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# Tom

Acordei, naquele dia, com uma estranha sensação de ansiedade, mas levei alguns minutos até me lembrar do motivo dela.
Sam e Bela nos visitariam hoje.

Sorri sozinho enquanto puxava a boxer que estava abaixada na parte de trás. Eu vivia acordando com uma das nádegas de fora e isso já foi, diversas vezes, motivo de constrangimento em situações... Peculiares.
Concluí minha higiene matutina e arrumei-me antes de descer as escadas e encontrar apenas Dougie. Uma novidade. Ele era sempre o último a acordar.
- Bom dia, cara. – cumprimentou-me e eu respondi um "bom dia" meio rouco, por conta da voz desacostumada a falar. – Estou tentando abrir essa lata de pêssego em calda há uns vinte minutos, mas não consigo.
- Me dá aqui. – tomei a lata em minhas mãos e procurei um abridor nas gavetas. Ele nunca conseguiria fazer aquilo sem um abridor, mas não cheguei a comentar esse fato. Já estava acostumado com as lerdezas do Dougie. – Onde você arranjou pêssego em calda?
- Arranjei no mercado. – ele deu de ombros. – Eu vi na prateleira e pensei: "Bom, gosto de pêssego e gosto de calda. Por que não?", aí comprei.
Ri um pouco mais do que o necessário com sua explicação, logo lhe entregando a lata aberta, sem antes roubar um pedaço de pêssego.
- Hm, isso aqui é muito bom. Temos que comprar mais vezes. – falei, servindo-me de mais alguns pedaços junto com Poynter.
- Dia. - Harry chegou já com o uniforme. – O que é isso, pêssego em calda?
- É, quer um? – Dougie ofereceu e Judd aceitou, colocando a mão dentro da lata e pescando um pêssego.
- Deixa eu só te perguntar uma coisa, Harry. Você lavou a mão depois da urina matinal? – quis saber, temendo o pior.
- Ih, não lavei não. – confessou, fazendo com que surgisse uma expressão de nojo na cara de Dougie, e eu podia apostar que meu rosto não estava muito diferente.
- Ótimo, agora o resto de nossos pêssegos estão temperados com pênis de Harry.
- O que tem o pênis do Harry? – Danny chegou, acompanhando o fim da fala do Poynter, com seu típico cabelo todo pro alto. Não sei como ele consegue essa proeza à noite.
- Nada não, quer pêssego? – ofereci, escutando Harry prender o riso.
- Claro! – Aceitou sem hesitar, devorando os últimos pedaços restantes na latinha.
E foi depois desse episódio nojento que fomos para a escola.

# Bela

Felizmente, eu estava um pouco menos sonolenta naquele dia, pois tinha desistido de sair pra qualquer lugar à noite, já que precisava de umas boas horas de sono.
Céus, como eu andava cansada!
Hoje teríamos prova de matemática, e isso explicava as testas contraídas em aflição. Todos estavam nervosos, afinal, álgebra não era a coisa mais fácil do mundo e estava longe disso.
Sam ainda não tinha chegado, por isso fiquei mexendo no celular pra passar o tempo, antes das aulas começarem.
- Ah, desculpe-me. Eu estava lendo e não prestei atenção. – Lizzie Lancaster disse, ao esbarrar em minha mesa fazendo com que meu celular voasse para o chão. – Desculpe-me mesmo, se houver qualquer dano ao aparelho, eu faço questão de pagar.
- Relaxa, Lizzie, está tudo bem! – a tranquilizei. – Meu celular é campeão de salto à distância. Incrível como ele adorar se jogar no chão. Não é a primeira vez, fique tranquila.
- Tudo bem, obrigada pela gentileza. Com licença, preciso sentar-me antes que a aula seja iniciada.
A observei andar apressar pra sua carteira no outro canto da sala. Aquela menina é a pessoa mais antissocial que eu conheço. Deveria apresentá-la a PJ, eles seriam o par perfeito.
Isso se ela não fosse tão certinha a ponto de abolir até mesmo qualquer menção às drogas.
- Oi, Johnson. – a voz de Thomas tirou-me dos meus curtos devaneios.
- Oi. – sorri.
- Vou sentar aqui do seu lado hoje, porque eu não estudei pra prova. – assumiu, sorrindo de lado.
- Sinta-se à vontade. – sorri de volta.
- Você tem um sorriso bonito. – ele comentou distraído, enquanto sentava-se.
- Er... – pude sentir o sangue concentrar em minhas bochechas, que provavelmente assumiam o tom rubro típico de quando eu estava em situações como essa. O que não era muito comum, vale dizer. Não que eu seja feia nem nada, não tenho nenhum problema quanto à minha aparência, mas toda vez que me elogiavam dessa forma eu estava bêbada e o cara estava muito empenhado em tentar me comer. Não me lembrava de ter sido elogiada de tal forma, tão genuína e verdadeira quanto a que Thomas usara. – Obrigada.
E só então percebi o quão constrangido ele também estava. Talvez não quisesse ter me elogiado tão espontaneamente, o que me deixava feliz, de certa forma, porque me fez confirmar veracidade de sua constatação sobre meu sorriso.
Ele realmente via beleza quando eu sorria, e isso me fez querer sorrir mais.
- Bela! Que cara de ânus feliz é essa? – Sam chegou esbaforida, sentando do meu outro lado, no seu lugar de sempre: colado à parede.
- Não estou com cara de ânus feliz. – contradisse rindo, um pouco sem graça por Fletcher ter escutado as palavras dela. – Meu pai vai viajar esse fim de semana e eu vou ficar sozinha em casa com o meu irmão. – mudei de assunto.
- Oh, isso é ótimo! – ela sorriu animada. – Faremos bons planos! Podemos chamar Angie, Spen–
- Sam! – quis matá-la. Rapidamente, olhei pra Thomas, checando se prestava atenção no que falávamos, mas ele estava entretido numa conversa com os amigos. Suspirei aliviada.
Ops... Foi mal.
- Foi péssimo!
- Desculpa.
- Tá desculpada. – rimos brevemente.
- E então, estudou para a prova de hoje?
- É claro que estudei... – respondi, sorrindo marotamente, antes da professora começar a aula.

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- E então, meninas? – Danny chegou perto de nossa mesa, junto com os outros três, no intervalo. – Vão à nossa casa hoje?
- Claro que sim, somos meninas de palavra. – respondi com o nariz empinado. – Mas temos dança hoje, só podemos ir depois da dança.
- Tudo bem, não tem problema. – Dougie abanou o ar – Também temos que limpar a sala de química laboratorial...
- Eu estive pensando... Vocês têm videogame, não é? – Sam quis saber.
- É obvio que temos. – Tom respondeu com uma risadinha. Eu achei adorável.
- Podíamos fazer um campeonato apostando algumas coisas... Sabe, eu me garanto no Mario Kart.
- Não jogo Mario há um século, mas tudo bem, a gente aposta. – Tom deu de ombros.
- Bela também é boa, não é? – Sam me cutucou com o cotovelo.
- Sou. – afirmei. Eu e Sam costumávamos brincar disso quando mais novas e ainda competíamos às vezes, hoje em dia. Eu costumava ganhar naquela época, mas parece que perdi todas as minhas habilidades. Fazia um tempo que não ganhava de Sam... Eu tinha minhas desconfianças de que ela andava treinando em casa.
- Legal, então nós podíamos... – Harry foi interrompido pelo sinal batendo – Ok, agora temos aula de novo. Mais tarde a gente se vê. E o campeonato tá de pé, hein! – avisou, afastando-se.
- Até mais, meninas. – Disse Tom, acenando junto aos outros.
Eu e Bradley acenamos de volta e, assim que eles sumiram do nosso campo de vista, ela me olhou sorrindo.
- Eu gosto deles, sabe? Quero ser amiga deles e tudo mais. Quero me aproximar.
- Quer se aproximar especificamente do Danny, né? – impliquei, rindo.
- Não sinto nada por ele, de verdade. – ela deu de ombros e eu sabia que estava falando a verdade. Com certeza, me contaria se estivesse afim de alguém. – Mas que ele é lindo, isso ele é. Sem dúvidas!
- Tom é mais bonito, na minha opinião. Tenho reparado mais nele esses dias e percebi o quanto ele é bonitinho.
Bonitinho? Toda mulher em sã consciência abriria as pernas para o Fletcher! Ele é maravilhoso, um excelente partido e tem cara de ser bom de cama, de acordo com meu olhar avaliador. – Gargalhei. Sam era ótima... – Se eu fosse você, ia logo na dele... Mas é que, sei lá, tenho essa atração estranha pelo Danny. Ele podia ser a coisa mais feia do mundo, obviamente não é, mas podia ser, e ainda assim eu sentiria essa atração...
- E depois ainda diz que não é afim dele...
- Não sou mesmo. – deu de ombros de novo. – Mas se a gente começar a se aproximar eu não garanto nada... Daqui a pouco estou de quatro por ele.
- Em todos os sentidos. – completei rindo.
- Pode apostar que sim. – ela confirmou, me fazendo rir ainda mais.

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# Tom

Eram quatro e vinte da tarde quando Bela e Sam chegaram. Dougie ainda estava de cueca e foi correndo se trocar, enquanto eu e Danny as mostrávamos a casa.
Elas ficaram encantadas com o porão que usávamos como estúdio, passaram longos minutos bajulando cada detalhe do cômodo. Bela disse que sonhava em aprender algum instrumento e eu rapidamente me prontifiquei a ensinar.
Obviamente, porque eu era uma boa pessoa, nada além disso.
As mostramos a cozinha e elas analisaram a dispensa, reclamando que só tinha porcaria, mas, logo depois, assumiram que sonhavam em ter uma dispensa assim. Em seguida, partimos para o segundo andar e elas gargalharam quando passaram pelo nosso arco da felicidade, que era uma parte da parede que lotamos de pôsteres de mulheres seminuas (havia algumas totalmente nuas, mas as fotos eram pequenas e discretas. Tão discretas que elas nem sequer repararam). Apresentamos a elas os quarto, e pude ver o quanto se encantaram com cada um deles. Eu não imaginava tal reação. Pra mim, iriam odiar a casa por conta de alguns aspectos tão anti-nerds. Mas não. Elas realmente amaram.
- É sério, eu quero ver o banheiro do Harry! – Bela insistia. – Eu prendo a respiração, não tem problema! Mas eu estou curiosa pra saber como está o vaso!
- Ignorem-na. – Sam abanou o ar com descaso. – Ela é nojenta com essas coisas.
- Deixa eu ver!
- Bela, você vai vomitar, é sério. – Alertei. – E aí a situação do banheiro só vai piorar. Já têm os dois vômitos do Dougie, das vezes em que ele tentou entrar lá... Não precisamos de mais um seu.
- Não vou vomitar. – ela cruzou os braços e fez bico, e, juro, foi mais forte que eu, mas eu precisei sorrir com aquela visão. Achei tão bonito, mas tão bonito que cogitei pedir a ela que ficasse assim pra que eu tirasse uma foto. E não me ache veado por isso. Gay seria se eu achasse bonito o Danny fazendo essa cara. – É sério, Fletcher, me deixa ver! Estou muito curiosa...
- Johnson, deixa de ser retardada! É só um bando de merda numa porra de uma privada cercada de vômito, não tem nada de interessante nisso!
Espantei-me com a forma que Sam falou. Desde quando ela falava desse jeito?
- O que você tem com isso? Se você não quer ver, foda-se, mas eu quero! - Bela respondeu da mesma maneira e eu arregalei os olhos, assim como Danny. E então, Sam desatou a rir.
- Não se preocupem, nós estamos sempre falando desse jeito uma com a outra. Não é como se estivéssemos realmente brigando, não precisam fazer essas caras. – explicou e eu sorri de lado.
- Bela, se você quer mesmo ver o banheiro, vá enfrente, mas nós vamos esperar aqui fora. – Danny falou e eu concordei.
Ela voltou alguns segundos depois, com o nariz franzido e a língua meio pra fora, numa careta de nojo.
- Eu pensava que a merda estava só na privada, mas tem cocô até nas paredes! Como vocês conseguiram aquilo?!
- Resultado de muitas bebidas e problemas intestinais. – disse, e ela gargalhou.
- Aquilo está nojento!


A tarde foi extremamente agradável. Não pude acreditar no quanto elas eram legais e irritantemente boas no videogame. Isso tudo era incrível demais para minha mente limitada. Claro que houve os momentos em que seus lados de nerds quadradas afloraram, como quando elas olharam horrorizadas para nossas cervejas e quando não aceitaram o fato de que não líamos nem três livros por ano. Mas elas eram surpreendentemente legais. E bonitas.

