Epílogo
Times like these we'll never forget, staying
out to watch the sunset…
I'm glad I shared this with you.
You set me free, showed me how good my life could be.
How did this happen to me?...
---
# Bela
A brisa gélida - mais gelada que o
normal pra uma noite de verão em Londres - chocou-se contra o meu rosto, mas eu
não senti frio. O ambiente do qual eu acabara de sair estava demasiadamente
quente, então eu me senti confortável com a mudança brusca de temperatura.
Respirei fundo e tentei me equilibrar sobre meus coturnos, mas minhas pernas
não corroboravam. Talvez fosse efeito do álcool, talvez fosse a maconha.
- Bela, está bem?
- Sim... - minha voz soou mais
vacilante do que eu planejava. Não tinha tanta certeza se estava realmente bem.
- Que bom, porque eu não tô não.
Provavelmente vou inventar uma doença e faltar a escola amanhã... Hoje tava
muito louco!
- Hoje foi foda mesmo. - eu queria
demonstrar a minha animação, mas o cansaço e moleza dominavam cada parte do meu
cérebro. - Mas eu realmente quero minha cama agora.
- Tudo bem, vamos logo... - Sam puxou
minha mão pra que andássemos mais depressa. - Chris! Ei, Chris!
- Oi, meninas! Bela, seu sutiã tá
aparecendo... Oh, não! Acho que a blusa é assim mesmo. Que ousada! - ele
gargalhou. Drogado como sempre. Acho que nunca vi Chris "limpo" em
toda a minha vida.
- Cala a boca, Chris. Pode nos dar
uma carona? Precisamos chegar em casa logo... Já são quase cinco da manhã,
daqui a pouco o pai da Bela levanta pra trabalhar e vai dar uma merda gigante
se a princesa dele não estiver em casa, então, anda, leve a
gente.
- Sim senhora, sobe aí! - ele maneou
a cabeça indicando que subíssemos em sua moto nada sofisticada. Eu estava um
tanto inconsequente naquele momento, então simplesmente não me importei de
sentar sobre a motocicleta que seria conduzida por um adolescente chapado. Mas,
talvez, mesmo se eu estivesse completamente sóbria, não me importaria.
Quando Chris nos deixou na vila onde
eu e Sam morávamos, já passava das quatro e quarenta. Eu tinha poucos minutos.
Corremos cada uma para sua respectiva casa e a tarefa de subir a árvore que me
levava à sacada do meu quarto pareceu complicada demais. Eu estava mesmo mal
dessa vez...
Assim que meus pés tocaram o assoalho
alvo do meu quarto, escutei o despertador do meu pai tocar.
- Merda! - murmurei baixo, tirando a
roupa na maior velocidade que meu corpo permitia, enfiando o pijama que estava
sobre a escrivaninha. No minuto seguinte, eu já me encontrava afogada debaixo
dos cobertores e com o rosto enfiado nos travesseiros. Pude contar até cinco
antes de ouvir meu pai batendo na porta.
- Filha? Acorda.
- Já acordei, pai, obrigada. - tentei
não deixar que ele visse meu rosto. Eu ainda estava de maquiagem.
- Certo. Te espero lá em baixo pra
tomarmos o café da manha. Não demore ou vai se atrasar, princesa. - eu odiava quando
ele me chamava assim.
- Tá. - resmunguei, me mexendo preguiçosamente
na cama. Ao longo dos anos mantendo essa "vida dupla", aprendi
a ser uma boa atriz.
- Chegou atrasada hoje. - Olhei na
direção da qual vinha a voz e pude observar Lucas escorado no batente da porta,
com os braços cruzados, sobrancelhas arqueadas e seu fiel companheiro: o olhar
petulante, analisando-me enquanto eu escovava os dentes.
- Foi uma noite... Interessante.
- Posso sentir o cheiro de álcool e
maconha de longe... Como meu pai simplesmente não percebe?
- Eu, sinceramente, não sei... Sou
uma pessoa de sorte. - dei de ombros. - Agora sai porque eu preciso tomar
banho.
- Você é uma péssima garota, Bee... -
balançou a cabeça, inconformado, enquanto ria, provavelmente orgulhoso de mim.
Eu seria tão boa quanto ele, no
futuro.
# Tom
- Olá, Fletcher! Mais uma vez, você
por aqui.
- Oi, Sr. Johnson. - respondi sem o
menor ânimo. Eu não imaginava o quão grande era minha ficha negra, então não
sabia se deveria temer ou não aquela conversa.
- Ele não estava sozinho, Sr.
Johnson. A trupe toda estava envolvida no incidente.
- Bom saber! - Edward bradou, um
tanto irônico. - Pode mandar o resto entrar, Helga.
A inspetora rechonchuda sacudiu a
cabeça, consentindo, antes de se retirar da sala e voltar, depois de alguns segundos,
acompanhada dos meus amigos.
Os três sentaram-se ao meu lado e o
diretor nos olhou irrequieto. Um sorriso peculiar brincava no seu rosto. Ele
parecia se divertir com aquilo. O fato é que eu também me divertia, lhe
proporcionado alguns fios de cabelo a menos.
- Me expliquem exatamente o que
fizeram dessa vez. - pediu com toda sua pomposidade, entrelaçando os dedos
sobre a mesa.
- Nada demais, meu amado diretor. -
Harry começou a explicar com sua cara de indiferença. - Apenas molhamos alguns
bolos de papel higiênico e arremessamos no teto do banheiro, que estava imundo.
Nosso intuito era apenas limpá-lo.
- Claro que não, a gente queria... -
Danny ia desmentir quando Harry o cortou:
- Cala a boca, Jones. - ele ordenou
entre dentes e eu rolei os olhos. Não sei como o Danny consegue ser tão burro e
sem noção...
- O fato, Sr. Johnson, é que os porrolhos –
era como chamávamos os nossos bolos de papel higiênico molhado - deixaram o
banheiro mais bonito. Parece até um museu que eu visitei com minha tia Velma outro
dia. - Dougie opinou e eu prendi o riso, coisa que Danny deveria tentar fazer
ao invés de ficar gargalhando das nossas desculpas esfarrapadas.
- Incrível como vocês pensam que sou
idiota! Eu, por acaso, tenho cara de idiota?
- Tem. Desculpe a sinceridade, Sr.
Johnson, mas minha mãe me ensinou a sempre falar a verdade. - Danny respondeu
mantendo a integridade, dificultando consideravelmente a minha tarefa de
prender o riso.
- Pode acreditar que eu não sou
idiota, Jones. - retrucou ríspido. Sua diversão parecia diminuir tão
rapidamente quanto a minha aumentava. Pude jurar, inclusive, que o tom
enrubescido de seu rosto havia se intensificado.
- Você sabe que eu te amo, não sabe?
- Tenho certeza disso, Danny. - o
diretor parecia cada vez mais raivoso. E eu estava quase me mijando. Acho muita
graça desses momentos, sabe? - Sem mais gracinhas. Quero que me escutem bem.
Estou farto de vocês cometendo esses delitos, estão comprometendo o bom
funcionamento da minha escola e desonrando o dinheiro que seus pais investem em
vocês! A próxima visita, especialmente sua, Fletcher, à minha sala lhes renderá
uma suspensão. - Sorriu sarcasticamente. - E eu realmente espero que não haja
uma próxima vez. Estamos entendidos por aqui?
- Sim. - respondemos em uníssono.
- A propósito, a sala de detenção
ainda está em manutenção. - informou rolando os olhos e eu sorri minimamente.
Acabar com a fiação elétrica daquela sala nunca me pareceu tão conveniente. –
E, já que dificultaram o trabalho dos faxineiros no banheiro masculino, vão
compensar de outra forma. Terão que limpar a sala de química laboratorial após
as aulas. - sorriu. - Durante alguns bons meses.
- Meses?! - Dougie arregalou os olhos
e eu quase me engasguei com minha própria saliva.
- Preferem a suspensão?
- Não, não! Limpar o laboratório está
ótimo. - Harry respondeu rápido.
- Tudo bem, então comecem hoje. Estão
dispensados.
Alguns poucos minutos depois, eu
estava na aula de História ouvindo qualquer coisa sobre a Rússia enquanto
desenhava uns aliens invadindo o planeta Terra - era a minha versão de como o
mundo acabaria - e pensava no que faria hoje à noite, afinal, sexta feira não é
o tipo de dia que se pode desperdiçar ficando em casa pra jogar videogame.
- Senhorita Johnson? - escutei a
professora de história chamar e olhei, assim como toda a sala, para a dita
cuja. Ela parecia sonolenta. - Está prestando atenção?
- Sim. – respondeu indiferente. Eu
sempre a achei meio estranha. Um pouco fechada e nerd demais.
- Sobre o que eu estava falando,
então? - a professora indagou, astuta.
- Sobre a Rússia.
- Isto é óbvio. - rolou os olhos,
impaciente - Quero saber do que eu estava falando especificamente.
Observei que Bela lançou uma olhadela
discreta para o caderno de Sam, cuja cadeira estava pareada à sua, e voltou a
olhar para a professora com um quase sorriso querendo brotar em seus lábios e
um olhar que correspondia à expressão desafiadora da professora.
- A senhora estava falando
especificamente sobre a conjuntura estabelecida na Europa ocidental durante o
período de transição entre o socialismo da União Soviética e o capitalismo
Russo.
E então a professora ficou sem mais
argumentos. Johnson estava certa. Mais que certa. Era uma pessoa realmente
esperta... Eu tinha certeza que ela mal sabia do que estava falando. Sorri
sozinho, voltando a olhar para meu desenho.
---
- No que está pensando? - Harry me
perguntou e só então percebi que ele estava ao meu lado no sofá.
- Ahn?
- Você está mesmo no mundo da lua...
Passou umas duas horas olhando pra esse cubo colorido, jogado no sofá que nem
um bêbado.
- Eu tava pensando em uma pessoa.
- Em quem?
- Bela Johnson. - confessei, o vendo
arquear uma das sobrancelhas.
- Por que está pensando nela? - sua
voz demonstrava claramente o estranhamento que aquela declaração lhe causara.
- Não é nada demais... Estava
tentando entender como aquela menina funciona. Quero dizer... Eu a observo
muito, sabe? Faço isso porque tem algum mistério nela que me deixa curioso.
- Não entendi o seu ponto.
- Ela é estranha. Fica completamente
isolada com aquela menina, Sammy Bradley, mesmo com toda a atenção que insistem
em dar a elas...
- Fácil, elas são antipáticas e
metidas.
Ignorei e me remexi para continuar
meu discurso.
- Além disso, ela vive matando aulas,
não presta atenção em nenhuma matéria, mal a vejo com algum caderno na mesa,
senta sempre no fundo da sala e, ainda assim, tira as melhores notas da escola
inteira.
- Ela é nerd, deve estudar em casa.
- Ela não parece gostar de estudar...
- O que você acha que ela fica
fazendo, se a garota mal sai de casa, nunca vai às festas da escola ou qualquer
outro tipo de evento social? Ela fica entocada com o cu na cadeira lendo pilhas
de livros todos os dias.
- Talvez, mas tem alguma coisa
nela...
- Fletcher, seja lógico. Ela é apenas
uma nerd, filhinha do diretor, que quer passar pra uma universidade foda e
construir uma família tradicional.
Pra Harry, tudo é sempre muito
simples. Mas nada naquela menina é simples... Sempre a achei um pouco... Diferente.
# Bela
- Oi, Lia! - a abracei animada.
- Como vai, Bela? E onde está a Sam?
- Ah, ela foi pegar um garoto que
conheceu na semana passada. Segundo ela, o menino é rico por isso resolveu
ficar com ele mais de uma vez. Sam acha que talvez ele comece a pensar que os
dois são ficantes e a presenteie com "coisas de gente rica".
- Sam tem merda na cabeça, sempre
desconfiei.
- Sempre tive certeza disso. -
balancei os ombros com indiferença enquanto Lia ria.
Thalia era uma ótima professora de
dança. De street dance, pra ser mais exata. Porque essa é a única
dança que eu me presto a praticar. Quando eu era nova, dançava balé, mas isso
sempre foi algo que odiei fazer.
A aula era na escola, e contava como
atividade extracurricular. Eu que havia convencido meu pai a adicionar o street
dance à grade de atividades extras e, bom, foi realmente uma boa ideia. Todas
as pessoas que dançam, amam.
Apesar de ser, aqui na escola,
basicamente destinada ao público feminino, Alexander - não tenho tanta certeza
se ele faz parte do público masculino, de fato - era parte da turma. O único
homem.
Nós até que éramos amigos.
- E aí, Bela? O que vai fazer hoje à
noite? - Alex me perguntou assim que acabou a aula, enquanto Lia desligava o
equipamento de som.
- Vou à casa dos Bakers. - fiz careta
- Eles são amigos antigos do meu pai.
- É, você já comentou sobre isso. -
ele deu de ombros, amarrando os cadarços.
- E depois você vai direto pra casa,
pra dormir que nem pessoas normais fazem, não é? - Thalia, de
repente, entrou na conversa e eu a olhei, sorrindo marotamente.
- Mas é claro que
sim. - meu olhar demonstrava por si só o que eu realmente quis dizer.
Não sei se Alex entendeu algo, mas
ele desatou a rir e me deu dois tapinhas nas costas.
- Vocês são doidas... - murmurou
antes de sair da sala.
- Corrigindo: você é
doida. - Lia destacou o "você", apontando seu dedo na direção do meu
rosto. - E sabe que esse tipo de vida não é o que você quer, verdadeiramente. –
afirmou, caminhando até o interruptor na extremidade próxima à porta.
- Talvez ainda não
seja mesmo. - mexi os lábios expressando certa indiferença enquanto ajeitava
minha mochila nas costas e andava até ela pra que fossemos embora. - Mas eu
tenho certeza que vai acabar sendo, algum dia.
