana, e ela deixa umas comidas congeladas pra gente... – Danny confessou. – Não seríamos nada sem uma mulher. E ainda tem a mãe do Tom que sempre melhora nossas vidas de alguma forma com suas visitinhas.
- Sabia! – Bela exclamou, rindo. – Homens não são capazes de viver sozinhos.
- Somos capazes sim! – Harry retrucou, rindo. Mas eu sabia que estava um pouco indignado, ainda que se divertisse com a conversa. Ele não gostava de ser subestimado. – Se quiserem, passem lá em casa um dia desses e mostraremos como nossa casa deve ser mais impecável que seus quartos.
- Oh, isso foi um convite? – Sam perguntou enquanto Bela erguia uma sobrancelha. Elas pareciam ensaiadas.
- Foi! – eu mesmo respondi, adorando a ideia. – Apareçam lá e provaremos.
- Certo, só nos diga quando. – disse Johnson, mantendo as sobrancelhas erguidas, desafiadora.
- Amanhã mesmo. – falei. – Podem ir amanhã, depois da aula.
- Tudo bem, estaremos lá.  – Sam confirmou e logo voltamos a conversar sobre outros assuntos menos polêmicos, como sobre o sonho de Bela de ter um zoológico (ou quase isso, considerando o número de bichos que ela gostaria de criar).
Incrível como, a cada dia, eu descobria algo sobre ela que a tornava mais intrigante e adorável aos meus olhos.
Não que isso queira dizer alguma coisa, logicamente.

Fomos pra casa, naquele dia, e não fizemos nada além de passar o dia inteiro no porão, tocando. Sentia-me cansado, à noite, e não planejava sair. Eu queria mesmo dormir, pois não andava fazendo isso direito nos últimos dias. Mas algo me dizia que o telefonema inesperado de Angie implicaria em meus planos.
- Oi, Angie. – tentei parecer cansado pra que ela pensasse duas vezes antes de me chamar pra sair, se fosse isso o que ela pretendia fazer.
Oi, Tom. Estava dormindo?
- Quase isso. – respondi, rindo um pouco. Não era exatamente verdade, mas...
Já? Ainda são nove da noite! – ela parecia animada.
- Estou meio cansado.
Entendo... É que... Bom, eu queria... Queria te ver hoje. É importante. Preciso conversar com você.
Conversar? – fiquei curioso. – Conversar sobre o que?
Sobre... Sobre nós dois.
A revelação me assustou um pouco. Não sabia o que aquilo queria dizer. Nós nos conhecíamos há aproximadamente uma semana, ela não podia estar querendo falar sobre compromisso, não é? Eu não gosto de compromissos. Ainda sou muito novo pra me prender a uma garota sem ao menos gostar dela. Angie era uma pessoa legal e, felizmente, muito bonita, mas era só isso. Eu gostava de ficar com ela, mas isso não significava absolutamente nada. Exclusividade, no momento, nem passava pela minha cabeça. Namoro era algo extremamente incogitável.
- O que quer dizer com isso?
Ah, Tom, não quero falar por telefone. Será que não podíamos nos encontrar em algum lugar? Prometo ser rápida e pode ser aí, perto da sua casa.
- Certo. Tem um Bar Italia aqui perto, sabe onde é?
- Sei.
- Então te encontro lá em meia hora?
- Sim, claro, está ótimo. Até mais.
- Até.
Desliguei e fui tomar um banho rápido.

- Então... – ela suspirou. Já havíamos pedido nossos aperitivos e bebidas, e estávamos esperando-as em nossa mesa do lado de fora, porque a noite estava um pouco quente. – Eu não sei nem como falar sobre isso porque, em meus vinte anos de vida, nunca passei por situação parecida. Mas eu acho que se eu for direta, vai ajudar. - Assenti com a cabeça, a esperando prosseguir. – Eu... Eu... Desde que te conheci, o achei especial. – Mau começo. – Você é realmente bonito e atencioso, e não é tão bobinho quanto os outros garotos da sua idade. Quero dizer, você e seus amigos são legais, sabe?
- Obrigado. – respondi por educação, já prevendo o rumo da conversa.
- E eu me senti muito bem ficando com você. Eu senti algumas coisas diferentes, até quando transamos... Bom, resumidamente, acho que estou gostando de você. Eu estou apaixonada, Tom. Só tenho pensado em você nesses últimos dias e isso nunca aconteceu comigo, estou me sentindo uma adolescente idiota.
Isso que ela chamava de ser direta? Eu já tinha entendido tudo desde o inicio. Pra mim, ser direta seria mais como: “oi, Tom, tudo bem? Estou apaixonada por você, vamos nos casar?”
- Hm, isso é... Inesperado. – suspirei fortemente. – Eu não sei o que dizer. – Fui sincero.
- Te entendo. Mas meu verdadeiro propósito, com essa conversa, não é começar algo sério nem nada. – Me senti aliviado ao ouvir tais palavras. – Eu só precisava te contar. Precisava que você soubesse e eu realmente espero que isso não interfira em nosso relacionamento porque eu adoro ficar com você, está sendo legal.
- Claro, eu também acho.
- Eu só queria que... Não sei... Só que queria que a gente pudesse ter mais tempo sozinho. Não quero pressionar nada, Tom, mas eu realmente estou gostando de você e nossos momentos sozinhos são os melhores. Talvez pudéssemos sair em outros tipos de programa, sem o pessoal...
- Hm, por mim tudo bem. É só você me ligar quando quiser fazer alguma coisa e aí a gente sai junto. – Falei, mas não era bem verdade. Eu torcia pra que ela não me ligasse.
- Oh, isso é ótimo! Obrigada, Tom, você é encantador. Obrigada mesmo, por me entender.
- Por nada, Angie. – coloquei minha mão sobre a sua, a olhando do jeito que eu costumava olhar antes de conquistar alguns... Agrados. – Disponha.

Bom, depois disso, meu mini Cooper – sim, eu fui ao bar, pertíssimo da minha casa, de carro (o cansaço era realmente grande) – serviu de “cama” de novo e eu tive mais um momento maravilhoso compartilhado com Angie, antes de deixá-la em casa.
O bom de ter alguém, gostosa como Angella Shelsher, apaixonada por você é que o sexo é sempre bom e garantido. Eu não abriria mão de ficar com ela, sendo seu nível tão alto, por qualquer outra garotinha inexperiente. Eu não era idiota a esse ponto, então... Talvez, Angie estivesse com sorte.


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