Eu não sei exatamente em que momento da tarde eu dormi, só sei que acordei com um celular desconhecido tocando Twist and Shout exatamente do meu lado.
Percebi que o celular era de Bela e sorri com a música. Ela, além de tudo, tinha um bom gosto musical.
Fiquei surpreso ao me dar conta de que o peso em minha perna era a cabeça dela, que dormia profundamente, sem nem desconfiar que seu celular tocasse.
- Erm... Bela? Bela? – cutuquei seu ombro.
- Hm?
- Bela, seu celular. É o seu pai. – pude ver no visor.
- Manda ele se foder... – ela murmurou tão distorcidamente que eu não tenho certeza se foi realmente isso o que ela disse. Mas, de qualquer forma, eu gargalhei alto, a fazendo despertar no susto e me olhar encabulada.
- Desculpa... – disse, antes de atender. – Oi, pai! Ainda estou aqui na Sam. – Então ela havia mentido para o pai sobre estar aqui? Mas por quê? – Tudo bem, estamos terminando algumas lições e já vou pra casa. – Certo, isso foi estranho... – Não... Já são oito da noite?! Nem vi a hora passar. Só vou revisar algumas coisas e já estou indo. Ok, até mais. Tchau. – Desligou, colocando o celular no bolso. - Nossa, me desculpe mesmo por ter dormido em cima de você, isso foi... Constrangedor, não sei nem onde enfiar minha cara. – brincou, com as bochechas coradas.
- Não exagera, – disse rindo descontraidamente para tranquilizá-la. – está tudo bem, relaxa. Tem que ir, né?
- Sim... – crispou os lábios aparentemente insatisfeita. Eu também estava. – Hoje foi... Demais.
- Foi. – concordei sorrindo. – Podemos marcar mais vezes.
- Seria ótimo.
- Me dá seu telefone, aí a gente pode se falar melhor e tudo mais...
- Claro. – ela falou a sequência de números enquanto chacoalhava a amiga. – Acorda, Sam. Temos que ir!
- Só mais uns minutinhos... Tanto tempo que eu não durmo assim...
- Durma em casa! Vem logo, meu pai já tá implicando com a hora.
- Ai, eu odeio aquele velho gordo... Por que ele e minha mãe não se casam e se mudam pro Cazaquistão? – Sam resmungava, juntando suas coisas para sair.
Comecei a rir das lamúrias, e isso fez com que Danny e Dougie – que também dormiam pela sala – acordassem.
- Já vão, meninas? – Dougie perguntou coçando os olhos e Bela concordou com a cabeça.
- Se eu não aparecer em casa agora, o diretor me deserda. – fez uma careta. – Até amanhã, meninos. Obrigada por hoje.
- Foi um prazer! – Danny bateu continência.
- Tchau! - Sam exclamou, já do lado de fora.
Eu havia as acompanhado até a porta e enquanto elas andavam pelo jardim da frente, me toquei que podia oferecer carona.
- Ei, meninas, não preferem que eu leve vocês de carro?
- Obrigada, Fletcher, mas é melhor eu não aparecer por lá de carro, porque eu supostamente estou na casa da Sam, que é uma quadra depois da minha.
- E, acredite, nossos vizinhos são fofoqueiros... – Bradley completou e eu sorri.
- Tudo bem, então até amanhã.
- Até. Manda um beijo pro Harry. – Bela disse, antes de voltar a andar junto com Sam.


Entrei novamente em casa e me deparei com Judd saindo da cozinha.
- As nerds foram embora? – perguntou.
- Sim, e mandaram um beijo pra você.
- Hm. Eu tava lá em cima tomando banho e só desci agora. – explicou – Até que elas não são tão ruins.
- Eu falei que tem alguma coisa estranha nelas que me intriga... – recobrei – Quando Bela falou no telefone com o pai, percebi que ela não é tão nerd assim. Ela mentiu pra ele sobre estar aqui, disse que estava estudando na casa da Sam. E eu também percebi que ela não gosta do pai tanto quanto nós. Nem ela, nem Sam.
- Quem gosta daquele gordo? – Danny inquiriu, me fazendo rir.
- Ele nem é tão gordo assim, Danny. – Dougie opinou, deitando no sofá.
- Só você vê quilos extras nele. – Harry disse, rolando os olhos.
- A Sam concordou comigo mais cedo, quando falamos sobre ele. Ela disse que o Sr. Johnson está acima do peso e precisa de uma dietinha.
- Dois retardados. – murmurei – Vou lá tomar banho. – avisei antes de subir as escadas rumo ao meu chuveiro.


Quando finalmente deitei na cama, peguei meu celular, percebendo haver duas mensagens ali.
"Podíamos sair hoje também... O que você acha? xoxo"
Desnaturado, estou com saudades! Me ligue assim que der e trate de vir nos visitar, não vivo sem você. Te amo!"
Sorri com a segunda mensagem. Era da minha mãe. Desde que me mudei pra cá, ela fazia visitas constantes, mas ultimamente não tem podido vir. Eu a entendo. É longe e ela tem a saúde frágil.
Às vezes me pergunto como tive coragem de deixá-la, mesmo que minha avó tenha ido morar com ela. Somos, os três, tão agarrados que chega a ser incomum passar duas semanas sem vê-las ou falar com elas. É muito pra nós, eu já estava mesmo com saudades.
"Vou aí nesse fim de semana. Prometo! Amo vocês", foi minha resposta. Quanto à mensagem de Angie, fui mais breve, dizendo apenas que hoje não dava e que depois marcávamos outra data.
Ainda olhando pro celular, lembrei que tinha pegado o número da Bela. "Pra gente se falar melhor", que péssima desculpa! A gente podia se falar todo dia na escola, pra que eu tinha pegado seu telefone? Foi um jeito idiota e inconsciente de mostrar que eu estava interessado. Muito inconsciente, aliás, porque é óbvio que eu não queria mostrar nada disso. Eu nem ao menos estou interessado nela, pra começo de conversa. Por mais que Bela tenha um milhão de qualidades relevantes, eu simplesmente não consigo me ver com uma nerd. Não dá.
Porque é isso que ela é. Uma nerd. NerdApesar de tudo, ela só uma nerd...
Bufei, um pouco cansado de pensar. O celular vibrou uma última vez, antes de eu colocá-lo na cabeceira, anunciando uma nova mensagem.
Angie.
"Vamos sair juntos no fim de semana, então?"
"Ok", respondi, guardando o celular. Angie era uma pessoa legal e eu sabia que gostaria de vê-la (por causa das recompensas) no fim de semana. Eu só não queria hoje porque, estranhamente, não me sentia no clima pra isso.

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# Bela

Nós quase não saímos naquela semana. Não sei por que, mas, além da incomum falta de vontade, havia o cansaço.
Eu, entretanto, não gostava dessa situação. Sentia como se tivesse traindo a mim mesma. Traindo a personalidade que eu tanto me esforçava pra manter. Eu precisava sair. Precisava ir às festas e às boates.
Os meninos do McFLY passaram os intervalos conosco durante quase toda a semana e na quinta nós voltamos a ir a casa deles. Estávamos ficando amigos, eu sabia. E gostava. Porém, continuar com aquela amizade não era a opção mais segura pra pessoas como eu e Sam.
Aqueles quatro construíram uma ponte entre nós e eles muito rápida e facilmente. De uma hora pra outra, já falavam conosco como se fossemos velhos amigos, se abriam a nós de forma que nos possibilitasse conhecê-los muito bem em pouco tempo, e não demoraria nada pra que cobrassem de nós, pertinentemente, a mesma abertura que nos deram. Abertura essa que não podíamos nem cogitar a possibilidade de dar.

Eu e Sam precisávamos acabar com essa ponte e manter uma amizade mais recuada. Menos exposta. Precisávamos frear. Fechar portas. Tudo isso em prol da nossa segurança.


- Bee? – Luke entrou em meu quarto depois de três toques breves na porta. – Seu pai está te chamando lá no escritório dele. Quer conversar.
- Tem uma ideia do assunto?
- Não. – ele deu de ombros – Mas ele parece insatisfeito.
- Estranho será quando ele estiver satisfeito. – falei, caminhando junto com meu irmão em direção ao escritório.
- Boa sorte.  Disse ele, com o sorriso debochado de sempre, seguindo para a cozinha.
Adentrei o cômodo, vendo meu pai sentado em sua cadeira de couro, com os dedos entrelaçados. Eu o via, ali, como o meu diretor e não como meu pai, a julgar por sua expressão seca. Sentia-me na diretoria e não em casa.
- Algum problema, pai?
- Na verdade, sim. – limpou a garganta antes de continuar. – Você, filha, é o tipo de pessoa que dá orgulho a qualquer um. Principalmente a mim. Sua disciplina é admirável e eu tenho a maior satisfação em dizer a todos que essa menina cheia de qualidades é minha filha. – Oh... Pouco sabe ele... – E uma pessoa como você... Uma pessoa com você deveria escolher melhor as amizades. – Por um momento, preocupei-me. Estaria ele falando de Chris e companhia? Mas minhas dúvidas foram sanadas ao passo que ele continuava seu discurso. – Você deve saber que eu estou ciente de tudo que se passa naquele colégio. E eu sei que tem andando com más influências, esses dias. Quero que se afaste daqueles rapazes mesquinhos e infantis antes que o comportamento chulo deles comece a modificar a pessoa maravilhosa que você é. Eu amo você, princesa, e só quero o seu melhor. E o melhor pra você, definitivamente, é estar longe daqueles... Estúpidos.
- Quer que eu me afaste deles? – repeti, sem consegui esconder a surpresa e incredulidade.
- Sim.  – respondeu simplesmente.
- Então eu não posso nem mais ter amigos? – esforcei-me para não alterar a voz mais que o necessário.
- Claro que pode, princesa. – o apelido serviu para me estressar ainda mais – Mas esses amigos precisam ser bons pra você.
- Eles são bons pra mim! – contrapus. – E sou eu quem deveria julgar isso. Não é como se eu fosse idiota a ponto de deixar qualquer bobeira influenciar meu comportamento. Sou perfeitamente capaz de lidar com pessoas como eles, que, aliás, são muito agradáveis.
- Eu não gosto deles! – rosnou, bravo.
- Mas eu gosto, pai. Não me obrigue a deixar de falar com pessoas que gosto...
- Não vou te proibir de dirigir a palavra àqueles quatro, mas não quero que continue com essa amizade. Pode até, eventualmente, vir a falar alguma coisa com eles, mas nada de intervalos juntos. – impôs.
Levantei da cadeira na qual eu estava sentada e, sem dizer nada, deixei o escritório a passadas largas. Eu estava muito, muito irritada.
Veja bem, agora tudo mudou de ângulo.  Se pouco antes eu estava planejando afastar-me pelo bem da minha personalidade, agora eu estava querendo me aproximar ainda mais, seguindo a linha de raciocínio de "afirmação da minha identidade". E ir contra os princípios do babaca do meu pai era o primeiro item da minha listinha mental “o que fazer pra ser rebelde”. Eu precisava ser eu mesma, não é? Então tudo bem. Desobedecer é o primeiro passo. Mesmo que isso seja um pouco arriscado e dobre meu trabalho de esconder a “verdadeira” Bela Johnson por trás da nerdzinha.
- Miles? – respondi, logo depois de escutar o “alô” do Chris. 
Oi, Johnson! Está sumida.
- Onde você está? 
- Aura. Tô com aqueles amigos novos, você precisa conhecê-los. 
- Ótimo, estou indo aí. – meu cérebro não codificou nada depois da palavra “Aura”. Desliguei sem ouvir sua resposta e digitei uma mensagem para Sam:
Nos encontre agora no Aura, estou indo de carona com o Luke.
Arrumei-me rapidamente. Lucas sempre saía às nove. Eu costumava esperar meu pai dormir, mas hoje, não quero nem saber. Sou extremamente impulsiva quando estou com raiva. Peguei o celular novamente notei que Sam havia respondido.
Hoje não vou não, estou no skype com o Danny! Dá pra acreditar????? Os amigos dele saíram e ele tá sozinho em casa, aí pediu pra eu ficar conversando com ele. Estou gamadinha...
Sam era realmente alguém anormal por me fazer rir num momento como esse.

- Luke? – entrei em seu quarto, o vendo colocar a carteira no bolso, já pronto para sair. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso por me ver vestida daquele jeito, àquela hora.
- Você sabe que meu pai pode te ver a qualquer momento se continuar aí, não é? – puxou-me para dentro do quarto e fechou a porta. 
- Pode me levar a um lugar? Não sei qual parte do bairro é aquela, mas sei o caminho até lá.
- Vai agora, comigo?
- Vou. 
- Tudo bem, então... – ele riu, dando de ombros. – Vamos.
Devo ter nascido com o cu virado para a lua, porque eu realmente tenho sorte. Meu pai não nos viu saindo, o que facilitou consideravelmente a minha vida. Pouco tempo depois, eu já estava no Aura, procurando por alguém conhecido.