---
Eu encarava meu pequeno closet -
quase do tamanho de um armário, a diferença era que podia entrar nele -
desejando que eu pudesse pegar uma das minhas roupas "rebeldes", como
diria Sr. Wilson, e não aquelas vestimentas adoráveis e comportadas que
meu pai tanto gostava que eu usasse.
Me vesti rapidamente, de um jeito que
eu esperava que meu pai não reclamasse. Aquela roupa já me incomodava suficientemente
para procurar algo mais pudico.Ignorei qualquer tipo de maquiagem, e não fiz
nada no cabelo. Apenas desci as escadas para me deparar com meu irmão vestindo
roupas que me matavam de inveja. Seus jeans mais surrados do que tudo eram
rasgados nos joelhos, ele vestia uma blusa preta completamente digna, estampada
com o logo do "The Who", seus vans pretos estavam imundos, e a
jaqueta preta completava o estilo "foda-se, pai" que eu tanto
venerava.
Sorri e ele sorriu de volta.
- Mas que bonitinha! - provocou. -
Bee parece mesmo uma princesa, não é, pai?
- Apenas cale a boca, Lucas. - papai
rosnou. Eles se odiavam. Muito.
Rolei os olhos.
- Vamos logo, pai. Preciso dormir
cedo hoje. - falei e observei, de esguelha, o sorriso discreto de Luke.
- Tudo bem, Bela. - meu pai sorriu. -
Lucas, não traga seus amigos marginais e nem suas prostitutas pra casa hoje ou
você arrumará sérios problemas.
- Claro que não
trarei, querido pai! Tenho prazer em te
obedecer!
Senti vontade de rir, mas eu não
podia.
- Ah, pai, vai manobrando o carro
porque eu esqueci uma coisa lá no meu quarto...
- Certo, princesa, vai logo.
Esperei que ele saísse de casa e me
virei para o meu irmão que esperava o que quer que eu fosse dizer, de braços
cruzados.
- Sam me avisou que algumas roupas
novas chegaram. Pode ir lá buscar, por favor? – pedi, me aproximando dele.
- Posso.
- Certo. Então busque e deixe no
fundo falso do closet. E avise a ela que dou o dinheiro mais tarde. Ah, e
também avisa que o Chris descobriu um lugar novo pra gente, mande-a ligar pra
ele e pegar o endereço de onde vamos nos encontrar pra seguir até esse tal
lugar.
- Nossa, sou o oficialmente o homem
dos recados.
Sorri.
- Você é apenas um bom irmão. -
apertei suas bochechas. - Traga um de seus amigos ou alguma puta hoje... Adoro
quando meu pai fica de mal humor. - gargalhei.
- Eu também adoro. - ele sorriu
ladino ao mesmo tempo em que ouvimos a buzina do carro.
- Tchau, boa noite. – reverberei, já
me afastando.
- Boa festa. Não me deixe preocupado,
você sabe.
- Não vou. - sorri uma última vez,
antes de sair.
# Tom
- O que vamos fazer hoje, cara? -
Danny me perguntou, abrindo uma cerveja.- Por que eu tenho que escolher?- Eu
estou sem ideias. – ele deu de ombros.- Vamos a qualquer pub. Eu topo tudo
desde que não envolva nossa casa. - Harry resolveu participar da discussão - O
pessoal da escola vai ao Tigger.- Não quero saber do pessoal da escola... -
reclamei. - Quero carne fresca, entendem? - desenhei curvas femininas com as
mãos, sorrindo com malícia.- Tem um PUB muito louco que eu escutei falar... -
Dougie sugeriu e eu subitamente me interessei. - Só quem vai é um pessoal mais
sem noção... Garotas com mais personalidade, sabe? - ele riu. - E rola de tudo
lá.- Gostei.- Eu também. - concordei com Harry, já me levantando do sofá e
pegando a latinha na mão do Danny. - É pra lá que nós vamos. - Bebi o último
gole de cerveja e joguei a lata fora.
- Qual é o nome do pub? - Danny
perguntou, assim que chegamos à rua indicada no GPS do celular. Não parecia ter
nenhum pub ali.
- Fabric. - Dougie respondeu. - Vocês
devem ter errado o caminho.
- Não erramos, idiota. - Harry
retrucou, olhando envolta. - Deve ser em algum lugar dessa rua.
- Caras... Essa rua é meio sinistra,
não acham? Sei lá, pode aparecer alguém e sequestrar a gente, roubar nossos
órgãos e...
- Cala a boca, Danny. - o cortei,
achando graça. - Vamos perguntar pra aqueles caras ali, que estão fumando.
- Você ficou maluco? - pude ouvir
Danny gritar enquanto eu saía do carro. - Tom! Volte aqui!
- Ei, cara! - cheguei perto de um
deles. Todos pareciam meio intimidadores mesmo... - Sabe o onde é o Fabric?
- Iniciante... - um deles murmurou,
mas eu ignorei.
- Mano, se você nem sabe como entrar
no Fabric, nem venha falar com a gente, já é? – o outro, com uma voz que me fez
quase (eu disse quase) borrar as calças, respondeu e eu arregalei
os olhos.
- Cara, você podia ser mais educado!
- Foi sem querer, mas eu falei. E só depois fui perceber a merda que fiz. Não
que eu tenha medo de brigas, confio no meu taco, e meus amigos estão logo ali,
no carro, mas eu não costumo brigar à toa. Só que esses caras parecem exatamente os
tipos que brigam à toa...
- Como é?! – um dos grandalhões
rosnou indignado e eu recuei alguns centímetros. (coisa pouca, nem deu
pra perceber!).
- Ei! Vocês aí! - uma voz diferente,
vinda de trás de mim, chegou aos nossos ouvidos e eu virei, vendo um cara com
roupas escrotas (um pouco coloridas e sem o menor senso de combinação) se
aproximar. - Brad e Tyler, não vão arranjar briga aqui fora de novo, não é?!
- Não se mete, Chris. - um dos dois
falou.
- O que está acontecendo aqui? - Ouvi
a voz de Harry soar agressiva e só então notei que todos os meus amigos tinham
se aproximado.
- Olha, se vocês querem brigar,
briguem lá dentro! – O tal do Chris falou, meio pilhado. – Aqui fora pode dar
polícia e se eles descobrirem o que rola lá, vai dar merda pra todo mundo.
- Não vamos brigar com ninguém. -
Garanti, sem tanta certeza. - Só quero saber por onde entra na Fabric.
- Ah, sim. Me sigam.
O lugar era no fim de um beco. Uma
portinha minúscula e muito pesada - parecia ser à prova de som - revelava a
escada comprida por onde já dava pra se ouvir, ao fundo, um som baixo.
Um som baixo que se tornou
extremamente alto assim que abrimos a segunda porta pesada, no topo daquela
escada.
Era um mar de gente. Muita fumaça.
Muitas garotas gostosas dançando. Muita bebida. Muita gente se pegando
loucamente pelos cantos. Muito calor. Muitas luzes coloridas... Era louco.
- Insano... - escutei Dougie soltar,
abobalhado.
- Caralho! Volto aqui todo dia! -
Harry gritou antes de se perder por aí.
Acabei encontrando com o tal do Chris
quando fui pegar algo para beber no bar.
- Você é algum tipo de organizador ou
sócio disso aqui? - perguntei, observando que todas as pessoas, inclusive os
que trabalhavam no bar, pareciam conhecê-lo.
- Hm... Não. Eu sou apenas uma
presença importante. Estou aqui quase todo dia. Eu e minhas amigas somos a
elite da Fabric. - ele riu. - Sou Christopher Miles, e você?
- Tom Fletcher.
- Tom Fletcher? - fez uma cara
engraçada, como se estivesse confuso e com sono ao mesmo tempo. Seus olhos
pareciam pesados. - Me lembro de já ter escutado esse nome em algum lugar.
Me senti lisonjeado, por um momento.
Chris parecia o tipo de cara que conhece muita gente, então "conhecer meu
nome de algum lugar" me soou como algo importante, de alguma forma.
- Seja bem vindo ao meu segundo lar,
cara! Vou te apresentar uma garota sensacional!
O acompanhei até uma mesa grande no
canto próximo aos banheiros (onde havia várias, VÁRIAS, pessoas se pegando).
- Ei, gente, esse é Tom Fletcher.
Tom, esses são Spencer, Florence, PJ e Maxxie.
- Oi. - Acenei tentando parecer
amigável e procurei pela mesa a tal garota incrível. Bom, só podia ser
Florence, a única menina, mas ela parecia mais interessada em fumar sua maconha
e mexer no cabelo de Maxxie do que em olhar pra mim.
- Bom, Angie ainda não tá aqui... Ela
deveria estar. - Miles disse (provavelmente para si mesmo) tentando achá-la na
multidão. - Oh, ali está ela! - de repente, vi Chris sair correndo atrás de
Angie. Ela era mesmo bonita.
- Sou Angella Shelsher. - ela sorriu,
beijando minha bochecha. - Mas me chame do que quiser.
- Angie está ótimo.
- sorri ladino. - Sou Tom.
- Quer dançar, Tom?
- Claro.
# Bela
Eu já não aguentava mais.
- Pai, estou realmente passando mal e
já são nove da noite. Podemos ir? - insisti mais um pouco e ele finalmente
pareceu me ouvir.
- Tudo bem, filha. Vou apenas ao
escritório do Gregory ver uns papeis e nós vamos.
- Certo. - suspirei resignada, torcendo
para que fossem poucos papeis.
- Pra que tanta vontade de sair
daqui? - Brendon provocou mais uma vez. Ele tinha plena certeza de que seus
olhos extremamente verdes, seu maravilhoso cabelo escuro e arrepiado na frente, seus
dentes brancos e sorriso malicioso me enlouqueciam. E Brendon Baker estava
certo. Perto dele, eu sempre estava enlouquecida de vontade de enchê-lo
de porrada.
- Acho que você não tem noção do
quanto te odeio.
- Você me ama, Bela. Aprenda isso.
- Eu sinto repulsa quando o assunto é
vo-
Mas o barulho da porta me
interrompeu. Alice entrou em sua (agora ex) casa de mãos dadas com o namorado,
com seu sorriso radiante e olhos tão verdes quanto os do irmão.
- Alice! - nos abraçamos. Eu senti
mesmo falta dela.
- Bela! Que saudade! Como você tá
linda!
- E você?! Meu Deus! Seu cabelo tá
lindo! - reparei que estavam muito mais curtos. Seus fios escuros costumavam
ser longos e muito lisos, e agora batiam um pouco abaixo do ombro.
- Sim, cortei! Kurt disse que
preferia antes, mas eu amei assim. - ela passou a mão nas madeixas.
- Eu acho que vou ter que discordar
do Kurt... - o olhei, vendo-o sorrir.
- Até eu discordo de mim mesmo agora.
- ele declarou e eu ri comedidamente.
- Vim passar um tempo aqui na casa do
papai. - Alice contou e eu me senti feliz. Nós éramos muito amigas. - Oi,
pirralho! - acenou para Brendon, que ignorou. - Oh, ele continua temperamental.
- Continua tudo de ruim, como sempre
foi. - confirmei e Brendon comentou desnecessariamente que eu o amava.
Tive que ir embora (agora não mais
tão felizmente quanto antes) alguns poucos minutos depois. Eu estava alegre por
saber que Alice havia voltado à Londres. Ela tinha se mudado para Nova York com
o namorado para cursar uma faculdade de medicina lá. Lembro-me de ver Sam dando
Graças a Deus por isso - elas não se gostavam muito.
Quando cheguei em casa, tive que
esperar meu pai ir dormir para começar a me arrumar. Quando fiquei pronta – uma
de minhasroupas costumeiras e
maquiagem escura - já eram onze e quarenta.
Corri para a casa de Sam e ela já me
esperava na porta.
- Você está atrasada, sua prostituta.
- Eu sei, desculpa, mas hoje meu pai
demorou a ir pra cama.
- Sr. Wilson te deu cobertura até
aqui?
- Óbvio, senão eu demoraria ainda
mais.
- E você viu as roupas que mandei
pelo Luke?
- Não deu tempo, me arrumei às
pressas.
- Mas trouxe a grana?
- Trouxe, Sam. - rolei os olhos e lhe
dei as duzentas libras gastas em roupas. Eram muitas roupas, acredite. - O que
estamos esperando?
- O sinal do Sr. Wilson!
- Ah, sim...
- Daqui a pouco ele deve mandar uma
mens... Chegou! - ela exclamou ao receber o sms do nosso
vigilante noturno. "Barra limpa" era o que dizia na tela.
Isso significava que nenhum dos
nossos vizinhos estava circulando, ou olhando pela janela. Ele era o vigia
noturno da vila e nos ajudava toda noite. Um cara excepcional. Nós simplesmente
amávamos aquele homem. Sério.
Ao chegarmos à rua do Fabric, ligamos
para Chris.
- ALÔ. - mal consegui o
ouvir.
- CHRIS, VAI AO BANHEIRO, JUMENTO!
- CALMA AÍ, TO CHEGANDO LÁ,
SÓ UM MINUTO... - bufei, revirando os olhos e tentando não rir. -
Pronto. Fala, Bela! Já chegaram?
- Estamos aqui embaixo, Miles.
- Certo. Vou me despedir de
todos e já desço. Ah! Têm uns caras legais, eles são novos aqui, será que eu
posso...
- NÃO! Nada de iniciantes. Essa noite
é só de nós três, Chris. Já combinamos isso. - reclamei, e Sam me deu razão.
- Tá, calma, não precisa
morder. Me esperem aí, tchau! - ele desligou e desceu alguns poucos
minutos depois.
Chris nos conduziu até um outro lugar
da cidade, mais distante do que eu esperava. Sam ficou fazendo perguntas sobre
o que era, mas ele não quis falar. Só disse que nós iríamos amar.
A rua, diferente de onde era Fabric,
era muito movimentada pra aquela hora da noite. Não que tivesse muitas pessoas
na rua, mas, comparado ao local ao qual estamos acostumados, aquilo parecia
muito movimentado. A moto foi estacionada perto de um prédio comercial não
muito grande. Não consegui entender quando Chris disse que era pra nós
entrarmos naquele edifício.
- Que porra é essa, Christopher?
- Relaxa, Sam. Apenas siga o mestre.
De tão vazio, nossos passos ecoavam
por toda a recepção do prédio. Tudo estava escuro, silencioso e sinistro, mas a
curiosidade, naquele momento, era o meu combustível.
- Chris, tem certeza que você não
está chapado demais e trouxe a gente pro lugar errado? Isso aqui é um prédio
onde pessoas decentes trabalham, e não onde loucos feito nós fazemos festa. -
Sam quis saber.
- Sam, já disse pra relaxar. - ele
parou em frente a uma porta comum, que parecia de acesso à escada.
E era.
Descemos as escadas até o andar
debaixo, que consistia num estacionamento. Caminhamos mais um pouco por ali e
eu já estava ficando impaciente.
- Chris, você não está sendo muito
convincente, rodando que nem uma barata tonta por esse estacionamento. - falei.
- Vocês estão extremamente chatas
hoje! Não beberam antes de vir, né?
- Não. - nossas vozes ressoaram em
coro.
- Sabia! Mas, olha, tá vendo aquela
tampa de bueiro? - ele apontou e nós concordamos. - Ali é nossa porta. Eu só
estava procurando aquela tampa. Percebe como ela é a maior de todas?
- Vamos logo! - corri até lá, ansiosa
pra saber a que tipo de lugar estávamos indo.
Assim que puxamos a tampa, já pude
escutar o barulho vindo de longe. Descemos a escadinha que lá se encontrava e
andamos por uma espécie de túnel, onde, a cada passo, a música ficava mais
alta.
- Essa é uma entrada provisória. -
Chris explicou. - Essa boate só será estreada na próxima sexta e a entrada será
pelo outro lado, por dentro do prédio. Estamos numa festa especial de
pré-inauguração da...
- Aura. - paramos em frente a uma
porta, encarando o minúsculo letreiro avermelhado e as luzes de dentro
escapando pelas frestas.
Foi Sam quem leu, entusiasmada,
segundos antes de abrirmos a porta.
- NOSSA, CHRIS! COMO VOCÊ DESCOBRIU
ISSO?! - eu estava boquiaberta.
- Sou especial, vocês sabem...
Aquele lugar era... Indescritível. Eu
já achava Fabric fantástica, mas Aura era, sem dúvidas, surreal.
Era tudo escuro e o chão piscava.
Sim. As luzes vinham debaixo do piso transparente e em curtos intervalos. A decoração
era com elementos (barras, pontos) em néon, que me lembravam da galáxia. Tudo
era meio... Galáctico. O bar era gigantesco, a área com mesas era
minúscula. Devia ter 15 mesas no mínimo. E não havia ninguém lá. Todos
dançavam. Todos.
Quando olhei para o lado, não
encontrei nem Sam e nem Chris, o que me fez gargalhar e mergulhar naquele mar
de gente para curtir uma noite num lugar que eu sabia que iria marcar minha
vida.
- EI, BELA, BELA! BELAAAAAA!
- Sim.
- Estou bêbada.
- Eu também. Acho que... Mal consigo
ficar de pé, HAHAHHAHAHAHAHAHA!
- Eu... Já peguei uns doze caras. Um
deles estava com umas pílulas. Eu não tomei.
- Combinamos de não nos drogar... -
eu disse.
Nós tínhamos esse combinado. Não
usávamos droga. A fumaça que ingeríamos não propositalmente era tanta que
sempre saíamos das festas com a sensação de ter consumido algo, mas nós nunca
realmente usávamos. Foram raras as vezes que eu me droguei, de fato.
Raríssimas. Talvez umas duas ou três.
- Eu nunca tomei aquelas pílulas. Mas
hoje... Hoje eu quero provar.
- Eu também. - assumi. Eu estava
nessa vibe hoje. Não sei por quê.
- Vamos arranjar com o Chris, vem.
- Chris. Queremos pílulas. - fui
direta, assim que o achamos perto do banheiro. Ele pareceu subitamente animado.
Quer dizer, mais que o normal (já que ele era SEMPRE muito animado).
- Tenho esses quatro últimos aqui. Eu
tomo dois e vocês ficam com o resto.
E depois disso, eu só me lembro de
ter acordado no meu quarto no dia seguinte, com a sensação de que eu estava
muito, MUITO, fodida.
---
#
Thomas demorou um tempo pra se
acostumar com a claridade, depois que abriu os olhos. Cambaleando,
deslocou-se até o banheiro e sua cabeça parecia pesar toneladas, apesar de não
sentir dor alguma.
Ele demorou mais que o normal pra
fazer a higiene matinal. Sentia-se realmente lento, mas seu cérebro pareceu
finalmente despertar assim que viu um sutiã rosa sobre a tampa da privada.
Saiu do banheiro, confuso, atrás de
explicações, já que não se lembrava de levar garota alguma para a cama naquela
noite.
- Er... Danny? - chamou, assim que
invadiu o quarto do amigo.
- Quê? - Jones não deu muita atenção,
continuando compenetrado em sua busca por algo dentro do armário.
- De quem é esse sutiã? - Thomas
mostrou a peça ao outro, que nem ao menos se deu ao trabalho de olhar.
- Não deve ser meu, cara.
- Eu sei, Danny, os seus são um pouco
maiores. Seus peitos são muito grandes pra caberem nisso. - revirou os olhos
com ironia. - Sério, de quem é?
- Eu não sei, deve ser de uma das
garotas que Harry trouxe.
- E o que estava fazendo no meu
banheiro? - perguntou curioso, recostando-se no batente da porta.
- Ele entrou lá porque o banheiro
dele ainda está entupido, fedendo a merda e completamente bagunçado.
- Eles se comeram no meu banheiro
enquanto eu dormia?
- É provável que sim. - Danny
finalmente tirou a cara do armário, encontrando o rosto incrédulo em sua porta
- Não acho minha cueca lilás!
Tom rolou mais uma vez os olhos e
saiu do quarto do amigo, voltando para o seu. Ele precisava colocar alguma
roupa porque não seria nada bom cruzar com uma das garotas do Harry nesses
trajes íntimos. Ele não era como Danny ou Dougie que saíam pelados pela casa,
pouco ligando se havia visita ou não.
- Esse é o lado péssimo de morar com
amigos... - pensou ele em voz alta, pouco antes de encontrar a calcinha, também
rosa, da menina, debaixo do armário da pia. -... Nós não temos
privacidade! Como Harry simplesmente entra no meu quarto pra comer uma
garota?
#
Bela estava com medo de levantar da
cama. Não sabia se todo o sistema que havia construído com Sam tinha ido por
água abaixo, não sabia se seu pai tinha descoberto, não sabia como tinha parado
em sua cama... Ela não sabia de nada.
- Bom dia. - Escutou a voz de seu
irmão soar e, na mesma hora, preocupou-se com a rigidez incomum de suas
palavras.
- Luke... O que aconteceu ontem?
- Sam me ligou. Disse que você estava
mal e pediu pra que eu fosse buscá-las. Já eram quase cinco da manhã e você
estava jogada no estacionamento do shopping, desacordada e completamente...
Drogada. - a olhou incisivo, fazendo-a sentir-se subitamente mal. - Por que
você se drogou? Você me deu sua palavra, há tempos atrás, de que não faria
isso. - sua voz era grosseira, mas ele não se exaltou em momento algum.
- Não fale como se você nunca tivesse
se drogado. - Bela retrucou, irritadiça.
- É diferente! Eu nunca prometi isso
a você, e se eu tivesse prometido, certamente cumpriria.
Talvez ele estivesse certo.
Talvez.
Ela suspirou forte.
- Não quero que você use essas coisas
de novo, ouviu?
- Desculpe, Lucas, mas você não é meu
pai, não manda em mim e eu faço o que eu bem quiser com a porra da minha vida!
Se eu quiser me afogar nas drogas eu vou, foda-se se você acha ruim ou não! -
cuspiu as palavras de modo grosseiro, pouco se importando com o olhar severo
lançado pelo irmão. Ele levantou-se bruscamente da cama e disparou em direção à
saída do quarto, olhando-a brevemente antes de bater a porta.
Bela pôde sentir toda a decepção
emanada daqueles olhos acastanhados e, sentindo o arrependimento assolar seu
coração, esbravejou, lançando um travesseiro contra a parede.
- Merda!
Ela simplesmente ODIAVA brigar
com Lucas. Ele era a pessoa pela qual mais prezava nesse mundo inteiro. Luke
era, basicamente, o centro do seu universo. E, além disso, não era como se ela
tivesse razão na discussão que travaram segundos antes. Bela realmente
prometera não se envolver com drogas, quando o contou sobre as escapadas
noturnas. Ela havia descumprido sua palavra. Havia falhado com seu melhor
amigo.
Sentiu-se verdadeiramente mal.
- Filha? - Bela escutou a voz
preocupada do pai enquanto ele entrava em seu quarto, logo depois dela sair do
banho.
- Se sente melhor?
- Er... Bem melhor. - sorriu incerta.
- Vou te levar a um médico,
princesa... Seu irmão me falou do seu mal estar durante a noite. Você vive
passando mal, isso deve ser alguma coisa.
- Oh, não, não precisa se preocupar
pai. Eu to bem, isso tudo é apenas uma consequência do ciclo feminino.
- Tem certeza? - Edward a avaliou com
os olhos.
- Claro.
- Se os sintomas continuarem, não tem
discussão, você vai ao médico, tudo bem?
- Sim, pai. - sorriu novamente pra
ele, recebendo um outro sorriso de volta. - Vou para a casa da Sam daqui a
pouco, ok?
- Ok. - O escutou murmurar ao sair do
quarto.
---
- Teve um retiro. Retiro das mulheres
solteiras. - Sam explicou, trazendo mais cerveja para todos. - E, olha, não vou
ficar de garçonete não, tá, folgados? Se vocês querem beber, vão lá e peguem
com suas próprias mãos. - jogou-se no sofá.
- Então sua mãe vai passar o fim de
semana fora? - Chris inquiriu, recebendo a confirmação de Sam com um aceno de
cabeça.
- Ou seja... Temos uma casa vaga para
festas! - Spencer vibrou.
- Claro que não, Spencer. A mãe da Sam
é amiga de todos os nossos vizinhos E ISSO INCLUI MEU PAI. Com certeza ia dar
problema se nos vissem envolvidos nesse tipo de coisa. - disse Bela, ouvindo
múrmuros de concordância vindos de Bradley, que logo adicionou:
- Ela me colocaria de castigo pela
eternidade, se mudaria para as Bahamas e cortaria os pulsos.
- Ah, Sam, não exagera. - Angie
reverberou, abraçando PJ pelas costas. - Não dá nem pra gente fazer uma
reuniãozinha?
- Reunião tipo essa? - Sam
questionou, erguendo uma das sobrancelhas e descruzando as pernas.
- Talvez um pouco mais animada.
- Ah não, Angie. Aí complica. - Sam
reprovou. - Por que não faz na sua casa, então? Seus pais não são crentes e
estão pouco se fodendo se você anda fazendo merda com um bando de drogados.
- Sua grosseria me encanta, Bradley.
- Angie bufou, fazendo Bela rir junto com Chris e Maxxie.
- Ei, desamarrem essa cara! Vou
colocar uma música pra gente dançar! - Bela pulou do sofá e caminhou apressada
até o aparelho de som. Deixou numa radio qualquer e começou a dançar com Chris,
enquanto Maxxie e PJ tentavam fazer o passo da minhoca, sem obter
sucesso. Não demorou pra que Sam se juntasse a eles na dança.
Spencer e Angie não eram como os
demais, no entanto. Os dois não eram tão "felizes" como o resto do
grupo. Não dançavam loucamente como se não houvesse amanhã, não eram de rir
muito ou contar piadas. Spencer era mais o estilo de menino que ficava sentado
com sua bebida, analisando as mulheres pra decidir quais ele levaria pra cama.
Era rápido e intenso, assim como Angella. Ela era quase como a versão feminina
dele. Gostava dessa coisa de seduzir e instigar.
Maxxie era gay, porém ficar com
homens na frente de todos não era de seu feitio. PJ era quase assexuado.
As drogas eram seu lance. Nem homem, nem mulher. Bela desconfiava que ele nunca
tivesse beijado alguém, e o problema não era feiura, na opinião dela, porque,
acredite, PJ era um menino bonito. Talvez um pouco nerd demais, mas nada que
atrapalhasse tanto assim. A real questão é que ele não gostava de nada além de
drogas. Diferente de Chris, que também era bastante viciado, mas muito mais
sociável. Chris era, para Bela, o tipo que todos querem por perto. Extremamente
simpático e engraçado. Ele era autentico, nunca se conhece alguém igual. Alguém
que usa roupas tão desconexas e coloridas, alguém tão alheio a tudo, tão
distraído e burro, mas, ao mesmo tempo, pilhado e esperto. Bela não sabia bem
como defini-lo, mas ele era, com toda certeza, alguém com quem ela sempre
queria poder estar junto.
# Tom
O fim de semana passou tão rápido que
quase morri de desgosto quando escutei meu boneco do James Brown gritar I
Feel Good. Eu costumava gostar mais dessa música antes começar a usá-la
como despertador...
Levantei da cama me sentindo exausto
e fui lavar o rosto, ainda meio desacordado.
- Por que escola, meu Deus? Por
quê?!
Certo, eu fico um pouco dramático nas
manhãs de segunda...
- Ei, Tom... Viu meu leite? - Harry
perguntou - Já é a segunda vez que meu leite some dessa porra. - fechou a
geladeira com força.