# Tom

Chris tinha nos chamado para sair, naquela quinta-feira, e nós fomos. Eu não estava com muita vontade e planejava voltar cedo, mas como ele mencionou o fato do lugar ser novo, eu quis conhecer. 

E eu fiz bem de vir. A decoração era a mais incrível possível. Tudo ali lembrava a galáxia. Se eu não estivesse tão desanimado pra esse tipo de programa, provavelmente estaria curtindo mais. Mas eu preferia estar na mesma que Danny, hoje. Em casa, fazendo algo inútil.
Passei parte do tempo conversando com Chris, outra parte bebendo com Harry, e a última, ficando com Angie.  Depois que fomos para o banheiro e gastamos uma camisinha, resolvi que já queria ir embora. 

- Fica mais um pouco, Tom! 
- Não, Angie, estou com sono. – menti. – Depois a gente se vê. – Lhe dei um selinho e saí à procura de Harry. Ele estava com o Chris. – Ei, estou indo embora. 
- Vou com você. – Harry anunciou.
- Ah, vocês estão brincando! – Chris reclamou. – Ainda é uma e meia da manhã! Eu vou apresentar uma amiga minha a vocês, ela é delirante...
- Depois você apresenta, Chris. – Falei. – Hoje não estou muito no clima.  
E era verdade. Eu nem sabia por quê.
- Ok. – ele deu de ombros e saiu.
- Quem dirige? – perguntei a Harry. 

- Não sei se estou bem pra dirigir. – ele disse.  – É melhor você... – a frase dele morreu no ar ao escutarmos um barulho. 
Olhamos brevemente, de soslaio, na direção do som e lá estava uma garota com belas pernas, de costas pra nós, falando no telefone. O barulho foi dela chutando uma lixeira. 
-... É melhor você ir no volante, cara. – Harry continuou a frase, mas eu decidi olhar pra garota novamente e, para minha, sorte, ela estava, vagarosamente, virando de frente pra mim.

# Bela

Eu ainda não estava completamente bêbada, mas morria de calor. Estava dançando há horas com Florence, praticamente desde que cheguei. Tinha falado pouco com Chris porque ele estava com seus amiguinhos novos. 

Senti algo no bolso vibrar. Não era a primeira vez que eu sentia aquilo, mas só agora me liguei que podia ser o celular. Certo, talvez já estivesse bêbada. 

Oh, não...
“Pai” era o nome que constava na tela. Corri até o lado de fora para atender, porque lá era silencioso, pelo menos.
- Alô. – respirei fundo.
- ONDE VOCÊ ESTÁ?
- N-na casa da Sam. Eu estava um pouco irritada e precisava espairecer. 
- JÁ LIGUEI PRA LÁ E A MÃE DELA DISSE QUE NÃO TE VIU CHEGANDO. 
- Mas eu estou na casa da Sam, pai. A mãe dela pode não ter me visto, mas eu estou aqui.
- SABE QUE HORAS SÃO? UMA E MEIA! UMA E MEIA DA MANHÃ! VOCÊ ESTÁ DE CASTIGO, OUVIU BEM? – chutei a lixeira, irritada. – EU NÃO QUERO VOCÊ TENDO ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO, ESTÁ DE CASTIGO! QUERO VOCÊ EM CASA EM CINCO MINUTOS. – desligou.
Eu sou uma fodida mesmo. Como vou chegar lá em cinco minutos?

Bufei alto, fechando os olhos fortemente. Mas eu não deveria tê-los fechado em momento nenhum. 
Assim que minhas pálpebras se levantaram, Thomas Fletcher entrou em meu campo de visão. 
Thomas Fletcher.
Ele me observava de longe e Harry estava bem ao seu lado, olhando pra frente e falando sozinho.
- Merda! – ofeguei, virando-me rapidamente e correndo o mais rápido que podia na direção de Aura. Eu sabia, pelo som dos passos ecoando no local deserto, que Fletcher corria atrás de mim. 
Infiltrei-me no meio das pessoas, ao entrar no Aura, continuando apressada até chegar ao banheiro feminino, onde vi Florence já saindo. Puxei-a pela mão de volta pra dentro e me tranquei junto com ela numa cabine.
- O que é isso, tá janada? – Ela perguntou, arregalando os olhos. – Cheirou muito, coisinha linda? 

- Flor, olha só... – comecei, subindo em cima da privada pra que não vissem meus pés. – Se alguém entrar aqui agora me procurando, você fal-
- Bela!  - a voz de Tom ecoou pelo banheiro feminino. Eu sabia que ele entraria ali, mesmo que seu sexo não permitisse. – Bela, eu sei que está aqui, eu te vi. 
Então ele começou a bater de porta em porta. Eu estava na última, e meu coração, na boca.
“Fale que você está sozinha aqui” murmurei, sem emitir som, para Flor.
- Tom, caralho, você está maluco? Sai desse banheiro! – Harry berrou.
- Quem está aqui? – Fletcher perguntou, batendo em nossa porta.
- Er... Sou eu. – Flor disse. – E, que eu saiba, isso não é voz de mulher... Então, o que um homem está fazendo no nosso banheiro? – inquiriu, com toda a sua calma. 
- Só tem você aqui?
- Como vou saber? Olha aí nas outras cabines, ora.
- Eu quis dizer aí dentro. A Bela não está aí, está?
- Ahn? Quem? Você, por algum acaso, tem doenças mentais? – Ela soou educada, mesmo com o teor ácido da frase. 
- Já chega, Fletcher, vem aqui agora!  - escutei os passos dos dois em direção à saída do banheiro.
Merda, merda, merda, merda, merda! Mil vezes, merda!

# Tom

- Porra, era ela, Harry! Você não viu? Era ela!
- Deixa de ser doente, Tom, puta que pariu, era só uma garota qualquer! Você está paranoico, cara, de verdade!
- Eu vi o rosto dela. Era ela. Eu tenho certeza. – já estávamos chegando ao carro.
- Cale a boca, e eu dirijo. Você está longe do aconselhável para o volante.
Era ela, eu sabia que era. Eu tinha certeza absoluta.

Na metade do caminho, Harry socou o volante e soltou um “merda” bem sonoro. Estávamos calados até agora, porque minha cabeça estava a mil, eu não era capaz de proferir nem uma palavra. Não conseguia parar de pensar no que vi. Bela Johnson estava lá, incrivelmente linda, naquela boate alternativa.
- O que foi? - perguntei, referindo-me a seu breve acesso de raiva. 
- Esquecemos o Dougie! Ele sumiu logo que chegamos e a gente esqueceu ele lá! 
- Puta que pariu...
- Liga pra ele aí. 
Disquei os números correspondentes ao telefone do Poynter, que não demorou a atender.
Er... Oi, Tom. – sua voz estava estranha.
- Dougie, onde você tá?
- Num táxi, indo pra casa. 
- Ah, desculpa por ter deixado você aí, cara, mas é que-
- Tudo bem, preciso desligar agora.
- Certo, ele está indo pra casa. – informei a Harry. – Deve estar com alguma mulher porque nem falou direito comigo.
- Menos mal... – foram as últimas palavras da nossa conversa.

# Bela

Flor, obviamente, me deu cobertura para sair do banheiro. Eu estava mais tranquila, andando até a saída da boate, mas continuava alerta, olhando para todos os lados. Só esqueci-me de olhar pra frente. 

Trombei com alguém que estava de costas, e acabei caindo no chão. Percebi que esse alguém se virou de frente pra mim, estendendo a mão pra me ajudar. Eu já tava pronta pra aceitar seu apoio quando sua voz chegou como uma bomba em meus ouvidos:
- Bela? 
Quando eu digo que sou fodida, não estou brincando.
Fiz uma careta, desistindo daquela noite. Não podia ficar pior. Finalmente olhei pra cima pra constatar o óbvio.
- Oi, Dougie. – suspirei, resignada. 
Levantei-me sem sua ajuda, já que a única coisa que ele mexia era o pulmão, pra respirar. Ou não.  
Seus olhos estagnados e esbugalhados contrastavam com minha expressão desanimada. Eu estava perdida. Completamente perdida.
- Não é... Não é possível... É você mesma?
- Hm, não, sou só uma menina parecida com ela.  – Ri sem humor. 
- Caralho! É parecida mesmo! – ele exclamou e eu rolei os olhos. 
- Ok, vou indo, tchau. 
- Bela, espera! Eu sei que é você. – ele segurou meu braço. – Só estou brincando, pra eu não morrer com essa revelação. – riu sozinho. – Então Fletcher estava mesmo certo. Era você aquele dia na festa também, não era?
- Sim, era. – suspirei. – Dougie, é sério, não conte isso a eles, por favor... É o meu maior segredo... 
- Eu estou um pouco... Sei lá, acho que devo estar maluco.
- Desde que não conte a ninguém sobre mim, está tudo certo. – o olhei profundamente – Eu imploro.
- Não vou contar. – anunciou, me fazendo respirar mais facilmente – Mas quero saber de toda a sua história. 
- Agora não dá, estou mais que atrasada pra chegar em casa. Hoje é, de longe, o pior dia da minha vida. 
- Quer rachar um táxi? 
- Não tô com dinheiro.
- Certo, eu pago.
- Então vamos logo.
E aí, eu contei tudo pra ele. Tudo.

---

# Bela

Na sexta, eu cheguei à escola com o coração gelado de tanto nervosismo. Minhas mãos soavam em bicas e eu sabia que era perceptível pra qualquer um com um par de olhos a minha tensão. Olhava pros lados em curtos intervalos de tempo, com medo de acabar cruzando com alguém cuja presença era inconveniente à minha sanidade.
- BELA! – a voz de Sam nunca me assustara tanto.
- Porra, Sam! – levei as mãos ao coração – Que susto!
- Cara, que merda aconteceu ontem à noite? Seu pai ligou lá pra casa procurando por você e minha mãe disse que você não tava lá... Depois ela veio se certificar de que você realmente não tinha vindo e eu tive que inventar uma história enorme sobre você ter entrado pela porta dos fundos e ter se trancado no meu banheiro. Você é louca de sair antes do seu pai dormir? Comeu catarro?!
- Não... É que eu tava com raiva e acabei–
- AÍ SOBRA PRA MIM, NÉ, LINDA. Tive que interromper minha conversa com o Danny, poxa. – fez biquinho. – Na próxima vez que sentir raiva, taca a cabeça na parede, porra.
- Sam. Eu tenho que te contar uma coisa. – assumi logo, antes que eu amarelasse, sem muito prestar atenção no que ela dissera.
- Puta que pariu, não gostei desse tom. Conta.
Respirei fundo, fechando os olhos rapidamente e soltei de uma vez:
- O Dougie sabe da gente. Ele me viu na festa e eu tive que contar tudo pra ele.
Seu queixo quase tocou o chão.
- C-como... V-ocê... COMO ASSIM, CACHORRA?! PORRA, VOCÊ É SEM NOÇÃO? VOCÊ TEM MERDA LÍQUIDA AO INVÉS DE CÉREBRO? CARALHO, JOHNSON, PORRA, PUTA QUE PARIU!
- CALMA, BRADLEY! Ele me jurou que não contaria a ninguém.
- AH, É? RARRARRARRARRA, NOSSA, QUE LEGAL, VOU ATÉ GOZAR DE TANTA FELICIDADE.
- Não é tão ruim quanto parece... – torci a boca, esperando que ela mudasse o ponto de vista.
- Claro, imagino o que deve ser ruim pra você. Talvez beber mijo, ou arrancar os mamilos à sangue frio... Ou até se masturbar com uma faca afiada...
Rolei os olhos.
- Agora não adianta mais chorar pelo leite derramado.
- Bela! – assim que terminei de falar, escutei a voz que eu tanto temia. Por um momento, quase cogitei a possibilidade de fingir que eu tava tendo uma convulsão, começar a babar, me jogar no chão com os olhos revirados e o corpo tremendo.
Ao invés disso, apenas engoli seco e o encarei com a minha melhor cara de sempre.
- Oi. – sorri com educação.
- Bela, é sério. É sério, era você ontem, não era? – franzi o cenho como se não estivesse entendendo. – Você estava no Aura ontem, não estava? Eu tenho certeza, era você.
- Eu–
- Por que correu de mim? – Thomas me interrompeu exatamente quando eu lançaria a melhor frase do mundo: "eu não sei do que está falando". Aliás, foi até bom ser interrompida. Deu-me tempo de formular algo melhor pra dizer.
- Ahn? – esse foi o meu melhor.
- Bela, pode falar. Nós somos amigos agora, não somos?
- Er... Somos, mas... Eu realmente não sei do que você está falando.
- Fletcher! – Danny apregoou assim que chegou à sala. Ele e Harry se aproximaram e eu me senti ainda mais tensa.
- Bela, ele está te importunando? Por que ele ficou com essa paranoia de que te viu ontem... A garota não tinha nada a ver com você, relaxa. Ele só estava bêbado. – Harry explicou. – Deixa ela, Fletcher, essa palhaçada já deu.
Thomas bufou fortemente, deu as costas e sentou em seu lugar.
Logo depois, Harry e Danny (este último sem antes cumprimentar Sam com um tchauzinho íntimo) também foram para suas carteiras.
Pude ouvir que Sam expirou mais forte do que o usual. Provavelmente, estava insatisfeita com a situação, mas quem não estaria, se estivesse no nosso lugar?
Quando Dougie chegou, sentou perto de nós e passamos a aula toda conversando. O professor era menos severo, então não ligou muito. Eu não estava me sentindo ameaçada por dividir meu segredo com Poynter. De alguma forma, Dougie despertava confiança em mim, além de ser um bom amigo por não nos julgar em momento algum. No fim das contas, até Sam sentiu-se bem com ele.