- Desculpa, cara, fui eu. - Jones se
entregou, cabisbaixo, com a metade do cabelo TODA pro alto (senti uma vontade
absurda de rir disso), coçando o sovaco e sentando na bancada. - Mas é que
ontem de manhã eu senti muita vontade de beber leitinho quente... Não pude me
controlar, desculpe.
- Danny, às vezes você não percebe o
quanto consegue ser gay. - Comentei, só pra não deixar passar, enquanto me
servia de cereal.
- Porra, Danny! - Harry esbravejou. -
Você pode beber leitinho de MUITOS lugares! Você podia ir à merda do mercado
ali na esquina e comprar leite, você podia comer uma mulher que acabou de ter
filho e chupar o peito dela, você poderia até foder uma vaca e tomar leite da
teta! Mas o meu leite? Quantas vezes disse que ele é só meu?
- Ah, Harry, não exagera. Bebe outra
coisa. - sugeri, sem realmente me preocupar com a história.
- Eu compro mais leite hoje pra você,
cara. - disse Danny, meio indiferente, e Harry bufou.
- Certo, é bom que compre mesmo. Cadê
o Dougie? A gente vai se atrasar.
Não que Judd realmente se importasse
com isso. Ele só estava querendo ser chato pra tentar nos irritar. Harry
costumava fazer isso quando estava estressado... Nada que eu, Danny e Doug já
não estivéssemos acostumados.
- DOUGIE, FODEU, FODEU, ACORDA, TÁ
VINDO UMA TSUNAMI E GOVERNO PEDIU PRA EVACUAR A CIDADE, ACORDA PORRA, ACORDA
LOGO!
- AAAAAAAAAAAAAAAAAH MÃE, SOCORRO,
POR FAVOR, MAMÃE, ME AJUDA! - Dougie saltou da cama e começou a correr pelo
quarto enquanto nós três nos mijávamos de rir. - Ah, seus filhos da puta. - ele
gesticulou nervosamente. - Tem como vocês me acordarem dignamente UM DIA dessa
vida?
- Não. - respondi ainda rindo. Eu não
gostava de ter crises de riso (apesar de ter muitas), porque às vezes eu ria
fino que nem mulher.
Mas eu não sei por que exatamente
falei isso.
- Se arruma pra escola, cabeça de
cabaço. Já são quinze pras nove. - Harry avisou e todos saímos do quarto.
- Filmou Danny? - perguntei, descendo
a escada. Referia-me ao surto matinal do Dougie.
- Claro que sim! Vamos ver. - ele
mexeu no celular e sua feição animada deu lugar a uma duvidosa. - Ué...? Cadê?
Er... Acho que não apertei o play, foi mal.
- Porra, Danny, seu inútil. - dei um
tapa em sua cabeça e decidi ir logo para a escola.
# Bela
- Johnson! Está, por algum acaso,
ouvindo o que eu tô falando?! - Sam indagou, irritadiça.
Não, eu não estava.
- Claro que sim, Sam. Continue.
- Duvido! O que eu tava falando,
então?
- De como Danny Jones consegue ser
gostoso e sensual com aquela gravatinha da escola mal amarrada.
- Ai, sua puta, cachorra, falsa! Eu
não estava falando nada disso! - estapeou meu braço.
- Outch, Sam! Foi mal... É que eu
tava distraída.
- Novidade...
Dei uma risadinha antes de sentar na
última carteira da penúltima fileira. Sam sentou ao meu lado, na carteira
colada à parede.
- Enfim, como eu estava dizendo, você
pegou a prova de Literatura? - ela sussurrou.
- Ah! Peguei. - Respondi no mesmo tom
e vasculhei minha bolsa atrás da avaliação.
Bom, esse era mais um dos nossos
esquemas.
Como eu fazia pra ser uma aluna
brilhante, com as notas mais altas de toda a escola?
Simples.
Descobri a senha do computador do meu
pai, onde ele armazena todas as provas bimestrais, trabalhos e testes surpresa,
além, logicamente, dos gabaritos. E é óbvio que eu compartilhava tudo com a
Sam.
A partir daí, você já pode entender
de onde nossas notas boas vinham.
- Aqui está, professora. - entreguei
minha prova, depois de uma hora inteira fingindo fazê-la. Como tinha decorado
as respostas, eu resolvi as dez questões em pouco mais de cinco minutos.
- Obrigada, senhorita Johnson.
Corrigirei ainda hoje e mando alguém lhes entregar mais tarde. - Ela sorriu pra
mim.
- Tudo bem. - assenti antes de voltar
para o meu lugar. Mesmo depois de longos sessenta minutos de prova, eu tinha
sido uma das primeiras a acabar.
- Ei, Johnson! - escutei um sussurro.
Era Harry Judd, que estava na minha diagonal. - Sabe a sete?
- Hm... Ela pergunta em qual
movimento o texto se encaixa, certo? - Harry confirmou com um movimento rápido
de cabeça, intercalando seu olhar entre mim e a professora, entretida com seu
livro de Shakespeare. - É o Modernismo.
- Valeu. - Ele sorriu brevemente,
antes de anotar a resposta.
# Tom
Estava quase na hora da saída e o
professor de física enchia nossos ouvidos sobre as curiosidades do espaço
sideral. Eu não podia estar mais interessado.
É sério.
-... E, bom, falei sobre tudo isso na
aula de hoje porque vou passar um trabalho em grupo. - Sr. Wurts informou,
sentando sobre a mesa com seu jeito despojado. - Vocês terão que abordar algum
fenômeno físico relacionado ao espaço, e as leis da física que expliquem os
respectivos fenômenos. Além disso, quero também algumas curiosidades, fatos surpreendentes
que não tenham sido comentados na aula. Façam um trabalho bem feito, pessoal.
Podem entregar na próxima aula. O melhor ganhará dois pontos diretamente na
média bimestral. - a turma vibrou nessa hora - Quero três grupos de dez. Vocês
podem escolher seus grupos nesses cinco minutos restantes e me informem na hora
que o sinal tocar, mas sem caos, por favor!
Ignoramos a parte do "sem
caos".
A turma inteira se ouriçou,
preocupados em formar bons grupos, afinal, dois pontos na média é algo
indiscutivelmente maravilhoso.
- Cara - Dougie chegou perto de mim -
Eu já me fodi em Literatura hoje cedo, já me fodi em matemática, em Inglês, em
Geografia, Química, Biologia e...
- Já entendi que você está muito
fodido, Poynter.
- É. E ainda faltou falar de Física.
Eu PRECISO desses dois pontos, a gente tem que fazer um grupo bom.
- Eu também tô muito ferrado... -
Danny comentou. - Em tudo. Se eu não começar a melhorar agora, vou acabar
reprovando. Aí sim: FODEU.
- Eu e Tom somos razoáveis em
física... - Harry disse pensativo. - Mas precisamos de mais gente boa no grupo.
- Meninos, podemos fazer com vocês? –
Brooklee Bailey, a líder de torcida gostosa com peitos lindos, veio nos
perguntar, enrolando uma mecha de cabelo.
- Er... - eu não sabia exatamente
como dizer "não" sem ser grosseiro. Brook não era burra, mas Física
definitivamente não era sua melhor matéria. Além de tudo, tê-la no grupo, junto
como suas amiguinhas igualmente gostosas, seria uma GRANDE distração, e não uma
ajuda. - Você é boa em Física?
- Não, mas você é, não é, Fletcher?
- Na verdade, não. - Menti. - Estamos
todos precisando de pontos e queremos fazer com alguém inteligente.
- Oh, nós também! - Ela sorriu,
sentando sobre a minha mesa.
- Podemos chamar Lizzie Lancaster. -
Danny opinou, olhando para a menina concentrada em seu livro, no canto da sala.
Ela era a mais nerd da escola inteira, nunca vi seu rosto direito já que tava
sempre escondido atrás de algum livro sobre fatos Históricos. Bizarra...
- Seria uma boa. - Harry concordou.
- Então vai ficar... Você, eu,
Sophia, Yawanee, Judd, Poynter, Jones, Lizzie... - Brooklee foi contando nos
dedos. - Faltam duas pessoas.
- Bela Johnson. - Falei. Foi a
primeira pessoa em quem pensei. - Bela Johnson e Sam Bradley. São as outras
duas mais inteligentes. Elas vão ajudar.
- Boa, cara! - Dougie se animou.
- Acha mesmo que a Johnson já não tem
grupo? - Yawanee perguntou com descaso.
- Não custa tentar. - dei de ombros.
Brook e suas servas fecharam a cara.
Eu achava a coisa mais idiota do mundo essa rixa entre elas. Até porque, a meu
ver, Bela e Sam realmente defecavam para tudo isso.
- Vamos lá! - Harry me puxou pela
camisa pra perto das duas, que papeavam, alheias à bagunça, sobre algo
aparentemente muito engraçado. - Er... Oi, meninas.
- Olá, Judd! - Bela sorriu simpática
e Sam acenou, também sorridente.
Sorri pra elas pra não parecer
antipático, e fui devidamente retribuído. Reparei em como o sorriso de Bela era
surpreendentemente ainda mais bonito quando visto de tão perto.Mas por que
mesmo estou me prendendo a esses detalhes?
- Já têm grupo pro trabalho? - Harry
perguntou.
- Que trabalho? - Bela devolveu a
pergunta com um olhar confuso. Eu e Judd nos entreolhamos rapidamente, sem
entender.
- Urgh, Bela, você deveria cavar um
buraco no chão e se jogar lá dentro, nos poupando com a sua morte. - Sam disse,
ácida, enquanto Bela ria. - Como você consegue NUNCA prestar atenção em NADA?!
- Ok, discussões à parte: que
trabalho? - ela repetiu a pergunta, ignorando as reclamações da amiga, e eu dei
uma risada antes de responder.
- O trabalho que o professor acabou
de passar sobre a galáxia. - pude ver seus olhos brilharem com a informação.
Então ela também gostava da galáxia?
- Jura?!
- Sim... - Harry respondeu em tom de
obviedade e logo depois deu uma risada antes de continuar - Você andou se
drogando antes da aula?
- Não. - ela deu de ombros e eu
observei Sam segurando um risada, provavelmente por causa de alguma piada
interna. Garotas têm essas coisas. - Enfim, nos querem no grupo de vocês, é
isso?
- É. - ele assentiu. - O pessoal do
meu grupo é meio burro e precisamos de pessoas inteligentes.
Escutamos o sinal bater.
- E então? - perguntei ansioso. -
Pode ser?
- O Jones tá no grupo? - Sam quis
saber e Bela não conteve uma gargalhada alta.
- Está.
- Então tudo bem, Thomas. A gente tá
dentro. - ela sorriu rapidamente. - Vamos, Bela, tenho que te mostrar uma
coisa.
As duas foram saindo com pressa e eu
as acompanhei com o olhar. O estranho foi quando Bela, inesperadamente,
retribuiu o olhar antes de ser puxada porta afora pela amiga. Ela sorriu
minimamente, me fazendo sorrir de volta.
Não sei exatamente por que, mas eu
fiquei olhando que nem um babaca para aquela direção por um tempo
indeterminado, pensando sobre como havia gostado de receber aquele último sorriso,
até o Dougie me cutucar.
- Que foi, seu drogado?
- Nada... - reverberei vagamente. -
Vamos? Temos um laboratório de química a limpar!
---
- Ela perguntou isso?! - Danny riu.
Já estávamos em casa há algum tempo,
descansando depois de mais um ensaio.
- A nerdzinha está na sua, Jones! -
Harry zoou, dando tapinhas em seu ombro. - Imagina os dois namorando... Danny
querendo transar e Sam o pedindo pra esperar enquanto ela estuda sobre Karl
Marx.
- Não seja idiota, Judd... Eu nunca
namoraria a Sam. Ela é... Sei lá. Estranha.
- A acho bonita. - Dougie disse,
mudando o canal da TV.
- Eu também. - concordei enquanto me
concentrava no meu cubo mágico. - Eu nunca vou conseguir colocar todas as cores
em uma face só! - reclamei, largando o cubo colorido de lado.
- Eu não disse que ela é feia, só
disse que é estranha. - Danny justificou.
- E daí? Você também é. - Argumentei
e todos concordaram.
- Porra... Eles repetem o mesmo
episódio umas três vezes por semana! - Dougie reclamou, desligando a TV.
- Você já viu todos os episódios de
Tartarugas Ninjas de qualquer jeito... - Harry falou, tomando o controle da mão
dele e ligando a TV novamente.
- Cara... - Danny me chamou um pouco
mais discretamente, enquanto Harry e Dougie discutiam. - Você pegaria a Sam?
- Eu pegaria a Bela.
- Eu também. Mas eu também pegaria a
Sam.
- É, eu também. Já foram três
“tambéns”. Quatro, com mais esse. – informei e ele deu uma risadinha antes de
continuar.
- Mas... Você não acha que elas
são... Sei lá, um pouco chatas demais? Nunca conseguiria pegar uma garota com o
perfil delas... Deve ser uma merda. Inclusive, elas não devem nem saber o que é
pênis.
Gargalhei alto com a suposição.
- Pode crer... - concordei, depois voltei
a rir.
# Bela
- O que é que você queria me mostrar?
- Perguntei curiosa, ao chegarmos à sala de dança.
- Nada não, era só uma desculpa pra
sair logo dali. Perguntar sobre o Jones não foi uma coisa muito inteligente de
se fazer...
- Não mesmo! - concordei rindo. -
Está gamadinha!
- Eu, gamadinha? Pffff -
abanou o ar com descaso. - Eu só acho que ele é lindo. Vai ser uma delícia
fazer o trabalho de Física olhando pra ele. Não é nada como o seu amor secreto
pelo Fletcher.
- O que?! - me dei ao trabalho de
gargalhar. Certo, por mais lindo que ele fosse, eu nem mesmo me lembrava da
existência de Thomas Fletcher durante a maior parte do tempo. - Claro, sou
louca por ele. - ironizei, terminando de trocar a roupa para começar a aula.
- BOA! Ficou ótimo, Bela, nossa! -
Lia aplaudiu, junto com Sam. - Andou ensaiando?
- Pior que sim! - ri baixo. - Essa
série é difícil...
- Você fez tudo perfeito. - Ela
sorriu, apertando minha bunda. - Sua vez, Brooklee!
Fui me sentar ao lado de Sam enquanto
Brooklee dançava sua série.
- Não sei por que você ainda perde
seu precioso tempo vindo às aulas de street se você nem levanta a bunda do chão
e fica com esse celular o tempo inteiro.
- Eu tenho que fingir para a minha
mãe que me exercito. - deu de ombros. - Segundo ela, o corpo é o templo de Deus
e temos que mantê-lo saudável! - disse debochadamente.
- Não deveria brincar com essas
coisas. - opinei, porém sem esconder minha vontade de rir.
Eu ainda tinha minhas duvidas sobre a
existência de Deus, mas preferia não brincar com esse tipo de assunto. Sei que
devemos respeitar e tudo mais, só que é impossível quando se trata da Sra.
Bradley. Seu excesso de religiosidade rendia-me boas gargalhadas.
A aula se passou rapidamente e eu fui
embora com um pedido de Lia pra que a ligasse à tarde. Sabia que não seria nada
bom, já que pude perceber suas tentativas falhas de nos convencer que estava
tendo um dia normal. Ela era minha amiga e eu sabia que tinha algo errado.
Adentrei meu quarto, desovando meu
material escolar sobre a escrivaninha.
Eu estava cansada.
Decidi me deitar por alguns momentos
e, fitando o teto, pus-me a pensar sobre a vida.
Tudo vinha sendo muito estranho nos
últimos três anos. Minha mãe foi embora quando eu ainda era uma pequena
garotinha de dois anos. Não me lembro de seu rosto e não há fotos para que eu
possa ao menos ter uma ideia de suas características físicas. Meu pai sumiu com
todos os vestígios dela. Lucas também não tem muitas memórias, ele acabara de
completar oito anos quando ela partiu deixando somente um bilhete que dizia
"Não dá mais. Essa vida não é para mim".
Luke sempre culpou meu pai. Edward
Johnson nunca fora uma pessoa muito fácil de conviver. Ele queria um mundo
utópico, um mundo perfeito onde tudo ocorresse exatamente como ele gostaria.
Nunca aceitara a personalidade mais descontraída e descolada do meu irmão.
Quando eu tinha doze anos, comecei a observar que as coisas estavam mudando.
Lucas não era mais o mesmo. Seus amigos não eram mais os que meu pai queria que
fossem. Ele saía toda noite e voltava com cheiro de bebida alcoólica, imundo e
nem um pouco são.
Flashback On
- Luke? - minha voz saiu fraca e
tímida. A verdade era que eu estava com medo dele.
- Sim, Bee? - Respondeu,
enquanto vestia uma jaqueta de couro.
- Vai sair hoje de novo?
- Vou.
- Por quê? - tomei coragem e
perguntei. - Por que está tão diferente? Não gosta mais de nós? - ele, então,
parou o que fazia e me olhou intrigado.
- Claro que não, Bee. Eu te amo mais
que tudo, você sabe disso. - suspirou. - Vem cá.
Atendendo a seu chamado, caminhei
inibida até ele, e sentei ao seu lado na cama.
- Vou te explicar tudo. Sei que você
é esperta e vai me entender. - suspirou novamente. - Olha... Não gosto do jeito
como meu pai quer controlar minha vida. Ele não aceita quem eu sou de verdade,
ele quer que eu mude só pra manter as aparências. Quer que a gente pareça uma
família adorável, quer que nós sejamos filhos perfeitos quando na verdade,
nossa família está começando a cair aos pedaços por culpa dele mesmo. - pausou,
me olhando nos olhos e ajeitou uma mecha de meu cabelo. - Eu estou apenas
fazendo o que me dá na telha! Não quero maia saber das opiniões dele. -
sorriu.
- Tudo bem, eu te entendo. - sorri
também. - Vou dormir, tome cuidado. - levantei-me, sentindo o coração apertar.
Minha família está desmoronando? O que isso quer dizer?
Flashback Off
Aos catorze, comecei a entender
melhor o que Lucas queria dizer. O meu pai era uma pessoa insuportável. Eu até
mesmo entendi minha mãe, por ter ido embora. Não que isso tornasse sua atitude
menos inescrupulosa, mas eu podia imaginar o que ela passava.
O sentimento de rebeldia, de
reafirmação da minha personalidade, de identificação pessoal me atropelou como
um caminhão. Eram os hormônios da adolescência, eu sabia, mas o que fazer
diante daquilo? Não pude controlar. Comecei a me interessar pelo mundo do meu
irmão, pelas festas que ele vivia indo e pela vida que ele levava. Eu queria
aquilo. Queria diversão.
Não nasci pra ser a nerd que meu pai
queria que eu fosse. O foi então que tomei minha decisão.
Conheci Sam aos doze, quando ela
matriculou-se na escola de meu pai, e nós nos tornamos amigas por uma
semelhança em nossas historias. Eu havia sido abandonada pela minha mãe,
ela, por seu pai.
Sam nunca havia o conhecido pois o
indivíduo abandonou a Sra. Bradley logo que soube que seria pai. Não era à toa
que Sam tinha apenas um sobrenome. Nem isso o cara deu à filha. Aliás, a única
coisa que o sujeito quis dar foi o espermatozoide.
Sua mãe era quase uma freira, e
seria, se fosse católica. Uma das poucas igrejas evangélicas de Londres a tinha
como membro mais fiel. Obviamente, Sra. Bradley fazia questão que a filha fosse
igual.
Nós duas - Sam e eu - passávamos pelo
mesmo problema.
Então, na avalanche de hormônios dos
catorze anos, partimos para essa vida dupla. Aos poucos, fui me acostumando, me
familiarizando e conhecendo pessoas incríveis como Chris.
Em três anos, minha vida mudara
drasticamente. Eu e Sam passamos a ser conhecida em todas as boates
alternativas que frequentávamos. Passamos a ser tão populares quanto Chris,
naquele universo. Não há quem vá às "festinhas" e não conheça Chris
Miles, Sam Bradley e Bela Johnson.
Na escola, eu precisava manter as
aparências, no entanto. Eu e Sam somos vistas apenas como nerds que tiram notas
boas e não têm vida social. Pra eles, somos idiotas sem amigos.
Que se danem todos eles. Em pouco
tempo eu sairia da escola e seria livre de todo aquele sufoco, de toda aquela
personalidade falsa que eu era obrigada a sustentar.
O barulho agudo do telefone fixo
interrompeu meus devaneios, me fazendo despertar do mar de reflexões no qual me
encontrava mergulhada.
# Tom
- Fletcher, se esse seu telefone
tocar de novo, enfio ele no seu rabo! - Danny esbravejou, jogando o aparelho em
mim.
- Animal, não percebeu que eu tava
dormindo e não escutei tocar? - retorqui antes de atender. - Alô.
- Thomas Fletcher! -
Uma voz familiar saudou. - É o Chris! - Ah, sim. Chris.
- E aí, cara, a que devo a honra?
- Eu liguei porque vou dar
uma festa. Seria legal se você fosse, tá afim?
- Que horas, onde e quando?
- Hm... Às nove, no campo
aberto ao lado daquela Madeireira que fica no começo da estrada.
- Hoje mesmo?
- É claro!
Que idiota dá uma festa no início da
semana assim, sem mais nem menos?
Bom, eu sou o tipo de idiota que
faria isso, certamente.
- Estaremos aí! - confirmei.
- Beleza, até mais,
cara!
# Bela
- Bela, é para você! - a voz do meu
pai ecoou da sala e eu atendi no meu quarto.
- Alô.
- Bela? Por que não atendia o
celular? - reconheci Thalia do outro lado da linha.
- Hm... Não sei. Eu estava distraída
e meu celular tá pra vibrar. - expliquei. - Desculpa, Lia, esqueci totalmente
de te ligar.
- É... Eu já esperava, sua cabeça não
é muito boa. - brincou, fazendo-me rir antes
de iniciar o assunto. - Não tô muito bem hoje. - ela
admitiu o que eu já sabia. - Terminei com meu namorado e não, não quero
falar sobre isso. Eu consigo superar sozinha. - garantiu, mantendo sua
típica pose de durona.
- Entendo...
- Te liguei pra avisar que quero ir
com você numa dessas suas festas loucas.
- Hum, wow! Que inesperado! - ri um
pouco - Está mais que bem vinda. Hoje o Chris arranjou uma festa legal, a céu
aberto, você vai gostar e nem vai se incomodar muito com o cheiro da maconha,
porque o lugar não é fechado. - falei sério mas ela riu, o que me fez rir
também.
- Certo... Quer que eu passe
aí e te dê carona?
- Ah, seria ótimo! - Exclamei, me
ajeitando no colchão. - Mas passe na casa da Sam. A mãe dela não está e eu vou
dizer ao meu pai que vou dormir lá.
- Tudo bem por mim, o caminho
é o mesmo de qualquer jeito.
- Pois é. - concordei vagamente. -
Então a gente se vê mais tarde!
- Isso! Até mais. Beijo.
- Beijo.
Desligamos. Fui até o closet escolher
uma das minhas roupas escondidas.
Quando a combinação me pareceu
razoável, separei a maquiagem necessária e uma muda de roupa para o dia
seguinte. Coloquei tudo e mais alguns objetos pessoais numa mochila qualquer e
avisei ao meu pai que dormiria na Sam.
Chegando lá, começamos a nos arrumar
para a nossa noite e alguma coisa me dizia que seria fatídica.
# Tom
- CA. RA. LHO. - Harry soltou assim
que avistamos a festa.
Caralho.
Era só o que podíamos falar.
Ou Chris era muito rico ou Chris era
muito foda.
Ou os dois, é claro.
A festa era num campo enorme - ou
algo maior que enorme - e mesmo assim parecia lotada. A iluminação era incrível
e havia uma espécie de bar gigante à direita. Muitos bartenders trabalhavam,
fazendo malabarismo com as garrafas de bebida e se engraçando para as
mulheres... E que mulheres!
Elas eram todas diferentes das
superficiais comuns que costumávamos encontrar em Pubs e boates normais. Elas
tinham personalidade. E belas pernas.
A música só não era ensurdecedora
porque estávamos a céu aberto. Ao andar por entre aquelas centenas de pessoas,
pude sentir os cheiros mais diversos - drogas, álcool, suor, cigarro, perfumes
de todos os tipos - e quase me perdi de Dougie, que era o único que ainda
estava perto de mim, porque o idiota foi querer parar pra amarrar o tênis.
Continuei minha caminhada árdua em busca de alguém conhecido - além de Dougie,
Harry ou Danny - mas fui surpreendido ao ser cutucado no ombro. Virei-me no
intuito de descobrir quem era a dona - eu sabia que era mulher - do dedo e a
surpresa apenas aumentou com que meus olhos encontraram.
# Bela
- Johnson! - Chris me agarrou no meio
do caminho. - Demorou!
- Pois é... A gente se perdeu algumas
vezes. - dei uma risadinha e apontei pra Lia, que jazia inquieta ao meu lado.
- Essa aqui é a Thalia. Lia, esse é o famoso Chris.
- Muito prazer, Chris! - ela sorriu,
apertando sua mão.
- Seja bem vinda a minha festa,
Thalia! - Cumprimentou ele, sorridente.
- Essa festa é mesmo sua, Miles? -
ergui uma sobrancelha, descrente.
- Claro que não! - abanou o ar com
descaso, me fazendo rir alto. - É de uma amiga da Angie, mas eu digo que é
minha, para mais pessoas virem e me acharem legal.
- Justo. - Dei de ombros e ri mais um
pouco.
- Ei, cadê a Bradley? - Chris
perguntou entre uma golada e outra de cerveja.
- Mal chegamos e ela saiu correndo
pela festa porque precisava beijar alguém. - repeti as próprias palavras dela e
Lia riu.
- Ela disse que a boca estava seca
hoje, precisava beijar. - me completou.
- Ah, venham aqui! - Chris pareceu
lembrar-se de algo - Preciso apresentá-las para uns caras que conheci. Eles são
demais!
Andamos cinco minutos com Chris para
nada, os tais caras estavam sumidos pela festa. Logo decidi parar para beber e
dançar junto com Lia e mais alguns conhecidos. Mal percebi quando Sam e Maxxie
se juntaram a nós.
Algum - muito - tempo depois, já
sentia minhas pernas moles.
Muito provavelmente por conta do
álcool em excesso na minha corrente sanguínea. Eu precisava sentar um pouco.
Sentar e beber mais. Caminhei cambaleando pelo espaço lotado, sentindo as
gostas de suor brotarem em minha testa. Eu já estava chegando perto do bar
quando dois braços que eu conhecia bem agarraram minha cintura.
# Tom
Devia ser a sexta garota de Harry, a
terceira de Danny e a segunda do Dougie. Eu não estava exatamente contando.
O fato era que hoje eu tava em
desvantagem, mas não liguei muito. Desde que Angie me cutucara, nós
começamos a ficar e não nos desgrudamos mais. Ela era realmente muito boa. Seus
pequenos seios - não tão minúsculos, mas de um tamanho bom - quase sumiam na palma
da minha mão, e seus lábios cheios capturavam os meus com devoção. Angella
sabia o que fazer, disso eu tinha certeza.
- Você é muito gostoso, Tom... -
Vociferou em meu ouvido. - Muito gostoso.
- Quer ir lá pro carro? - perguntei,
a desencostando da árvore. Estávamos nos pegando ali, onde era um pouco mais
afastado do aglomerado de gente, há um bom tempo e eu não sei como não pensei
nisso antes.
- Sabia que você era um cara
esperto.