# Tom

Durante o tempo que seguiu, minha cabeça não parava de pensar. Era ela sim. Como o Harry não foi capaz de perceber? Tudo bem que não deu pra ver claramente o rosto. Mas, apenas pela silhueta, eu percebi. A penumbra não era assim tão intensa pra que eu não conseguisse distinguir suas feições.
Ou era?
Não, não era...
Porra, era sim. Estava escuro. Podia ser mesmo outra pessoa.
Eu tenho que parar de beber.
Por que merdas eu ando tendo alucinações com ela por todo o canto? Ela deve estar me achando um tanto retardado agora.
Eu vou parar com isso, é sério. É óbvio que não era ela.

- Bela. – segurei seu braço fazendo-a virar pra mim, no recreio. – Desculpa por hoje cedo... Eu... Eu não sei o que me deu. – ri, sem jeito.
- Tudo bem. – ela riu do mesmo jeito e olhou para o braço que eu ainda segurava.
Rapidamente tirei minha mão dali. Não tínhamos tanta intimidade assim pra eu segurá-la daquele jeito. Não que tenha algo demais nisso, mas nós nos falamos direito há pouco mais de uma semana. Eu nem ao mesmo me dei conta de que continuava segurando seu braço, não fora algo intencional.
Guardei minhas mãos no bolso por não saber o que fazer com elas. É, eu tava bastante sem graça.
- Ei, relaxa. – Bela soltou uma risada, só que mais descontraída.
- Vai sentar com a gente?
- Claro, eu estava indo. Sam já tá lá.
Sorri e nós caminhamos juntos até a mesa que costumávamos ficar, no refeitório.

---

O fim de semana chegou logo. Eu tinha planos de visitar minha mãe e minha avó, estava com saudades. Não era comum passar tanto tempo sem vê-las. Já fazia quase três semanas.
Estava pronto pra sair quando meu celular tocou.
- Tom?
- Oi, Angie. Como vai?
- Ótima. Combinamos de sair esse fim de semana, lembra?
Merda.
- Ah, Angie... Desculpa mesmo, mas–
- Tom! Você combinou, amor!
Amor? O que foi que eu perdi?
- Er... É sério, Angie. Não vai dar mesmo. Vou visitar minha mãe, sabe, ela não está muito bem de saúde.
- Que feio, Tom, usando sua mãe como desculpa.
- Não estou fazendo isso. – desci as escadas com minha mochila nas costas.
Hm... Então eu posso ir com você? Adoraria conhecer seus pais.
A ideia não é tão ruim. Angie é legal, não quero chateá-la e, de alguma forma, existe algo entre nós. Não sou exatamente o tipo que apresenta qualquer garota à família, mas levá-la até lá não me pareceu nada demais. Ela não era minha namorada nem nada, então...
- Por mim tudo bem. Mas já estou saindo de casa, Angie, esteja pronta.
- Ok! Beijo, lindo.

- Conhecer seus pais me parece legal. – ela falou, quebrando o silêncio que era preenchido somente pelo som do motor do carro.
- Na verdade, não vai conhecer "meus pais". Não tenho pai.
- Oh... Me desculpe.
- Sem problemas. – disse sincero.
- Ele... Morreu?
- Sim. Eu tinha quase nove anos, já faz tempo. Não ligo de falar dele. – sorri pra que ela sentisse-se mais confortável. Não que eu gostasse de ficar falando sobre isso...
- Sinto muito.
- Tudo bem, não precisa se sentir mal nem nada.
- E quanto à sua mãe? Você disse que ela está meio doente, não é?
- Pra ser sincero, eu nem sei o que ela tem. Às vezes parece mal, mas na maioria do tempo, está normal. Ela não diz o que tem, então sinto como se precisasse ficar sempre por perto caso aconteça alguma coisa.
- É fofo da sua parte visitá-la assim, com tanta frequência e dar a ela atenção.
- É a minha obrigação enquanto filho, ela sempre fez muito por mim, então o mínimo que posso fazer é retribuir com a mesma dedicação.  Além disso, ela é tudo que tenho.
- Sério? É só você e ela?
- Tem a minha avó, mas não somos muito próximos. Ela morava em outro país e tem pouco tempo que veio pra cá.
- Entendo. Você é um fofo, sabia? – acariciou minha bochecha e depois a beijou.

Chegamos depois de alguns minutos. A casa delas não era muito longe. Uns quarenta minutos de carro, que passaram rápido já que Angie se empenhou em manter o diálogo.

- Filho! – minha mãe me agarrou e eu gargalhei. – Que saudade.
- Pois é, foi mal não ter vindo antes. Oi, vó! – a abracei.
- Ai, esse garoto ta cada vez mais bonito. Olha só, Debbie, que homem! Ah, se eu visse um desses na rua...
- Mamãe! – minha mãe a repreendeu enquanto eu e Angie gargalhávamos.
- Essa aqui é a Angie. – a puxei pela mão.
- Colega, amiga, ficante ou namorada? – como você pôde perceber, minha avó é um pouco... Moderninha. Ela tem até twitter.
- Mãe, onde é que está sua discrição?! – outra vez, minha mãe repreendeu.
- Perdi com a idade.
Minha mãe rolou os olhos e voltou sua atenção à Angie.
- Olá, querida, é um prazer conhecê-la. – sorriu docemente. – Sinta-se à vontade, a casa é sua!
- Na verdade, é minha, mas não ligo de receber você. – vovó falou, nos fazendo rir novamente.

# Bela

- Dougie! Vem logo!
- Calma aí! Vou só pegar meu skate.
Eu e Sam estávamos o esperando para andarmos de skate por aí. Não sou a melhor skatista do mundo, sabe como é, meu equilíbrio é precário, mas Sam mandava bem e nós queríamos ver do que Dougie era capaz.

Era incrível como, mesmo com meu equilíbrio limitado, Sam caía mais que eu. Ela era maluca, ficava tentando fazer o que não sabia e sempre acabava com a cara no chão. Quanto ao Dougie, bom, eu estava devendo a ele vinte libras por ter duvidado de suas habilidades. Ele realmente sabia o que fazer sobre um skate.
- Vocês até que andam bem. – Poynter elogiou. – A Sam só precisa parar com essa tara pelo chão que vai se sair melhor ainda.
Nós rimos.
- Sou ousada, apenas.
- Você é burra, isso sim. – contrapus. – Pare de querer ser o Tony Hawk que as coisas vão dar mais certo na sua vida, vai rolar menos sangue, menos carne viva, menos choro...
- Ok, perdão, sociedade, eu me empolgo um pouco.
- Vamos pra casa, já ta escurecendo. – Dougie sugeriu, caminhando até a saída do parque. – E eu sei que vocês têm que se arrumar pra sair à noite.
- Não quero sair hoje, to muito, super, mega afim de dormir. Mesmo que tenhamos esse bônus do pai da Bela estar fora.
- Eu sempre quis saber o que tem atrás daquele muro. – comentei distraidamente. Era um muro meio alto, cheio daquelas plantas trepadeiras, que ficava próximo às rampas de skate do parque. Por diversas vezes, me vi pensado sobre o que havia ali atrás. Só sei que, o que quer que tenha do outro lado, exalava um cheiro delicioso. – Vamos tentar pular?
- Vamos! – Dougie animou-se.
- Me diga como. – Sam deu um nó no cabelo, parecendo meio desinteressada.
- Tem aquela árvore ali. Deve ajudar. – Apontei e Dougie correu até ela.
- Dá pra escalar. – constatou. – Vamos?
- Sim! – fui a primeira a subir. Não foi tão difícil escalar aquela árvore, contando com o fato de que eu escalava uma quase toda noite, quando voltava das festas, pra chegar ao meu quarto.
Eu estava louca pra saber o que tinha ali e arregalei os olhos quando finalmente pisei na grama fofa.
- Morangos?
- Uma plantação de morango? – Sam estava tão intrigada quanto eu.
- Cara, que foda! – Dougie vibrou. – Isso aqui é lindo!
- Muito lindo! – concordei.
Era um campo enorme onde, de um lado, estava a extensa plantação de morangos e do outro, um gramado verde bem capinado cobria a terra de forma perfeita. Havia algumas arvores ao fundo, que compunham o inicio de uma pequena floresta. Era um lugar muito diferente. O cheiro era diferente de qualquer coisa. Era único.
- Definitivamente, precisamos voltar aqui sempre. – Sam não desgrudava seus olhos dos morangos.
- Preciso mostrar isso pros caras! Eles vão adorar...
- Ah, não queria que muitas pessoas descobrissem isso aqui. – comentei com sinceridade. – Vai acabar com a... Perfeição do lugar.
- Eu só vou contar pra eles, fica tranquila. E, bom, tenho certeza que não contarão a ninguém.
- Que seja. – dei de ombros. – Se isso começar a virar playground de marmanjo, vou quebrar sua cara, Poynter. – ameacei e Sam riu.
- Eu duvidaria disso se fosse outra garota falando, mas do jeito que você é cheia de surpresas, melhor eu ficar na minha. Gosto muito do meu nariz, ele é um ótimo fornecedor de melecas.
Gargalhamos. Dougie é um ridículo...
- Poynter, querido, Bela tem essa marrinha de bad girl sem coração, mas, na verdade, por dentro é cheia de arco-íris e pôneis... – Sam alfinetou, enquanto se aproximava dos morangos.
- Ah, é? – ele ergueu uma sobrancelha com um sorriso divertido.
- Pague pra ver. – foi o que eu disse, com toda a minha acidez, antes de soltar uma bela gargalhada e estragar toda a minha frase de efeito.

Aquele inicio de noite foi maravilhoso. O clima estava agradável, o vento fresco chicoteava nossos cabelos enquanto corríamos por ali como três retardados sem perspectiva de vida. Comemos morangos, deitamos na grama para conversar, caçamos alguns grilos pra jogar na Sam (que tinha medo), falamos mal da escola e Dougie contou que achava Sophia muito mais gostosa que Brooklee (do nada).
Fomos embora quase meia noite.

- Ai ai... Que soninho. – Sam bocejou enquanto eu abria a porta da sala. – O Dougie é ótimo, não é?
- Sim, eu te disse! – sorri. – Que foi, vai trocar o Dougie pelo Jones agora?
- O que? Não, nunca. – ela se jogou no sofá e fechou os olhos.
- Ah, bem. Eu vi o tchauzinho que ele te deu hoje na aula... Não dou nem um mês pra vocês se atracarem.
- Nem eu. – concordou, se remexendo no sofá e eu gargalhei. – Pera aí, shhh...
- O que foi? – sussurrei no mesmo tom que ela.
- Está escutando isso?
- Isso o que?
- Gemidos... Gemidos de sexo!
- Ahn? Não estou escutando nada, ta maluca?
- É sério! Eu achei que fosse minha imaginação pensando nas minhas noites com o Jones, mas esses gemidos estão vindo do segundo andar!
Decidi subir as escadas pra esclarecer os devaneios de Bradley, mas minha careta de descrença se desfez ao pisar no último degrau.
"Awn, Awn, Luke! Isso, vai, aaawn!"
Oh, é claro.
- Não disse? – Sam cochichou em meu ouvido, com sua cara de riso. – Seu irmão tá bem, hein? – cutucou-me com o cotovelo, balançando as sobrancelhas. – Eu bem que gostaria de experimentar uma noite com Lucas Johnson.
A olhei com a minha melhor cara de desprezo.
- Você fala cada merda... – repliquei, antes de seguir para o meu quarto.