Volto a dizer: como não pensei nisso
antes? Não que eu me importe muito agora, mas foi constrangedor fazer todas
aquelaspreliminares num lugar onde todo mundo podia ver. No
entanto, também não é como se aqueles tipos de pessoas ligassem. Eles faziam
tudo isso bem mais expostamente.
- Tom? - Angie chamou com a voz rouca.
- Tem camisinha?
- É claro. - sorri ladino, antes de
subir o nível da minha noite.
# Bela
- Spencer... - murmurei, sentindo
seus beijos em meu pescoço. - Não te vi em lugar nenhum.
- Nem eu. - disse ele, virando-me pra
que ficássemos frente a frente. - Estou com saudade disso
aqui. – apertou minha cintura fortemente e abocanhou meus lábios com
urgência.
Spencer e eu já fomos namorados. Eu
tinha quase dezesseis naquela época. Lembro-me de ter começado a namorar com
ele como uma forma de provocar meu pai. Não que ele soubesse de onde Spencer
vinha ou como o conheci, mas eu tinha certeza que não aprovaria. Pra ele, eu
namoraria apenas Brendon Baker, mais ninguém.
E, é claro, só depois dos dezoito.
Mas as coisas não eram tão fáceis
para meu ex-namorado. Ele realmente gostava de mim. Quando terminamos, pouco
mais de cinco meses após o início, Spencer ficou abalado e eu me senti culpada.
O jeito que arranjei pra ficar em paz comigo mesma foi dar a ele toda a
liberdade de ficar comigo quando quisesse. Por isso, desde então, ficamos
constantemente.
Mas também não é como se fosse uma
tarefa complicada para mim. Além de Spencer ser extremamente bonito, seu beijo
tinha um bom encaixe com o meu e sua pegada era indiscutivelmente
maravilhosa.
Estávamos nos beijando há alguns
minutos quando Sam me puxou fortemente, exibindo uma expressão de desespero.
Não fiquei preocupada de início, já que Sam era uma pessoa realmente exagerada,
principalmente quando estava bêbada. Entretanto, meus sentidos se aguçaram
quando observei que Lia também exalava desespero pelos olhos.
- O que foi?!
- O Tom tá aqui, Bela. Tom Fletcher e
seus amiguinhos da escola. – Sam explicou nervosamente.
O QUÊ?
Como assim?!
- O que diabos Thomas Fletcher está
fazendo aqui?! Vamos embora agora!
- Vamos, antes que algum deles veja a
gente. - Sam me puxou pela mão e nós fomos correndo até o carro de Thalia.
- Que merda! Que raiva! - esbravejei,
entrando rapidamente dentro do carro. - Que porra eles estão fazendo aqui?!
Isso não é lugar pra eles.
- Estava me perguntando a mesma
coisa! - Sam ralhou, do banco de trás. - Eles deviam estar lá naquele Pub que o
pessoal idiota da escola vai. O Tigger.
- Ei! Eu vou ao Tigger, qual é o
preconceito? - Lia brincou, arrancando com o carro.
- Nenhum. - dei de ombros - Mas ele
não se compara ao nosso bom, velho e secreto Fabric.
- Ou ao nosso bom, novo e igualmente
secreto Aura. - disse Sam, me fazendo concordar.
- Preciso conhecer esses lugares,
então. - Concluiu Lia, trocando a marcha.
- Então vamos, ora! Ainda são dez
praz quatro, a madrugada é uma criança e o Fabric nunca para! - Sam exclamou
gesticulando e Lia pisou mais forte no acelerador antes de sentenciar:
- É só me ensinar o caminho.
# Tom
Whoa! I feel good
I knew that I would, now…I feel goodI knew that I
would…
Senti os raios de sol invadirem meu
quarto pela pequena fresta entre as duas bandas da cortina, incomodando meus
olhos.
Acertei com força o James Brown
sobre a mesa de cabeceira, e o boneco-despertador caiu no chão, continuando com
a cantoria.
- Urgh! – urrei irritado. - Merda de
despertador! - impulsionei-me para fora da cama, apanhando do chão o atual
foco da minha desgraça e desligando-o.
Pensei em não ir à escola naquele
dia, já que havia dormido, no máximo, durante duas curtas horas naquela
madrugada, mas logo me lembrei de uma questão pendente da noite passada:
Eu havia visto Bela Johnson beijando
um cara no meio da pista de dança, assim que saí do carro com Angie.
Tinha certeza.
Se não era ela, era alguém muito
parecida.
Eu precisava esclarecer minhas
duvidas, então a curiosidade me moveu naquela manhã. Driblando o sono, me vesti
rapidamente e desci para comer algo, me surpreendendo ao encontrar Danny, Harry
e Dougie ali também.
- Pensei que não fossem ter
disposição pra escola hoje. - falei, sentando junto com eles e começando a
servir-me do café da manhã.
- Pensei o mesmo. - Danny confessou,
mastigando um pedaço de pão. - Mas hoje tem prova de Geografia.
A prova! Aquilo nem passou pela minha
cabeça... Eu provavelmente teria faltado se não fossem minhas questões
pendentes.
- Ontem eu vi a Bela na festa. -
Contei, um pouco menos entusiasmado do que gostaria por conta do
sono.
- Puta merda, olha as ideias. - Harry
não deu a menor credibilidade, debochando da minha notícia
fatídica. Coitado de mim.
- To falando sério! Era ela com
certeza. Ou um clone talvez.
- Mais provável que tenha sido um
clone que ela construiu durante um estudo de biologia em seu laboratório
pessoal. - Dougie zombou, arrancando gargalhadas de Danny.
- Pode até ser, mas era ela, de
qualquer forma. – reafirmei com certeza.
- Tom, meu querido, cai na real! -
Danny exclamou. - O que uma garota dessas faria numa festa daquelas?!
Não faz nenhum sentido, vê se maneira na bebida, hein, cara.
Realmente.
Eu estava bêbado. E não fazia o menor
sentido Bela Johnson estar naquele ambiente. Mas eu podia jurar que era ela
(por mais bêbado que estivesse) usando as roupas mais incríveis que já
vi.
Eu não era como Danny, que tinha
alucinações quando bêbado. Aliás, eu sempre fui um bêbado bem comportado, já
que nem costumava consumir tanto álcool assim. Não era possível que estivesse
fazendo tamanha confusão... Era?
#
Bela
Dormi em praticamente todas as aulas,
naquele dia. Só acordei pra fazer a prova e isso já foi muito para mim.
Tom não estava sendo nada discreto e
isso me fazia surtar. Ele não parava de me lançar olhares durante as aulas...
Por isso preferi dormir. Além de estar extremamente cansada, qualquer coisa era
melhor do que aqueles olhos cor de mel me analisando.
Foi um alívio quando ele decidiu
matar aula com seus amigos, no último tempo.
- Percebeu que ele ficou olhando pra
gente? – Sam sussurrou.
- Percebi. – suspirei. – Ele podia
ser mais discreto, pelo menos.
- Eu não
consigo entender como eles foram parar lá... - Devem ser conhecidos da
verdadeira dona da festa, e foram originalmente convidados, antes do Chris
entrar na história. – supus.- Provavelmente sim... Na verdade, eu espero que
seja. Ninguém merece um bando de retardados estragando nossa vida.Eu ri com a
reclamação.- Desde quando acha que eles são retardados? – perguntei
debochadamente e ela empinou o nariz.- Ué, desde sempre. Não é porque são
bonitos e legais que não podem ser retardados.- Ah, ok... – continuei com o tom
debochado, finalizando a conversa antes que o professor nos chamasse atenção.
# Tom
No final da penúltima aula,
recebi uma mensagem do Harry que veio em boa hora.
“ Vamos lá pro terraço? Não
to afim de ter mais nenhuma aula...”
Alguns poucos minutos depois,
nós quatro já estávamos lá em cima, sentados perto da caixa d’água sobre o céu
azul e limpo, e jogando conversa fora.
- Eu passei a aula inteira de olho
nela, hoje.
- Você é meio idiota, eu sempre
soube. – Harry disse, arranhando o chão com uma pedrinha.
- Não, sério. Ela estava muito
sonolenta. É por causa da festa de ontem.
- Deixa de ser retardado, Fletcher! –
Danny reclamou. – Já dissemos que é obvio que não era ela.
- Eu vi com meus próprios olhos,
cara. Era ela sim!
- Eu tô com uma vontade absurda de
mijar. – Dougie falou de repente, cortando o assunto.
- Por que você não foi ao banheiro
antes de subir aqui? – questionei, e ele deu de ombros, sem saber responder.
- Eu vou mijar nas
calças!- Faz aí na caixa d’água... – sugeri, sem realmente pensar a respeito.-
Que nojo! – Danny murmurou rindo – Tem gente que vai beber essa água da
escola... Com urina de Dougie!- Desde que eu não beba está tudo bem. – Harry
balançou os ombros. – Mas, com certeza, os professores bebem... E o diretor
também.- Então vou botar esse ingrediente especial na água deles... – Poynter
decidiu. O ajudamos a empurrar a tampa da enorme caixa d’água, e ele abaixou as
calças.- MAS O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! SEUS BANDIDOS! DIRETORIA, A-G-O-R-A! –
assim que a voz desesperada de Helga encontrou meus tímpanos, meu cérebro
processou somente uma informação: fodeu.
# Bela
- Johnson. – Brooklee me chamou
quando o sinal bateu.
- Oi. – respondi educadamente.
- Pode ir à minha casa hoje para
começarmos o trabalho de Física?
- Er... Mas meu grupo é com os
meninos do McFLY... – Era o nome da banda deles, que todos da escola conheciam.
- Johnson, o grupo é de dez pessoas.
– Ela falou, meio agressiva. – E vocês todos estão no meu grupo.
Oh, droga.
- Ah, tudo bem. Posso ir, então.
- Apareça lá depois da dança. –
disse. – Tchau.
Virou-se bruscamente, com seus
cabelos enormes chicoteando o espaço entre nós.
Eu não entendia toda essa implicância
de Brooklee contra mim e Sam. Talvez porque ela não goste de ninguém que não
seja tão popular quanto ela.
Na verdade, eu prefiro achar que é
por causa de Brendon. Todos sabem da obsessão dele para comigo e ele,
bom, é do time de futebol da escola (lindo, popular, gostosão e blá blá blá).
Mas o fato é que essa obsessão vem desde muito antes dele entrar na
escola. Meu pai é amigo dos Bakers há anos, por isso Brendon desenvolveu essa
espécie de sentimento – não que seja bom, mas não deixa de ser um sentimento –
por mim. Com certeza, se tivéssemos nos conhecido na escola, ele nem ao menos
olharia na minha cara. Mesmo assim, me sinto melhor achando que toda a
implicância de Brook é inveja e não pena.
Mas enfim, minha vida de colegial não
é um clichê só por ter uma líder de torcida bonita e popular que não gosta de
mim, e tem uma queda pelos caras bonitos e tão populares quanto ela. Isso é uma
lei natural da vida, pois:
1 – Para ser
líder de torcida - além de ser uma pessoa fútil, patricinha, metida e tudo mais
– você precisa ser bonita e popular.
2 – Quando você
se torna uma líder de torcida, você automaticamente se sente melhor que todo
mundo, e começa a esnobar os pobres e oprimidos e cobiçar os caras gatos,
maravilhosos e populares da escola, para obter o máximo de atenção possível.
3 – Se você é uma
líder torcida, você passa a viver numa sociedade hierárquica onde a capitã
sempre será a abelha rainha, e as subordinadas farão tudo o que ela quer. Ou
seja: a capitã sempre ficará com os melhores caras.
Então, volto a dizer. Só porque
Brooklee é a capitã gostosona, linda, perfeita etc etc das
líderes de torcida, e é metida e desagradável, não significa que tudo é um
clichê. É apenas a lei natural da vida. E o mesmo serve para os caras do time
de futebol.
Caminhei até a sala do meu pai, junto
com Sam, depois de contá-la sobre a conversa com Brooklee Bailey. Quando me
aproximei da porta escrita “diretoria”, Helga veio me interromper.
- Desculpa, senhorita Johnson. Seu
pai está ocupado.
- Ocupado com o quê?
- Com os meliantes de sempre... A
trupe do mal.
Sim, eu sabia de
quem ela falava. E eu adorava tudo aquilo que eles viviam fazendo.- O que
eles fizeram dessa vez? – Sam quis saber.- Eles ficaram loucos! Extrapolaram os
limites – esbravejou a rechonchuda, com seu sotaque russo – O Sr. Poynter
urinou na caixa d´água.Quase morri de rir. Internamente, é claro. Pude ver que
Sam passou pelo mesmo processo dificílimo de prender a risada.- Está brincando!
– Me fingi de indignada. – Que travessos!- Não acredito que cometeram tamanha
infração! – Sam utilizou o mesmo tom que eu, e Helga concordou.- Eles são mesmo
incorrigíveis! Sr. Johnson os suspenderá, com toda certeza. – ela informou e eu
me senti mal por eles.No momento seguinte, a porta da sala do meu pai se abriu
e os quatro saíram, com expressões indiferentes. Quis rir. Meu pai devia estar
absolutamente irritado.
Pus-me a caminhar na direção da sala
novamente, deixando pra trás o hall que precede a diretoria, mas meu coração
afundou quando senti uma mão envolver meu braço devagar. Eu sabia de quem era.
- Bela... – Tom Fletcher chamou meu
nome, enquanto tirava a mão do meu braço – Hm... Você por acaso... Estava,
er... Quero dizer, ontem à noite, você estava...
- Na minha casa estudando. – Sam
interrompeu. – Sim, ela estava lá, não é mesmo, Bela? Ela estava lá porque a
gente ama estudar até tarde, sem parar. Oh, mas nós também vimos alguns filmes.
Foi engraçado porque a Bela até chorou em Marley e Eu, sendo que ela não chora
com nada! Fala sério, é só um cachorro que morre! Tudo bem que ele morre, eu
até chorei também, mas ela, que é uma insensível, foi chorar logo com isso?
Muito idiota. Ah, eu já falei que a gente estudou muito? Pois é, nós estudamos
dema-.
- Tudo bem, Sam. – a cortei, pra
minha vida não ficar pior. Tom já estava com uma das sobrancelhas erguidas, e
eu não sabia onde enfiar minha cara. – Ele já entendeu.
- Er... Certo. Então, até mais. – ele
pigarreou. – Vocês vão à casa da Brook, não é?
- Vamos. – respondi rápido, antes que
Sam decidisse recomeçar com a falação.
- Então tá... A gente se vê. Tchau. –
acenou, virando-se e começando a andar.
- Me lembre de nunca te
deixar falar quando estivermos mentindo sobre algo. – sentenciei, antes de
entrarmos, finalmente, na sala do meu pai.
- Pai... Só vim pra avisar que hoje,
depois da aula de dança, vou à casa da Brooklee pra fazer um trabalho, tudo
bem?
- Sim, sim... – ele não me deu
nenhuma atenção, mexendo em alguns papeis. Parecia transtornado.
- Ok, então até mais tarde.
- Até.
---
# Tom
- O que você estava perguntando a
ela, cara? – Dougie inquiriu assim que me reaproximei deles.
- Não me diz que era sobre a noite
passada. – disse Danny, me olhando impaciente.
- Ela contou que estava estudando na
casa da Sam... – confessei desapontado.
A professora de dança!
A professora de dança!
- A gente disse! A gente disse que
não era ela! – Jones voltou a falar. Mas eu não me conformava. Claro que era!
Eu vi muito bem! Era o mesmo rosto, só que lotado de maquiagem, no escuro, e
com muitas pessoas passando pela frente...
Ok, talvez haja alguma margem de
erro. Mas é pequena! Eu não confundiria o rosto dela assim.
Não que isso signifique algo.
Continuamos caminhando, destinados à
sala de química laboratorial, mas, ao passarmos pelo pátio, uma lâmpada acendeu
sobre minha cabeça.
Eu tinha certeza que também havia a
visto na noite anterior. Isso era inegável. Inclusive, fora ela quem me fez
concluir que a menina aos beijos com um cara era Bela Johnson. Eu tinha a
visto, mas não me lembrava de onde a conhecia, então a segui com os olhos
enquanto ela se aproximava de uma garota que depois descobri ser Bela. Na
verdade, não foi uma descoberta, foi uma forte suspeita. E ainda é, apesar da
explicação de Johnson e Bradley sobre a noite passada.
Corri na direção dela e me esforcei
para frear antes de derrubá-la.
- Ei, você é a professora de dança,
certo?
- Hm... Sim. Thalia Hoppus. –
estendeu sua mão para nos cumprimentarmos.
- Tom Fletcher. Er... Ontem você
estava numa festa, onde eu estava também. – afirmei, sem dar espaço para
oposições. – Com quem foi?
- Erm... Eu... E-eu... Por que quer
saber?
- Você estava com Bela Johnson, não
estava?
- O que? Não. Não, não estava. – riu
brevemente. – Bela é uma grande amiga, mas não pra esse tipo de evento. –
Thalia informou, frustrando-me.
- Hum, entendo. Tudo bem, eu só
queria saber, porque pensei tê-la visto ontem.
- Oh, com certeza não era ela. Deve
ser alguém parecida. – sorriu novamente. – Tenho que ir, vou dar aula agora. A
gente se vê. – me deu as costas, seguindo seu caminho contrário ao meu.
- Você é doente ou o quê? Tá mamado,
cara? – Harry gesticulou indignado. – Quantas pessoas mais vai abordar pra se
convencer de que NÃO ERA BELA JOHNSON QUEM ESTAVA NAQUELA PORRA DE FESTA ONTEM?
- Eu já me convenci. – me ouvi dizer.
Sim, era verdade. Assumo que talvez o álcool houvesse influenciado um pouco as
minhas conclusões. Pelo menos eu tinha essa desculpa. – Foi mal, eu tava
bem bêbado e aquele cheiro de maconha deve ter me afetado um pouco.
- Depois eu que tenho delírios quando
bebo... – Murmurou Danny, voltando a andar.
# Bela
- Muito bom, gente. Estão
dispensados. – Lia disse, encerrando a aula. – Bela, vem cá.
- Sim? – falei ao me aproximar o
suficiente, percebendo que o assunto era particular.
- Também quero saber! – Sam veio
correndo, se juntando a nós.
- Tom veio me perguntar se você foi
àquela festa ontem. Ele me viu lá.
- Sério?! – espantei-me. – E o que
você disse?
- Que não era você. Falei que ele
devia estar se confundindo, porque você não costuma ir a esses lugares. –
eu e Sam suspiramos aliviadas com a informação. – Mas eu quero saber por que
vocês tanto querem esconder isso deles.
- Lia! Seja esperta! – Sam exclamou –
Imagina se eles descobrem? Acabou todos os nossos personagens. Do jeito que
aqueles quatro são malucos, aposto que vão tirar uma foto, imprimir mil cópias
e espalhar pelo colégio.
- Eles iriam contar pra todo mundo. –
completei. – E nós duas estaríamos fodidas.
- Entendo. Bom, tudo bem, nunca
pensei em contar pra ninguém mesmo. – deu de ombros. – Hoje vocês vão sair de
novo?
- É claro! – confirmei sorridente.
- Me incluam na lista! - disse
Lia, enquanto nós andávamos até a saída da sala.
---
Cheguei junto com Sam à casa da
Brooklee. Eu imaginava algo bem mais luxuoso, já que ela fazia questão de
exalar riqueza. Quem nos recebeu foi a Sra. Bailey, segurando um poodle
minúsculo no colo. Ela informou que todos estavam no porão, nos esperando para
começarem.
- Oi, Johnson. Oi Bradley. – fomos
recebidas sem nenhuma alegria (previsível) pela anfitriã e eu só reparei em
duas coisas: “O QUE BRENDON ESTAVA FAZENDO ALI?” e “Por que Brooklee estava de
camisola?”
Bom, a resposta para a segunda
pergunta era clara. Uma tentativa – provavelmente, bem sucedida – de seduzir e
impressionar os meninos.
Quanto ao Brendon, a resposta mais
admissível era que ele era um dos integrantes do grupo. Por isso, eu me
chicoteava mentalmente por não ter perguntado sobre quem faria o trabalho
conosco antes.
- Brooklee, desculpe minha
indiscrição, mas... Por que você tá de camisola? – Foi a primeira coisa que Sam
proferiu, e eu quis rolar de rir. Mas me contentei em só soltar um barulho,
pelo nariz, de quem prende a risada.
- Eu fico de camisola quando estou em
casa, oras. – Ela respondeu depois de alguns segundos atônita.
Ah, como eu amava a espontaneidade de
Bradley.
Observei que Thomas Fletcher e seus
amigos riam discretamente (ou pelo menos tentavam), disfarçando suas gargalhadas
com os livros perante os rostos. Uma das amiguinhas fieis de Bailey (Sophia, se
não me engano), também ria. Gostei disso.
- Sim, claro. Posso imaginar. –
replicou Sam, indo sentar perto de alguém (Danny Jones, com certeza).
- Ah, gente, me esqueci de falar.
Brendon entrou no nosso grupo porque Lizzie Lancaster não quis fazer conosco. –
Brooklee comunicou.
Posso entender a coitada.
- Oh, ótimo... – Fletcher
sussurrou ironicamente e, como estávamos lado a lado, pude escutar. Sorri
pra ele perceber que eu concordava com sua insatisfação.
- Tá feliz com isso, Bela? – Baker
começou com as provocações, sem se preocupar com todo aquele público.
- Obviamente não. – respondi sem ao
menos olhar para aquele ser desprezível.
- Está sorrindo por que, então? –
perguntou, erguendo as sobrancelhas.
- Não que eu lhe deva alguma
satisfação a respeito das minhas atitudes, mas é que Tom é uma pessoa legal. –
achei minha resposta inteligente, e Fletcher surpreendeu-se com a menção de seu
nome. – Ele falou uma coisa engraçada que me fez rir.
- Podemos nos concentrar no trabalho,
por favor? – Brooklee interrompeu a troca de farpas depois de pigarrear. –
Sobre o que vamos fazer?
- Eu estive pensando... Podíamos
fazer sobre o buraco negro. – a asiática, Yawanee, eu acho, sugeriu e eu adorei
a ideia.
- Boa! – Tom exclamou. – Pensei sobre
isso também.
- Sabe alguma coisa disso, Bela? –
Harry me perguntou e eu assenti. Sam me olhou descrente desse fato, mas eu não
liguei. Precisava manter as aparências de nerd, não é?
- Posso explicar a vocês, mas preciso
ir ao banheiro antes. Tô meio apertada. – falei.
- Tem um banheiro aqui embaixo. –
Brooklee disse. – É aquela porta ali. – apontou, e eu segui naquela direção.
Tranquei-me no pequeno cômodo, sentei
sobre a tampa da privada e peguei meu celular, pesquisando rapidamente – antes
que as pessoas começassem a achar que eu tava cagando o banheiro todo – sobre o
buraco negro.
- Certo. – suspirei, ao sentar de
volta em meu lugar. – Podemos começar?
- Claro. – assentiram.
- O conceito do buraco negro foi
desenvolvida de acordo com a teoria geral da relatividade. – comecei e
Sam percebeu tudo, depois de alguns minuto de explicação. Eu tinha um grande
facilidade com oratória, então podia encher bastante linguiça com as poucas
informações que eu recordava. Fui falando sobre o assunto durante um bom tempo
e quando me vi sem mais ideias, concluí.
- Então podemos resumir tudo isso em
uma apresentação oral, passar alguns vídeos interessantes e fazer uma maquete
representando um buraco negro perto de um sol, pra mostrar mais ou menos o
tamanho dele e tudo mais. – Sophia opinou.
- Sim, perfeito. – Brooklee
concordou. – Vocês vão anotando as informações pra dividir as falas enquanto
eu, Tom, Harry e Brendon subimos pra pesquisar vídeos, ok?
Eu quis rir.
- Tudo bem por mim. – falei, por fim.
# Tom
Eu estava encantado pelo modo como
ela dominava o assunto do espaço sideral. Bela era um pessoa adorável, apesar
dos pesares. Talvez, o fato de ela ser nerd não fosse tão ruim assim.
Não que isso signifique algo,
obviamente.
Passamos a tarde compenetrados no
trabalho e, no fim, acabou ficando bom. Ainda faltava alguns detalhes da
maquete, mas deixaríamos para outro dia. Estávamos quase indo embora,
quando Brooklee nos chamou.
- Meninos, vou dar uma festa no
próximo fim de semana. – ela informou. – E queria que vocês fossem.
- Ah, claro, podemos ir. –
Danny deu de ombros.
- Certo, será ótimo! – sorriu,
mexendo no cabelo. – Oh, Bradley e Johnson, eu sei que vocês não vão, mas estão
convidadas. – Brooklee deu de ombros, ajeitando seu... Traje íntimo.
- Que ótimo jeito de se convidar
alguém, Bailey. – Sam respondeu ironicamente.
- Esse tipo de ambiente é um tanto
inóspito para pessoas como nós, Brooklee, mas valeu pelo convite, de qualquer
forma. – disse Bela, sorrindo educadamente. Eu gosto do sorriso dela, já falei
disso não é?
Não que signifique alguma coisa,
claro.
- Hm... Já vamos indo. São quase oito
horas e meu pai não gosta que eu pegue ônibus no escuro. – Bela voltou a falar
e eu acabei dizendo sem raciocínio prévio:
- Querem uma carona?
- Não tem lugar pra duas pessoa no
carro, Fletcher! – Harry rapidamente interveio, me deixando meio sem graça.
- Ah, quê isso! A gente
aperta! - Dougie falou e eu decidi concordar.
- Não queremos atrapalhar. – Bela
replicou.
- Mas uma carona seria bem vinda. –
Sam foi sincera, me fazendo rir.
- Não tem problema, meninas. – Danny
disse. – A gente leva vocês.
- Obrigada mesmo, mas eu realmente
não ligo de ir de ônibus com a Sam.
- Espera, onde está meu
cavalheirismo?! – Brendon decidiu se manifestar, enchendo o ambiente com aquela
voz insuportável dele. – Tenho espaço de sobra no meu carro, lindas. Vai ser um
prazer levá-las.
- Oh, Brendon, que gentileza! Mas a
casa deles é bem mais perto da nossa. Vou com eles mesmo. Tchau. – Johnson
respondeu acidamente e eu sorri vitorioso.
- Hmmm, isso será um pouco
estranho. – Dougie murmurou.
Estávamos enfiando quatro pessoas no
banco de trás de um mini Cooper, onde três já ficavam apertadas. Muito apertadas
Harry estava no volante e Danny no
carona. Eu e Dougie fomos no banco dos passageiros junto com elas mas era fato
que, pelo menos, uma teria que ir no colo.
- Dougie pode ir no colo do Tom. –
Harry sugeriu.
- Não! – respondi na hora,
extremamente incomodado. – Ele peida! Não quero que faça isso em cima de mim.
Bela gargalhou alto e eu me senti
estranhamente satisfeito com isso.
É bom quando te acham engraçado, não
é?
- Então quem vai no colo de quem? –
Danny questionou do banco dianteiro.
- Eu posso ir no colo da Sam.
A ideia de Bela foi bem aceita e nós
tentamos nos ajeitar ali. Tentamos.
- Não dá, não tem espaço pra minha
bunda aí não. – Dougie constatou o óbvio.
- Certo, precisamos mudar essa
configuração. Ou o Dougie vai no colo do Tom, ou-
- Não, Harry, já falei que isso não é
uma possibilidade. – o interrompi de imediato.