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- JOHNSON! – Maxxie me gritou. Tentei levantar do banco onde eu estava sentada, mas aquela não me pareceu exatamente a tarefa mais fácil.
Sim, eu havia saído aquela noite. Não sei por que, mas algo me atraiu com tanta intensidade que meu corpo não foi capaz de negar.
- O que houve contigo hoje, menina? – Florence apareceu do meu lado, suas mãos tocaram meu cabelo numa tentativa falha de acariciá-los. – Bela, você está drogada? – ela riu.
- Eu... Sim. Eu fumei um pouco hoje... E o... Miles... Ele me deu uns comprimidos. – sorri da forma que pude. Todos os músculos da minha face pareciam pesados, dormentes. Meus olhos ardiam e o simples fato de falar pareceu-me uma missão altamente complicada.
- Veja só como uma iniciante fica depois de umas poucas tragadas! – PJ debochou, sentando-se ao meu lado. – Está precisando de mais treinamento Johnson. Precisa experimentar mais vezes!
- Não fale merda, Peter. – Spencer repreendeu, empurrando seu ombro. Para chamar PJ pelo nome, ele devia estar mesmo puto. – Não tá vendo que ela está mal? E se o irmão dela souber disso, fodeu pra todo mundo.
- Está com medinho do meu irmão, é? – provoquei. – Relaxa, Spencer. Só estou me divertindo. Só estou sendo livre. - sorri, o puxando pela gola e lhe dando um selinho.
- Luke não é exatamente o tipo de cara que se pode brincar, Bela. – Maxxie disse com um semblante preocupado. – Ele tem informantes... Se souber que andam drogando a irmãzinha querida dele, vai tomar providências. Não é questão de medo, é questão de-
- Medo. – Spencer o cortou, me fazendo rir. – Eu não quero me meter com ele.
- Luke é como eu, gente. – contei, um pouco mole – Sam disse hoje que eu só tenho marra de má... Ele é como eu. Luke não faria mal a ninguém.
- Eu duvido... – Florence sussurrou, mas eu pude ouvir.
- EI! O que estão fazendo aí?! – Chris aproximou-se com sua costumeira animação. – Tem uma festa acontecendo e vocês jogados nesse banco?!
- Estou um pouco... Não sei. – ri com minha própria confusão. – Eu vim me sentar um pouco e esses aqui vieram atrás de mim. Estão me seguindo, mas... Não fiz nada que mereça essa perseguição, eu juro. – levantei as mãos na altura do ombro indicando que eu era inocente.
- Caralho... O que você tomou hoje, Bela? O que tomou além dos comprimidos?
- Hm... Maconha?
Ele olhou pros lados um pouco confuso. Depois balançou os ombros.
- Eu falei pra você não tomar nada, sua lesada... Mas tudo bem, foda-se! – e então ele voltou animadamente para a festa.
- Ei, que horas são? – quis saber, cutucando PJ que mexia no celular ao meu lado.
- São... Dez pras cinco.
- Oh... Merda. – resmunguei.
- Quer que eu te leve pra casa? – Spencer perguntou cordialmente e eu respondi que sim.
Pouco tempo depois, ele estava me ajudando a subir as escadas da sala, porque, além de tudo, o sono atingiu-me e somou às outras causas que atrapalhavam o meu equilíbrio. Não sei nem como vim de moto até aqui.
Acordei algum tempo depois com um pouco de dor de cabeça e, ao abrir os olhos, dei de cara com Sam, sentada na ponta da cama. Seus olhos quase me perfuravam tamanha era raiva estampadas neles.
- Que susto! – Reclamei. – Por que tá me olhando assim? Credo...
- Você, sua... Filha de uma puta, não me avisou que ia sair ontem à noite e eu acordei quase em pânico quando vi você chegando praticamente carregada pelo Spencer! Você como quantas merdas por dia, garota?!
- Qual é a novidade nisso?
- Um. – enumerou com o dedo – Você não me avisou que ia sair-
- Não te avisei porque você disse que tava com sono e queria dormir. – me expliquei rapidamente, atropelando as palavras.
- Dois. Você chegou em casa CAR-RE-GA-DA. – continuou, sem atenção às minhas escusas. – Três. Você estava completamente drogada. DROGADA. O que está acontecendo, hein? Agora você vai ficar se drogando toda vez? Que porra de vibe é essa?
- Não é nada disso, Sam. – suspirei, sendo reticente. Sammy ergueu as sobrancelhas esperando por uma explicação que eu mesma não sabia qual era. – Eu só estava querendo me divertir. – dei de ombros. – Só estava querendo me sentir fora da jaula em que meu pai me prende. E não é como se eu ficasse me drogando todo dia... Foram só poucas vezes.
- Você não vê como a frequência disso está aumentando? Daqui a pouco você vai acabar virando uma-
- Não viaja! Não vou ficar dependente de drogas, não sou burra a esse ponto. – retruquei, consternada.
- Bom... – Sam suspirou, já cansada do assunto. Lições de moral e vida não eram o forte dela. – Você é quem sabe. Mas foi assim que o Chris começou, lembra? E hoje, ele é um fodido que só levanta da cama a base de comprimidos e mais comprimidos. – sua voz começou a nasalar e oscilar. Eu sabia o que viria a seguir. – Poxa, Bela... – fungou, já derramando as primeiras lágrimas – Eu só não quero te ver na mesma que ele, entende? Eu amo você, sua imbecil. – me abraçou.
- Tudo bem, Sam. – sorri, com vontade de rir de seu drama. – Isso não vai se repetir. – afaguei seus cabelos durante o abraço e ela soluçou. Dar carinho a ela enquanto ela chorava nem sempre era uma boa ideia, a não ser que a intenção seja somar mais algumas horas de lagrima a seu pranto.
Ela era do tipo extremamente (extremamente mesmo) emotiva. Sua raiva era sempre muito intensa, suas tristezas eram potencializadas a nível de fim do mundo, suas alegrias eram risos sem fim, seus ciúmes eram incontroláveis... Todas as suas emoções eram extremas, mas ela era minha melhor amiga mesmo assim. Depois de algum tempo, você se acostuma e passa a não saber viver sem.

# Tom

O plano era: levar Angie à casa de minha mãe, dar a ela um pouco de atenção (talvez, aquecermos um pouco a cama de casal do quarto de hóspedes), depois levá-la pra casa e voltar pra casa da minha mãe, onde eu permanecia durante o final de semana.
Porém, não foi bem o que ocorreu. Angie quis passar o final de semana lá comigo alegando ter "amado a fofura da minha mãe". Ela disse que as duas tinham muito que conversar, e poderia ajudar minha mãe com não sei o que. Eu não prestei muita atenção, tenho que confessar. O problema foi que eu mal pude ficar com minha mãe, uma vez que Angie não fez o que tinha dito que gostaria de fazer e simplesmente quis passar todo o tempo agarrada a mim.
Não que eu não gostasse disso em alguns momentos. Já disse que Angie é uma pessoa legal. Mas o plano inicial era dar atenção à minha mãe e avó, que careciam disso.
- Angie... – a cutuquei pra que ela acordasse. – Angie, seu celular. – sou sempre eu o babaca que acorda com o celular dos outros tocando. O meu eu nunca escuto.
- Hm... Certo. – espreguiçou-se rapidamente, antes de esticar o braço para alcançar o aparelho na cômoda. – Alô... Oi, amiga... Não fui ontem porque estou com aquele cara que eu te contei, lembra? – ela riu, mas arregalou os olhos logo em seguida, se dando conta de que eu estava bem ali ao lado dela. – Não, na casa da mãe dele. Er... será que a gente pode se falar depois?... Para de ser pervertida! Não é nada disso. – riu mais um pouco. – Tudo bem, depois a gente se fala, nerd falsa. Beijo. – desligou.
- Nerd falsa? – sorri de lado. – Você não parece o tipo que anda com nerd.
- Ela não é nerd. – deu de ombros. – É uma pessoa normal, mas se faz de nerd pra ninguém descobrir que ela vai às nossas boates. E mesmo assim, Tom, é claro que eu falo com nerds, eu tenho um amigo nerd. PJ.
- Hm, claro. – sorri, levantando-me da cama e indo ao banheiro para higienizar-me.
- Você é quem não anda com nerds... – a ouvir retrucar.
- Eu não costumava andar, mesmo. Bate aquele preconceito, sabe? Nerds são pessoas chatas, normalmente. Mas nos últimos dias tenho falado com umas garotas lá da escola que são bem nerds. Acabei descobrindo que elas são mais legais do que eu achava, mas ainda assim... São nerds. 
- Deixa de bobeira, Tom. Só porque elas usam óculos, aparelhos e andam com livros na frente da cara não quer dizer que são aliens. – soltou uma gargalhada.
- Não é exatamente esse tipo de nerd que elas são. – saí do banheiro e abri o armário à procura da minha mochila de roupas. – as duas são bonitas. Muito, até.
- Então não vejo motivo pra achá-las estranhas.
- Ah, sei lá. – dei de ombros, já entediado com o assunto. – Nerd é nerd, bonitos ou não, sempre serão estranhos.
- Talvez elas sejam como minhas amigas... Falsas nerds... – Supôs rindo.
- É, talvez... – também soltei uma risada depois de averiguar essa suposição. Diante de tantos acontecimentos atípicos envolvendo Bela Johnson, não duvidada que ela e Sam fossem como essas amigas de Angie.
Tudo bem, eu falei que ia parar com isso.
Cheguei em casa no domingo à noite, e tudo estava na mesma. Danny jogado no sofá, bebendo Dr. Pepper e assistindo a um canal de esportes. Ao seu lado, Dougie dormia numa posição esquisita, usando apenas sua boxer do Godzilla. Harry estava sentado no balcão da cozinha americana, lendo algo numa revista e bebendo leite.
- E aí, cara. – Danny cumprimentou assim que fechei a porta.
- Como o foi o fim de semana com a namorada e a Sra. Fletcher? – Harry quis saber, com sua cara de deboche.
- Normal. – respondi sem muita animação. – E Angie não é minha namorada. Está longe disso, pra falar a verdade.
- Não é o que ela acha. – disse Danny, colocando a latinha na mesa de centro.
- Se depender de mim, fica só no sexo mesmo. – ri um pouco.
- Fletcher cachorrão! – Jones fez uma cara pornográfica que eu planejo esquecer em breve.
- E como está sua mãe? Quando ela vem nos fazer uma visitinha? – Harry questionou enquanto caminhava até nós, largando sua revista em qualquer canto.
- Ela está legal, nada demais. Disse que vinha qualquer dia desses. Minha avó tem ocupado muito o tempo dela com aquelas maluquices. Mas com a Angie lá, nem fiquei muito com elas.
- Sei... – Danny sorriu ladino, me levando a rolar os olhos com vontade de rir. – Nosso final de semana foi legal, se quer saber. A gente saiu com Chris e Dougie saiu com Bela e Sam. – aquela informação me surpreendera. Não sabia que eles estavam tão amigos assim... – Mas depois a gente também saiu com elas. Quer dizer, Bela nos convidou pra ir a casa dela. Foi bem legal.
- Elas são mesmo legais. – Harry concordou.
Se o lance de Dougie ter saído com elas me pegou de surpresa, o fato de todos eles terem ido a casa de Bela fez meus olhos saltarem das órbitas. Eles já estavam com essa amizade toda? E desde quando Harry as achava legais?
Não que eu gostasse de admitir, mas não foi exatamente legal escutar tudo aquilo. Eu não gostei de saber que eu não participei, não gostei de saber que até o Harry já gostava delas – e se ele gostava é porque o dia com elas foi realmente legal –, não gostei de saber que o Dougie tinha saído com elas duas vezes, e gostei muito menos de perceber tudo isso me incomodava tanto.
- Não sabia que já estavam tão amigos assim...
- Não estamos “tão amigos” – Harry fez os dedos de aspas –, mas gostamos de passar o tempo com elas.
- E a Sam tem um puta peito... – Danny comentou distraidamente, me fazendo gargalhar. – Não me incomodaria nem um pouco se ela me deixasse pegar neles... Mas, sabe como é. Ela é do tipo que só deixa depois do casamento.
- Dá uma investida, Danny... – Harry sugeriu. – Quem sabe com alguns anos de namoro...
- De repente não precisa nem chegar ao noivado, não custa tentar. – entrei na pilha e Danny arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma.
- Deus me livre, cara. Nem fala isso...