- Tudo bem, nós vamos no colo de
vocês, sem problemas. – Sam decidiu, por fim. – Quer dizer, eu não ligo... Se
vocês ligarem, nós podemos ir de ônibus.
- Claro que não! – me apressei em
dizer. Claro que não mesmo. - Sentem aí.
Sim, Bela foi no meu colo, por
traquinagem no destino. Ou não.
# Bela
Depois dessa viajem extremamente
desconfortável, cheguei em casa, tomei banho e fiquei fazendo hora antes de me
arrumar pra sair.
A noite foi incrível como sempre.
O dia seguinte foi normal, como todos
os outros dias da semana.
Eu poderia pular diretamente para o
dia do trabalho de física, porque nada que valha a pena redigir sobre ocorreu
durante aqueles dias.
Eu estava indo embora do Fabric pois
já eram quatro e meia. Meu pai costumava me acordar às seis, então era bom que
eu estivesse em casa às cinco, pelo menos. Estava perto da porta quando Angie
me chamou.
- Bela! Preciso falar com você, é
rápido, eu juro.
- Pode falar. – sorri brevemente.
- Eu acho que tô apaixonada.
- Ahn? Você? – ri um pouco – Por
quem?
- Ah, você não conhece. É um amigo do
Chris. – ela suspirou. – Mas eu não sei o que fazer.
- Conta pra ele, ora.
- Eu contaria se tivesse certeza de
que ele sente o mesmo. Quero dizer, nós temos ficado todo dia. Eu já até dormi
na casa dele, conheci seus amigos e tudo mais. Mas eu queria que ele me
chamasse pra sair, sabe? Que nem um casal normal.
- Wow, essa não é a Angella que
conheço! – exclamei e ela riu. – Bom, vocês ainda nem são um casal... Talvez se
você contar que está gostando dele, ele comece a te chamar pra esse tipo de
programa. Fala pra ele! Anda, fale agora!
- Tudo bem, vou falar, mas não hoje.
Talvez amanhã, se ele vier. Ele tem aula daqui a pouco, por isso já foi embora.
- Uuuuh, Angie pegando os novinhos! –
a cutuquei e ela riu.
- Não costumo ficar com pirralhos,
mas esse vale a pena. Você não imagina o quão gostoso e lindo ele é! E os amigos
também não são nada mal, você precisa conhecê-los!
- Ok, então me apresente na próxima
vez. Tenho que ir agora, Angie, Sam já desceu e deve tá querendo me matar... A
gente tem um trabalho de física pra apresentar daqui a pouco.
- Certo, então vai lá. Boa sorte. –
apertou minha bunda antes de voltar para a festa.
- Por que demorou tanto?! – Bradley
esbravejou assim que me viu.
- Angie quis falar comigo. Está
apaixonada.
- Pfff, duvido!
- Eu também, mas tudo bem...
Rimos antes de tomarmos nosso
caminho.
# Tom
Não era novidade o fato de eu estar
virado e morrendo de cansaço. Aquilo estava acontecendo frequentemente naqueles
últimos dias, por contas das saídas com Chris. O problema era que eu deveria
estar bem hoje, pelo menos na aula de física, por conta do trabalho.
- Fletcher? – a voz de Brook
despertou-me. – O trabalho é no próximo e as duas nerdzinhas ainda não
apareceram!
- Hm... Fale com Harry. – Essa era
uma boa estratégia. Quando não se está com cabeça pra pensar em nada, passe o
problema para outro.
- Harry disse pra eu falar com você!
– sussurrou irritada.
- Então fale com Danny ou Dougie.
Eles com certeza saberão o que fazer.
- Thomas! – exclamou, ainda em tom
baixo.
- O que eu posso fazer, Brook? Não
tenho como resolver esse problema.
- Vou comunicar ao diretor que sua
filhinha perfeita cabulou todas as aulas do dia. Aposto que ele nem sabe.
- Melhor não fazer isso. – opinei. –
Espere até a aula de Física começar. Se ela ainda não estiver aqui, tentamos
contatá-las de alguma forma...
- Se elas não estiverem aqui na aula
de Física, eu mesma me encargo de resolver esse probleminha com minhas próprias
unhas. – grunhiu ela e eu prendi o riso, tornando a deitar a cabeça nos braços,
sobre a mesa.
- Com licença, professor Wurts. –
escutei a voz de Bela Johnson e suspirei aliviado, já no meio do trabalho do
segundo grupo. – Eu e Sam tivemos alguns problemas. – ela comunicou. – Desculpe
pelo atraso. Podemos entrar?
- Sabem como odeio atrasos na minha
aula, não é? Mas vou deixá-las entrar. Só por causa do trabalho.
- Certo, obrigada. – Sam respondeu
educadamente, procurando um acento vago. Os que elas costumavam sentar já
estavam ocupados.
A apresentação do trabalho foi
basicamente dividida entre Brooklee, Bela e Sam. O resto do grupo ficou quase
todo o tempo quieto, falando somente parte do que fora ensaiado anteriormente.
Mas obtivemos sucesso, a julgar pela cara de satisfação do professor, que logo
veio a anunciar que nós fomos os ganhadores dos dois pontos.
Senti-me feliz, mas nada se comparava
a Danny e Dougie, pulando abraçados pela sala e berrando palavrões. Concordei
freneticamente com Harry, quando ele soltou um “que vergonha alheia!”
durante o surto de alegria dos outros dois.
- BELA E SAM, AMO VOCÊS! – Danny as
agarrou e beijou as bochechas de ambas, sendo imitado por Dougie. Fiquei um
pouco constrangido por elas, mas as próprias nem ligaram. Riam mais que
qualquer um.
- Não é pra tanto, Jones. – Sammy
disse rindo. – Foram só dois pontos e não um bilhete premiado da loteria.
- Não, é sério, vou passar o
intervalo inteiro com vocês. – Danny avisou.
- Vamos te bajular o dia todo, lamber
o chão que vocês pisam. – completou Poynter, ainda eufórico.
Interessei-me subitamente naquelas
declarações. Quer dizer, se os dois passariam mesmo o intervalo com elas, eu
poderia passar também, não é?
Bela sentou-se à mesa segurando sua
bandeja que tinha comida para ela e para Sam.
O resto – eu, Danny, Sam, Dougie e
Harry – já estava lá, sob um silêncio incomum, esperando-a pra comermos.
- Olha, se for pra ficar nessa mudez
toda, prefiro passar meu recreio sozinha com a Bela porque é muito mais
divertido e interessante, a gente não cala a boca. – Sam avisou, nos fazendo
rir brevemente.
- Concordo. – Bela disse, enfiando o
canudo em seu achocolatado.
- Puxem algum assunto, então. –
sugeri. – Porque eu, definitivamente, não sei o que conversar com vocês.
- Hm, deixa-me ver... – Johnson
coçou o queixo, pensativa. – Vocês moram sozinhos em uma casa, não é? Como
sobrevivem sem uma mulher?
- Somos perfeitamente capazes de
sobreviver sem mulheres! – Harry exclamou e eu parei, por um segundo, pra
refletir sobre o quão gay aquela frase soou, se olhada por outro ângulo. – A
gente divide as tarefas e vivemos bem com isso.
- Devem sobreviver de comida enlatada
e pizza. – Sam especulou. Ela estava essencialmente correta.
- Claro que não! Fletcher cozinha, às
vezes. – Disse Dougie.
- A verdade é que temos uma diarista
que passa lá pra tirar nossas porquísses uma vez por semana, e
ela deixa umas comidas congeladas pra gente... – Danny confessou. – Não
seríamos nada sem uma mulher. E ainda tem a mãe do Tom que sempre melhora
nossas vidas de alguma forma com suas visitinhas.
- Sabia! – Bela exclamou, rindo. –
Homens não são capazes de viver sozinhos.
- Somos capazes sim! – Harry
retrucou, rindo. Mas eu sabia que estava um pouco indignado, ainda que se
divertisse com a conversa. Ele não gostava de ser subestimado. – Se quiserem,
passem lá em casa um dia desses e mostraremos como nossa casa deve ser mais
impecável que seus quartos.
- Oh, isso foi um convite? – Sam
perguntou enquanto Bela erguia uma sobrancelha. Elas pareciam ensaiadas.
- Foi! – eu mesmo respondi, adorando
a ideia. – Apareçam lá e provaremos.
- Certo, só nos diga quando. – disse
Johnson, mantendo as sobrancelhas erguidas, desafiadora.
- Amanhã mesmo. – falei. – Podem ir
amanhã, depois da aula.
- Tudo bem, estaremos lá. – Sam
confirmou e logo voltamos a conversar sobre outros assuntos menos polêmicos,
como sobre o sonho de Bela de ter um zoológico (ou quase isso, considerando o
número de bichos que ela gostaria de criar).
Incrível como, a cada dia, eu
descobria algo sobre ela que a tornava mais intrigante e adorável aos meus
olhos.
Não que isso queira dizer alguma
coisa, logicamente.
Fomos pra casa, naquele dia, e não
fizemos nada além de passar o dia inteiro no porão, tocando. Sentia-me cansado,
à noite, e não planejava sair. Eu queria mesmo dormir, pois não andava fazendo
isso direito nos últimos dias. Mas algo me dizia que o telefonema inesperado de
Angie implicaria em meus planos.
- Oi, Angie. – tentei parecer cansado
pra que ela pensasse duas vezes antes de me chamar pra sair, se fosse isso o
que ela pretendia fazer.
- Oi, Tom. Estava dormindo?
- Quase isso. – respondi, rindo um
pouco. Não era exatamente verdade, mas...
- Já? Ainda são nove da
noite! – ela parecia animada.
- Estou meio cansado.
- Entendo... É que... Bom, eu
queria... Queria te ver hoje. É importante. Preciso conversar com você.
- Conversar?
– fiquei curioso. – Conversar sobre o que?
- Sobre... Sobre nós dois.
A revelação me assustou um pouco. Não
sabia o que aquilo queria dizer. Nós nos conhecíamos há aproximadamente uma
semana, ela não podia estar querendo falar sobre compromisso, não é? Eu não
gosto de compromissos. Ainda sou muito novo pra me prender a uma garota sem ao
menos gostar dela. Angie era uma pessoa legal e, felizmente, muito bonita, mas
era só isso. Eu gostava de ficar com ela, mas isso não significava
absolutamente nada. Exclusividade, no momento, nem passava pela minha cabeça.
Namoro era algo extremamente incogitável.
- O que quer dizer com isso?
- Ah, Tom, não quero falar
por telefone. Será que não podíamos nos encontrar em algum lugar? Prometo ser
rápida e pode ser aí, perto da sua casa.
- Certo. Tem um Bar Italia aqui
perto, sabe onde é?
- Sei.
- Então te encontro lá em meia hora?
- Sim, claro, está ótimo. Até mais.
- Até.
Desliguei e fui tomar um banho
rápido.
- Então... – ela suspirou. Já
havíamos pedido nossos aperitivos e bebidas, e estávamos esperando-as em nossa
mesa do lado de fora, porque a noite estava um pouco quente. – Eu não sei nem
como falar sobre isso porque, em meus vinte anos de vida, nunca passei por
situação parecida. Mas eu acho que se eu for direta, vai ajudar. - Assenti com
a cabeça, a esperando prosseguir. – Eu... Eu... Desde que te conheci, o achei
especial. – Mau começo. – Você é realmente bonito e atencioso, e não é tão
bobinho quanto os outros garotos da sua idade. Quero dizer, você e seus amigos
são legais, sabe?
- Obrigado. – respondi por educação,
já prevendo o rumo da conversa.
- E eu me senti muito bem ficando com
você. Eu senti algumas coisas diferentes, até quando transamos... Bom,
resumidamente, acho que estou gostando de você. Eu estou apaixonada, Tom. Só
tenho pensado em você nesses últimos dias e isso nunca aconteceu comigo, estou
me sentindo uma adolescente idiota.
Isso que ela chamava de ser direta?
Eu já tinha entendido tudo desde o inicio. Pra mim, ser direta seria
mais como: “oi, Tom, tudo bem? Estou apaixonada por você, vamos nos casar?”
- Hm, isso é... Inesperado. –
suspirei fortemente. – Eu não sei o que dizer. – Fui sincero.
- Te entendo. Mas meu verdadeiro
propósito, com essa conversa, não é começar algo sério nem nada. – Me senti
aliviado ao ouvir tais palavras. – Eu só precisava te contar. Precisava que
você soubesse e eu realmente espero que isso não interfira em nosso
relacionamento porque eu adoro ficar com você, está sendo legal.
- Claro, eu também acho.
- Eu só queria que... Não sei... Só
que queria que a gente pudesse ter mais tempo sozinho. Não quero pressionar
nada, Tom, mas eu realmente estou gostando de você e nossos momentos sozinhos
são os melhores. Talvez pudéssemos sair em outros tipos de programa, sem o
pessoal...
- Hm, por mim tudo bem. É só você me
ligar quando quiser fazer alguma coisa e aí a gente sai junto. – Falei, mas não
era bem verdade. Eu torcia pra que ela não me ligasse.
- Oh, isso é ótimo! Obrigada, Tom,
você é encantador. Obrigada mesmo, por me entender.
- Por nada, Angie. – coloquei minha
mão sobre a sua, a olhando do jeito que eu costumava olhar antes de conquistar
alguns... Agrados. – Disponha.
Bom, depois disso, meu mini Cooper –
sim, eu fui ao bar, pertíssimo da minha casa, de carro (o cansaço era realmente
grande) – serviu de “cama” de novo e eu tive mais um momento maravilhoso
compartilhado com Angie, antes de deixá-la em casa.
O bom de ter alguém, gostosa como
Angella Shelsher, apaixonada por você é que o sexo é sempre bom e garantido. Eu
não abriria mão de ficar com ela, sendo seu nível tão alto,
por qualquer outra garotinha inexperiente. Eu não era idiota a esse ponto,
então... Talvez, Angie estivesse com sorte.

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