# Bela

Educação física. Está aí uma "matéria" - se é que pode chamar assim - que eu não fazia nenhum esforço para fingir ser boa. Eu simplesmente chegava ao ginásio de esportes e caminhava até as arquibancadas para lá permanecer durante toda a aula. O professor era tão relapso que nem se importava com a meia dúzia de garotas que, assim como eu e Bradley, preferiam não fazer os exercícios.
Quando questionavam (raríssimas vezes) nossa falta de participação, dávamos a velha desculpa de estarmos menstruadas ou prestávamo-nos a fazer os alongamentos que ele costumava passar no início da aula. E isso tudo era apenas para que nossa falta de interesse não chegasse aos ouvidos do diretor.
Lá estava eu, conversando com Sam sobre nossos planos de viajar para a Califórnia sem avisar aos nossos pais e vagar por lá até conhecermos caras legais que sirvam para nós, casarmos juntas na praia e abrir uma filial do Fabric para ser nosso ganha-pão; enquanto a maioria dos alunos corria pela quadra. Era mais uma típica aula de educação física. Entretanto, nosso assunto foi cortado assim que Helga, a fiel escudeira do meu pai, entrou na quadra com sua prancheta.
- Onde está a senhorita Johnson e a senhorita Bradley? – perguntou ao professor, que apontou pra nós. – Olá! – cumprimentou de longe, caminhando até onde estávamos com suas pequenas pernas gordinhas. – Aconteceu algo, meninas, para não participarem da aula? – questionou preocupada.
- Sim... Estou naqueles dias. – estiquei meus lábios num sorriso torto. – E, você sabe, né, eu e Sam temos o ciclo parecido, então sempre ficamos menstruadas na mesma época.
- Oh, sim. – a inspetora sorriu brevemente, se aprumando para voltar a falar. – Estão sendo chamadas na diretoria. Como alunas. – ela adicionou, indicando que não era um assunto pessoal entre mim e meu pai.
- Hm... Certo. – concordamos antes de nos levantar e seguir até lá.
Sam me olhou com dúvida, como se perguntasse se eu sabia o motivo de sermos chamadas, mas eu também não fazia ideia. A curiosidade chegou ao auge quando adentrei a sala do diretor e vi Poynter e Jones sentados nas duas cadeiras a frente da mesa de mogno onde os braços do meu pai repousavam.
- Sentem-se, por favor. – eu não soube avaliar o tom de voz do meu pai. Parecia simplesmente nulo.
Sam e eu sentamo-nos nas duas outras cadeiras restantes em frente à mesa e esperamos que ele continuasse.
- As chamei aqui porque... – pigarreou – Eu creio que vocês, meninas, devam saber que esses dois alunos têm arranjado problemas constantemente. – suspirou pesadamente, parando para olhá-los de modo incisivo. – Inclusive, eu poderia mandá-los para detenção de novo, mas não vou por dois motivos. O primeiro é que eu sei que de nada adiantaria. O segundo é que o próprio amiguinho deles destruiu toda a fiação das salas, e ambas ainda estão em manutenção. Eu poderia suspendê-los, mas não vou porque também me parece uma medida pouco eficaz e se eles perderem mais aulas, não sei onde vão parar... E esse é o ponto. Eu chamei vocês – apontou para Dougie e Danny – porque vivem arranjando problema, mas não se deram conta de que estão prestes a reprovar! Os outros dois da trupe ainda têm salvação no que diz respeito a notas, mas vocês estão realmente mal. Estive conversando com a monitoria, pra ver se havia monitores disponíveis pra vocês dois, mas não tem. Então eu estou chamando minha própria filha e minha outra melhor aluna para ajudá-los. Quero que fique claro que não existem recusas para essa proposta. Aliás, não é uma proposta, é uma condição pra vocês não reprovarem. E eu espero que aproveitem bem essa chance. São as minhas duas pérolas que estou oferecendo – eu quis rolar os olhos nessa hora – e não quero ter o desprazer de ter vocês como alunos por mais um ano. Estamos entendidos?
- Claro, diretor. – Dougie sorriu e pude perceber o quão falso soou seu tom de voz.
- Pode deixar que vamos aproveitar bem, Sr. Johnson. – disse Danny, já se levantando – Também não queremos ter o desprazer de te aturar por mais um ano inteiro.
Tive que me segurar pra não gargalhar. Sam arregalou os olhos e a boca, incrédula com a ousadia do Jones, e Dougie também não estava muito diferente. Todos incrédulos.
- Retire-se daqui, Jones! Antes que eu o suspenda! – bradou meu pai, com o rosto enrubescido.
- Com licença... – Dougie seguiu o amigo e, no segundo seguinte, só eu, Sam e Edward restávamos na sala.
- Vocês viram?! – inquiriu, transtornado – Aqueles quatro me tiram do sério!
- Pois é, nós vimos... – Sam concordou ainda com sua (falsa) cara de assustada e meu pai suspirou.
- Escutem, vocês farão uma monitoria com eles para as matérias em que estão mal. Podem usar as salas da escola que estiverem desocupadas depois do horário de vocês e eu quero que me relatem tudo, toda vez que se comportarem mal, que se negarem a estudar... Tudo. Eu não queria ter que deixar vocês duas junto a esses marginais, mas são minhas melhores alunas... Só vocês podem ajudá-los.
O pior é que ele não sabia do que estava falando. Eu ainda não sei como vamos estudar com aqueles dois se nem a gente sabe as matérias.
- Certo. – concordei. – Nós vamos dar conta. Eles não são tão ruins assim, pai.
- Eles são o pior tipo de influencia pra meninas como vocês duas. Não os queria junto a vocês, mas não tenho muitas saídas. – suspirou, seu humor variando entre o consternado e o exausto.
- Calma, Sr. Johnson. Ainda tem tempo até o fim das aulas. Vai dar tudo certo. Agora podemos ir? Já está no nosso intervalo.
- Tudo bem, podem ir. Obrigado, meninas, até mais.

- Agora estamos fodidas, né.
- É, Sam... Mas nós não estamos fodidas, nós somos fodidas. É diferente. Estamos sempre nos fodendo. Cada dia uma bomba... Vou acabar desistindo dessa vida. – suspirei dramaticamente antes de cairmos na gargalhada.
- Olá, ladies. – Dougie se aproximou de nós na fila da cantina. – Posso saber como vocês planejam ensinar pra mim e pro Danny coisas que nem vocês sabem?
- Essa é uma boa pergunta, cuja resposta eu desconheço. – Sam falou, servindo-se de algo que eu não prestei atenção.
- Aliás, posso saber como vocês tiram notas boas se são umas perdidas, nunca estudam e só querem saber da vida louca? – inquiriu ele, fazendo com que eu e Sam nos olhássemos receosas. A possibilidade de contar nosso esquema de fraude pra ele não fora descartada, mas, mesmo assim, era um risco enorme que passaríamos a correr. Por isso hesitamos em explanar essa parte de nossos segredos.
Entretanto, para nossa sorte, Thomas, Harry e Danny chegaram bem nessa hora e nós tivemos que mudar o assunto.
- E por isso eu comprei um hamster com nove anos. – disfarcei.
- Er... Ah, sim. Interessante... – Dougie coçou a cabeça, meio perdido e Sam começou a gargalhar.

# Tom

O intervalo passou rápido, assim como as aulas que o seguiram. Já estávamos quase acabando com limpeza do laboratório de química quando me lembrei de pergunta a Dougie e Danny o que o diretor queria com eles.
- Ele basicamente avisou que, se não tirarmos notas excelentes nas próximas provas, vamos reprovar. – Danny explicou.
- E chamou Bela e Sam para estudarem com a gente, como se fosse uma monitoria. – minhas sobrancelhas ergueram em surpresa.
- Tipo... Todo dia? – quis saber e eles deram de ombros enquanto tentavam tirar uma mancha marrom da mesa de mármore.
- Acho que sim. – Danny suspirou. – Esses estudos só vão servir pra eu desgostar delas. Quero dizer... Elas são legais, mas a parte nerd estraga. Se eu ficar convivendo com esse lado delas, vão começar a me encher o saco.
- Ah, não acho não. Acho que vou gostar até mais delas, sabe? Elas são realmente legais.
- É impressão minha ou está interessado, Poynter? - eu zoei, mas realmente quis saber a resposta.
- E qual o problema se eu estiver? Eu as conheço bem, e vocês não sabem o que estão perdendo... – rebateu, com sua cara de safado.
- Nosso pequeno menino está ficando crescido! – Harry largou o que fazia para abraçá-lo, enquanto ele tentava se esquivar. – Daqui a pouco está andando por aí de mãos dadas com a Johnson. A Bradley não pode porque já é do Danny...
Todos nós rimos.
Mas eu não achei graça.
Não achei graça alguma. Bela Johnson não era do Poynter. Ele não podia gostar dela, porque eu a vi primeiro. Eu presto atenção nela há mais tempo e ele não tem o menor direito de tomar o posto que deveria ser meu.
- E quando vocês começam? – me ouvi perguntar, sem realmente raciocinar muito.
- Não sei, cara. Talvez hoje. Vou falar com elas daqui a pouco, quando elas saírem da dança. – Dougie explicou. – Ah! Bom eu ter lembrado isso. – ele sorriu antes de continuar a falar. Eu me sentia extremamente interessado no que ele tinha a dizer – Vou sair com as duas hoje à noite, e vocês podem ir. Vamos pra um lugar que a gente descobriu... Vocês vão gostar. Mas é meio secreto, coisa nossa... Elas pediram pra não contarem a ninguém.
“Vou sair com as duas”
“Um lugar que a gente descobriu”
“coisa nossa”

Aquilo não deveria me incomodar tanto assim.
Eu não sei nomear exatamente o que eu sentia, não chegava a ser raiva, mas era próximo disso. E o Poynter não tinha culpa. Bela Johnson não tinha culpa. Ninguém tinha culpa, a não ser eu mesmo.

# Bela


- Pai? – o chamei, entrando em seu escritório.
- Fala, princesa. – sorriu.
- Vou sair com a Sam. Nós precisamos espairecer, temos estudado muito e semana que vem combinamos com os meninos de começar com a monitoria... Eu preciso desse tempo pra espairecer um pouco.
- Certo, não volte tarde. – lançou-me um sorriso ao qual eu correspondi por hábito.
Procurei uma roupa comum; calça jeans skinny de lavagem escura - ela tinha alguns rasgos, mas eram discretos -, uma blusa qualquer e, nos pés, um par de vans vermelhos. Peguei um casaco fino porque eu costumava ser friorenta, mas o clima parecia estar agradável do lado de fora. Coloquei o celular num bolso e a chave de casa no outro.
Pouco tempo depois encontrei Sam, Dougie e, para a minha surpresa, Danny, Harry e Tom. Todos estavam sentados nos banquinhos próximos às duas pistas de skate do parque.
- Oi, gente. – acenei – Demorei?
- Não, chegamos todos mais ou menos juntos. – Harry respondeu. –Gostei da sua roupa.
- Ah... Obrigada. – sorri sem jeito. – Gostei da sua jaqueta. – fui sincera. Era mesmo bonita. Era de jeans escuro, mas tinha um recorte diferente e ficava legal nele.
- Caraca, Bela, sua pela saco! Eu tenho um tênis idêntico ao seu. – Dougie disse rindo. – Fica bem mais legal em mim.
- Ah, desculpa, então. Pode deixar que assim que sair daqui vou vender o meu. – rolei os olhos antes de rir junto com eles.
- Não duvido nada. – Sam deu de ombros – Do jeito que ela odeia ser imitada... Eu não posso usar um brinco igual ao dela que ela já acha que é imitação e falta de personalidade. Como se eu perdesse meu tempo analisando tudo que ela usa pra eu poder usar igual... – ela desdenhou e eu ri.
- Bem capaz mesmo! – brinquei, a fazendo me mandar o dedo.
- Ei, Poynter, vocês não iam mostrar uma coisa pra gente? – Tom lembrou, parecendo interessado.
- Ah, sim! Vamos lá, meninas.

Chegamos perto da árvore e eu já fui me preparando para subir. Quando agarrei o primeiro galho que me daria apoio, ouvi Danny grunhir.
- Teremos que escalar essa árvore? – perguntou, receoso.
- Sim, por quê? – Sam questionou, aproximando-se dele.
- Eu tenho... Problemas com árvores.
- Ele não sabe escalar. – Harry deu entre dentes e eu e Sam desatamos a rir, o que fez Tom rir também.
- Ei! Não tem graça.
- Tem sim! – retruquei, ainda risonha. Fala sério, que tipo de idiota não sabe escalar uma árvore? Ainda mais essa que é cheia de galhos grossos e baixos – É fácil, Jones, é só sair segurando os galhos, fazendo força e colocando os pés onde der. Quando você ver, vai estar do outro lado do muro. Só cuidado quando for se jogar de lá de cima...
- Er... Ok, então vai você primeiro. Vou decorar seus movimentos e fazer igual.
Escalei a árvore sem grades problemas e logo depois veio Sam, ao contrário do que eu pensava.
- Ué, cadê o Danny?
- Falou que ia decorar meus movimentos também. – explicou, com voz de riso. – Ele é um asno.

Como todos imaginavam, Danny foi o último, demorou um século pra subir na árvore e mais outro século para pular. Eu senti dor na barriga de tanto rir quando ele se jogou, gritando como se fosse morrer e caindo que nem um idiota, de barriga pro chão. Quando olhamos para a cara dele, seu nariz estava ralado.
- Ah, eu vou me mijar! – Fletcher tomou fôlego para dizer, enquanto gargalhava.
- Não tem graça! Meu nariz está doendo, minha barriga está doendo e MEU SACO está doendo. – ele reclamou emburrado. – Porra, nunca mais escalo essa merda dessa árvore!
- Duvido, Danny! – Harry disse, admirando o lugar – Olha só pra isso! É o tipo de oásis com o qual eu sempre sonhei... Tem cheiro de morango! Fala sério, isso aqui é incrível.
- Definitivamente incrível. – Tom concordou. – Nós deveríamos voltar sempre. Como vocês encontraram isso aqui? – perguntou olhando pra mim.
- Bom, eu sempre quis saber o que tinha aqui, porque quando passava perto, sentia um cheiro bom. Da última vez que vim, eu, Dougie e Sam decidimos pular a árvore para descobrir... Não é lindo?
- Muito. – ele sorriu com os lábios selados. O sorriso dele era encantador. Do tipo que me deixava feliz sem motivo algum.
- Tom?
- Hm?
- Eu também gosto do seu sorriso. – falei e ele sorriu ainda mais. Desviando o olhar do meu.
- Isso é... Bom. Muito bom. – murmurou, olhando para a plantação de morangos.

Se quando eu vim apenas com Sam e Dougie foi maravilhoso, com o resto dos meninos foi ainda melhor. Nós passamos bastante tempo ali, não fazendo nada de importante, mas eu não recordava de ter me divertido tanto assim sem estar dentro de uma boate, rodeada de bebidas, drogas e pessoas loucas.
Eu não podia negar. Eu estava adorando aqueles meninos. Não havia ninguém que combinasse tanto com a gente quanto eles. O único problema era que eles ainda não sabiam disso. Pelo menos não todos.
- Er... Já é quase meia-noite, tenho que ir embora. – Tom suspirou. – Vou sair com uma pessoa. – completou ao ver as interrogações na testa dos amigos.
- Ah, a namoradinha. – Danny brincou. – Está ficando séria a coisa, Fletcher?
Tom deu de ombros, levantando do chão. Eu não queria que ele fosse embora.
- Não sei. – foi o que respondeu. – De qualquer jeito, tenho que ir. Tchau, gente. Foi demais, hoje. Demais mesmo. – despediu-se de um jeito sincero. Olhei pra baixo, analisando concentradamente as minhas pernas cruzadas sobre a grama fofa. Por algum motivo estranho eu não queria o olhar. Estava entretida demais esmiuçando os rasgos na minha calça quando senti seus lábios macios e gelados encostarem-se à pele da minha bochecha. Meu corpo inteiro vibrou em surpresa. Aquilo foi definitivamente inesperado. O olhei, encontrando um sorriso de lado figurando seu rosto e sorri minimamente, um pouco envergonhada.
- Até amanha, Fletcher. – falei baixo e ele assentiu, acenando e indo em direção a uma outra árvore um pouco afastada que nos levaria para fora dali.

Algum tempo depois, eu já estava em frente a minha casa com Sam.
- Vai sair hoje? – ela me perguntou e eu neguei com a cabeça. – Não mesmo?
- Eu te falaria se fosse, Sam. – rolei os olhos. – A última vez foi uma exceção.
- Espero mesmo que tenha sido uma exceção, Johnson. – falou brava e eu dei uma risadinha. – Ah, antes que eu vá pra casa, tenho que te perguntar uma coisa.
- Diga.
- Tem certeza de que você não tem uma quedinha pelo Fletcher, sua cara foi hilária quando ele beijou sua bochecha...
Mas que porra...?
- Óbvio que tenho certeza, Bradley! Minha cara foi hilária porque eu não esperava aquilo. – apressei-me em explicar, ficando um pouco desconfortável. Sam apenas riu, ergueu uma sobrancelha e cruzando os braços. Típica reação de quando ela não acreditava em algo que eu dizia.
- Pois é... Sua cara só não foi mais hilária do que quando ele contou que ia embora pra ver a namorada... Só faltou você se jogar aos pés dele chorando e implorando pra ele ficar.
Minha reação foi imediata: arregalei os olhos como se eles fossem saltar das órbitas.
Não sei de onde ela tirava tanta merda!
- Sam, você é um pouco mentalmente debilitada, por isso vou ignorar meus impulsos de te chutar. – rolei os olhos. – Que mente fértil! Você, por algum acaso, acha que eu sou capaz de gostar de alguém assim?
- Bela, – ela deu uma risadinha irônica. Eu sabia que viria sermão pela frente. – O que você tá achando? Que vai ser sempre assim? Bela Johnson, a sem coração! – gesticulou exageradamente. – Um dia vai ter que aparecer um cara que vai derreter esse gelo todo aí dentro e te aquecer como se fosse um micro-ondas. E eu acho que o Fletcher tem tudo a ver com você... Além disso, ele é amigo do Danny! – Oh. Então era por isso. – Quando nós quatro virarmos um casal, vai ser muito legal, poderemos sair juntos e tudo mais!
- Sam. Eu já entendi. Mas não vai rolar, ok? O Fletcher, ele... Sei lá, ele não é pra mim, entende? Não vai rolar. Agora tenho que entrar. Já é quase meia noite, meu pai daqui a pouco vai surtar. Até amanhã.
- Até, Mrs. Fletcher. – acenou rindo e eu a lancei o dedo do meio.

Quando finalmente deitei na minha cama, meu cérebro fez o favor de começar a pensar sobre minha conversa com Sam.
A única coisa que me intrigava era a estranha sensação de incômodo que me assolou assim que Tom anunciou sua partida. Eu não queria mesmo que ele fosse embora. Não que eu fosse capaz de assumir isso pra alguém, mas era a verdade. Eu tinha sentimentos estranhos em relação a ele. Não é nada perto de “gostar”. De verdade, não gosto dele desse jeito. Porém, não vou negar que ele é alguém... Diferente para mim.
"O Fletcher, ele... Sei lá, ele não é pra mim, entende? Não vai rolar."
Mas que grande mentira! Com toda certeza, ela sabia que eu disse aquilo tudo da boca pra fora. Tom era o tipo de garoto que eu, antes de "mudar de vida", sempre descrevia como perfeito para mim. Era o garoto com as características que eu listava para o meu futuro marido. Inclusive fisicamente. E a Sam sabia disso.
Mas era a "antiga eu" quem queria um cara assim, certo? Hoje, estou mudada, assim como as minhas preferências. E além do mais, eu mal o conhecia para se julgar se era bom o suficiente para mim ou não.

# Tom

No dia seguinte, durante aula de Geografia, eu rabiscava algumas coisas sem sentido em meu caderno, pensando sobre a noite passada.
O tempo que passei com Sam, Bela e os caras foi incrível. Aquele lugar era incrível, uma espécie de paraíso. Elas eram nerds, eu sei, mas eu nunca conheci nerds tão divertidas como elas. Bela e Sam eram diferentes. Eu sabia disso.
Eu não queria ter ido embora de lá, mas tinha marcado com Angie. Nós fomos a um lugar distinto, dessa vez, onde ela disse não conhecer ninguém. Nem mesmo Chris e suas amiguinhas populares eram conhecidas ali. O lugar consistia numa espécie de galpão abandonado, o qual fora usado para a construção de um bar meio obscuro e com um pessoalzinho mais barra pesada. Eu não gostei tanto assim. Conheci um cara, Luke, que trabalhava lá. Ele foi legal comigo e nós dois conversamos grande parte do tempo em que eu passei escorado no balcão de bebidas, enquanto Angie dançava.

Flashback on (noite passada)

- Por que não cuida da sua garota? – Luke me perguntou em meio a risos entre uma das nossas conversas, ao reparar que eu não ligava muito para Angella.
- Ela não é exatamente minha. Não é o tipo ideal pra mim. – foi o que eu respondi, meio alcoolizado, bebendo mais um gole da minha cerveja.
- E qual é o tipo ideal pra você?
- Eu nem ao menos sei! – soltei uma risada nasalada, pensado no que responder. – Mas eu acho que gostaria de alguém mais parecida comigo em alguns aspectos... Angie é muito comum.
- Ela parece mesmo comum. – deu de ombros. Era perceptível pela aparência. Loira, corpo legal. Sempre com um daqueles vestidos colados e curtos, às vezes de sapatilha, às vezes salto alto... Nada de diferente, que chamasse atenção. – Eu sofro do mesmo problema que você. Se quer saber, as mulheres por aqui caem aos meus pés, mas eu sou seletivo. – sorriu ladino e eu o acompanhei. – Digo, pra ter algum tipo de relacionamento, ela tem que ter algo que me chame atenção. Algo fora dos padrões.
- É o que eu busco. – concordei com entusiasmo. – Angie é linda, mas... – deixei a frase morrer, sem saber exatamente como completá-la, entretanto Luke pareceu entender.
- Cara, eu deveria te apresentar minha irmã. Ela é realmente linda, parece comigo, e é bem louca. – riu, assim como eu – Não é nada como essas garotas comuns... Quantos anos você tem? Ela deve ter sua idade. – arriscou.
- Dezessete.
- Eu disse! Sou bom de palpites. – sorriu. – Mas ela não curte muito namorar, sabe? O único que namorou foi pra provocar meu pai... O cara era um merda e meu pai ficou puto. – gargalhou, trocando minha lata vazia por uma cheia. – Ela é completamente pirada... Seria ótima pra você, se não fosse minha irmã. – Lamentou, me fazendo rir – Mas como ela é, não vou te apresentar. Depois te dou o telefone da amiga dela que é o mesmo tipo de garota.
- É bonita? – quis saber, interessado, e ele concordou com a cabeça.
- E bem gostosa... Um pouco mais tarada, também.
Gargalhei.
- Não sei se me daria tão bem com uma garota tarada, eu já sou o suficiente. – comentei, o fazendo rir brevemente. – E sua irmã é gostosa também?
- Pode crer que sim. Mas não adianta, moleque. Não vou entregar minha pequena de mão beijada pra ninguém.
- Certo... – suspirei risonho. – Te entendo. Mas um dia quero, pelo menos, conhecê-la.
- Claro. Te aviso caso saia com ela algum dia.
- Mas, de todo o jeito, ainda aceito o telefone da amiga tarada. – repliquei e nós rimos por alguns instantes.
Alguém o chamou, fazendo com que Luke maneasse a cabeça para checar.
- O dever me chama... – entortou a boca numa careta de insatisfação. – Depois te dou o telefone dela. – deu dois tapas no meu ombro e eu assenti, sorrindo de lado, antes de voltar a beber minha cerveja.

Flashback off

Bom, o telefone dessa menina nunca veio parar em minhas mãos. E muito menos seu nome em meus ouvidos. Terminei a noite com Angie, como sempre, em meu carro, e depois fomos pra casa.
Foi uma noite legal, sobretudo. Mesmo que as partes legais tenham sido apenas no campo de morango com Sam e Bela, e a conversa dom Luke.

Eu me sentia cansado por ter voltado tão tarde e a ressaca apenas agravava todo aquele desconforto. Rabiscar o caderno era a única coisa que meu cérebro parecia saber fazer, além de dormir, obviamente.

O som do intervalo nunca me fora tão bem vindo.
- Tom, cara, sua cara está uma merda. – Danny avisou-me, caminhando ao meu lado a caminho da mesa. Ele me olhava intrigado, numa analise minuciosa do meu rosto. Jones sempre tinha seus momentos estranhos ao longo do dia...
- Obrigado pela informação. – respondi num tom indiferente.
- Minha mãe é cabeleireira, você sabe, então ela conhece uns bons cremes para olheiras.
- Jones. O que cabelo tem a ver com creme para olheira?
- Ah... É tudo relacionado à estética. – ele deu de ombros, convencido de que o assunto me interessava de alguma forma.
- Eu estou pouco me fodendo pra olheiras. Continuo melhor que você mesmo com elas. – falei em tom de riso e ele discordou com um aceno de cabeça.
- Vou te presentear com um creme de olheiras e um espelho. – ele retrucou de forma despreocupada, já tomando seu lugar à mesa de sempre. Bela e Sam não estavam por ali. Harry chegava com Dougie e uma menina que costumava andar com Brooklee. Eu sabia que o Poynter tinha adoração por ela.
- Olá, garotos. – Sophia acenou e sorriu.
- Oi, Harrison. – a cumprimentei juntamente com um aceno de mão.
- E aí? – Danny sorriu.
- A chamei pra ficar com a gente hoje. – Dougie disse. – Quer que eu busque alguma coisa pra você comer? – perguntou a ela, e eu quase ri. Danny me olhou com os olhos arregalados, também prendendo a risada e nós, em seguida, olhamos para Harry, para ele se juntar a nós na zombação silenciosa.
- Claro, eu costumo pegar dois cookies daqueles grandes. – Sophia ajeitou a saia do uniforme das líderes de torcida, a puxando mais pra baixo. Ela não era como as outras. – E pra beber pode ser uma água mesmo.
- Tudo bem. Já volto.
E ele foi como um cachorrinho. Tentei arduamente disfarçar minha cara de escárnio, assim como Danny e Harry, mas não pareceu funcionar. Sophia percebeu e nos olhou feio.
- Não zombem dele. Ele só tá tentando ser gentil. Vocês deveriam experimentar esse tipo de coisa também, sabe? Garotas gostam. – sorriu brevemente, de forma irônica. E, mais uma vez, eu, Danny e Harry nos entreolhamos sem entender.
- Eu sou um completo gentleman, se quer saber. – Jones advogou. – Agora só falta achar a garota que mereça receber tamanho cavalheirismo da minha parte. Porque hoje em dia, elas estão vindo tão facilmente que você não precisa nem mexer seus músculos. Quer dizer, a língua é um músculo não é?
- É, Danny. – Harry foi quem respondeu, em tom de descaso.
- Então, nesse caso, é necessário mover alguns músculos sim.
- É claro que é preciso mover seus músculos. – Argumentei – Garotas não se contentam mais com beijo na boca. Elas precisam de todos os nossos músculos em ação.
Os meninos concordaram comigo e Soph rolou os olhos.
- Vejo que estão falando de biologia! – ouvir aquela voz subitamente me deixou mais alerta. – É um bom começo! – Bela gargalhou, colocando sua bandeja sobre a mesa. – Oi, Harrison. – acenou simpaticamente.
- Oi, Johnson. – Sophia retribuiu a simpatia. – Oi, Sam.
- E aí. – Sam parecia sonolenta e emburrada.
- O que houve, Bradley? – eu quis saber por pura curiosidade.
- Nada.
- Isso se chama menstruação. – Bela respondeu por ela. – Sam fica bastante temperamental nessa época inóspita.
- Oh, isso é ruim. – Soph fez careta. – Quando estou menstruada eu apenas fico mais excitada. Meu apetite sexual é uma coisa de louco nesses dias...
- Eu nem ao menos sei como eu fico! – Bela mordeu seu sanduíche entre risadas.
- Fica um pouco mais sensível e dramática. – dessa vez, Sam respondeu por ela. – E a Bela dramática é como se fosse um ser humano normal. Porque ela, em seu estado natural, é uma vadia frígida, fria e sem coração. – comentou amargurada e eu gargalhei alto.
- Ei, não é bem assim...
- Que papo escroto! – Harry exclamou, recebendo meu apoio.
- Não gostou, sai daqui. – foi Sophia quem teve a ousadia de nos mandar sair da nossa própria mesa. Mas que absurdo!
Bela gargalhava deliberadamente enquanto Sam afundava a cabeça na mesa pra dormir.
- Que audácia! – Danny berrou. – Nós somos o rei daqui. Você é uma simples plebeia que nós estamos deixando usufruir de nossos acentos reais. Aliás, vocês três são.
- Ah, é assim? – Sam rapidamente levantou a cabeça pra o encarar mortiferamente. – Tem certeza, Jones?
- Err...
- Acho bom. – Ela mal o esperou responder.
- Como assim? Vai deixar uma coisa dessas, Danny? – Harry pilhou. – Você é um veado mesmo.
- Maricas. – desdenhei. – Não sabe nem ao menos colocar uma mulher no seu devido lugar.
- Oh, agora você mexeu com fogo, Fletcher. – a voz ácida de Bela penetrou em meus ouvidos, me fazendo gostar de seu tom irritadiço. – Qual você acha que é o lugar da mulher? Deitada debaixo do homem enquanto ele se acha o dono do mundo?
- É um bom lugar pra se estar. – respondi, erguendo uma sobrancelha em provocação.
- Então estou vendo o quanto é de suma importância que você lide com mais mulheres, porque seus conhecimentos limitados sobre elas não lhe permitem saber que esse é o lugar mais sem graça para se estar, quando se trata de posições sobre uma cama. – ela sorriu maliciosamente.
Certo. Nem eu, nem ninguém esperava por essa. Não mesmo.
O que Bela Johnson sabia sobre isso? A resposta para essa pergunta, eu desconheço. Mas o que eu sei bem é o quanto as palavras ditas por ela foram instigadoras...
- Realmente, Bela. – não me dei por vencido. – Mas garanto que nem ao menos um homem já esteve sobre você pra você dizer que sabe algo sobre isso. Eu, que já tive... Algumas mulheres sob mim, posso te falar: é um bom lugar pra se estar. Com certeza, não é exatamente o melhor, mas é um bom lugar. E, além disso, algumas mulheres também já estiveram sobre mim e eu garanto que estar por cima é melhor. – sorri ladino, satisfeito com minha resposta; as risadas de Danny e Harry ecoando pela mesa.
- Claro, Fletcher. – seu tom de provocação continuava. – Eu respeito toda a sua experiência no assunto – debochou enquanto gesticulava –, mas não me enxergue como tão leiga assim... Ninguém tem certeza sobre a ignorância de ninguém quando se trata de sexo, não é? – ela riu com ironia, me deixando surpreendido – Mas talvez eu seja mesmo uma leiga, afinal, não é todo dia que se acha alguém com quem valha a pena ir pra cama, não é mesmo? Só fique a par de uma coisinha, Thomas: se essa é sua opinião sobre garotas por cima, então é porque você ainda não teve a mulher certa pra te dominar. – Finalizou com mais um de seus sorrisinhos.
- SCORE! – Soph gritou, gargalhando e aplaudindo.
Eu não estava mais surpreendido. Eu estava embasbacado. Eu tava perplexo e extremamente intrigado com o teor provocativo de seu 'contra-ataque'. Eu sabia do placar. Johnson 1, Fletcher 0. Mas ainda assim, eu havia gostado. Eu havia adorado esse lado sujo da Johnson, que manchava um pouco aquela nerd que ela era. Mais um passo em direção à perfeição, Johnson.
- Qual o motivo das risadas? – Poynter chegou com o lanche da amada, sentando ao lado dela como um perfeito cavalheiro.
- Bela dando aulas de sexo ao Tom. – Sophia explicou mentirosamente. Franzi o cenho, incrédulo.
- Não foi nada disso. – defendi-me. – Ela só tinha boas respostas para os meus argumentos. Johnson fica afiada quando se trata de defender seu feminismo.
- Fico mesmo. – ela sorriu. Dessa vez, diferente das outras, seu sorriso fora doce e inocente. Mas tão sexy quanto.
- Ninguém sabe, mas a Bela é uma expert em sexo. – Dougie disse, despertando minha atenção.
- Cala a boca, Poynter. – ela o chutou (explicitamente) por debaixo da mesa.
- Ouch, calma, princesa. Só estou brincando.
Princesa?
- Soph, estou achando que você tá sendo trocada pela Bela. – Harry disse. – Dougie fica cheio de conversinha, segredinho, apelidinho pra cima dela...
Porra, cala a boca, Harry. Isso não tem graça.
Mas... Pera aí. O que eu tenho a ver com isso mesmo?
- Não tenho nada com o Dougie, Harry. Ele faz o que quiser com quer quiser.
- O que está fazendo aí, Soph?! – A voz estridente de Brooklee invadiu a conversa, chamando a atenção de todos nós.
- Eu tô comendo com eles, ora. O Dougie me chamou.
- Comendo com a Johnson e com a Bradley? Você, por algum acaso, tem vômito na cabeça?! Você é uma de nós, Harrison. Não se misture.
Sophia riu.
- Não seja tão superficial, Brook. Não é por causa de um problema pessoal seu com a...
- Cala a boca, Sophia! E se você não vier com a gente agora, te expulso do time. Nós temos ótimas saltadoras, você não é tão necessária assim.
Sophia não parecia mais tão confortável. Respirou fundo antes de voltar seu olhar a nós com um sorriso torto.
- Vou indo, gente, foi legal ficar com vocês. Obrigada pelo lanche, Dougie. – deu um beijo na bochecha dele e se juntou à Brooklee, que esperava emburrada, de braços cruzados.
- Tchau, boys. – Brook acenou, balançando os dedos em nossa direção e depois olhou venenosamente pra Bela e Sam que quase dormia com a cabeça apoiada na mão. – E quanto a vocês, nerds – falou com nojo –, espero que não se aproximem de nós de novo. Vocês contaminam nossa equipe com essa raça escrota.
- Ok, pode deixar, gata. Um beijão. – Sam respondeu mantendo o descaso e a mesma cara de sono.
- Ah! E só pra deixar claro, caso eu não tenha deixado ainda... Eu-não-gosto-nem-um-pouco-de-vocês.
- Ah, é?! – Sam pareceu despertar, e fez uma breve cara de afetada. – Foda-se, porque eu não sou grama pra agradar vaca.
Comecei a rir e só fui parar semana que vem. E eu não sabia se ria mais do Danny e da Bela gargalhando, da cara de merda da Brook ou da piada da Sam.
- Vai tomar no cu, Bradley! – Brooklee exclamou antes de virar as costas e marchar pra longe de nós.
- Hilário, Sam! – Harry disse entre risadas.
- Eu já era seu pela saco antes, Bradley, agora sou ainda mais! – Dougie falou enquanto olhava Brooklee se afastar, completamente puta.

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# Bela

Meu celular tocava insistentemente na cômoda, me fazendo desistir do meu sono da tarde.
- Alô. – atendi sem ver quem era.
- Oi, Bela, é o Dougie.
- Oi, Poynter.
- Te acordei?
- Sim, mas pode falar.
- Ah, desculpa... Mas, enfim, quer sair com a gente hoje?
- Vamos pra onde?
- Feira de Livros. É o último dia de exposição e o Danny está enchendo o saco pra ir. – Achei aquilo a coisa mais estranha do mundo.
- O Danny? Você está bêbado, Poynter?
- Não! Eu não faço a menor ideia do motivo, mas ele está louco pra ir pra lá.
- Hm... E eu tenho alguma cara de quem curte feira de Livros? Porra, Dougie...
Na verdade, você deveria pelo menos fingir que adorou a ideia.
- Eu posso fingir que tenho um compromisso.
Você disse hoje na saída que não tinha nada pra fazer.
- Compromisso de última hora! – arrisquei e ele bufou.
- Ah, Bela, qual é? A Sam vai! – argumentou – Deixa de ser uma ameba, porra, pelo menos é alguma coisa pra te tirar do tédio.
- Ok, ok...
- Esteja aqui em vinte minutos!
- Certo. Até mais.

Levantei-me preguiçosamente da cama e troquei minha roupa de ficar em casa por uma calça jeans skinny branca meio rasgada – eu me lembrava de ter só uma ou duas que não eram rasgadas –, uma blusa escura, cardigan também escuro e, no pé, um par de vans azul marinho. Estava maravilhoso pra não dizer o contrário.
- Pai? – como sempre, ele estava sentado no escritório, remexendo em alguns papeis. – Eu e Sam vamos à feira do Livro.
- Oh, ótimo! – ele sorriu, analisando brevemente minhas roupas. – Que calça mais... Rebelde...
- Ah, pai, está na moda. – tentei soar brincalhona. – Vou indo, tudo bem?
- Claro. Esteja em casa para o jantar.
Assenti, saindo do cômodo e pondo-me a andar até a porta. Passei na casa de Sam e, de lá, nós fomos juntas até o centro, onde seria a Feira Anual de Livros de Londres.

- Oi, gente! – me aproximei deles, abraçando Dougie de lado.
- Ainda estou na TPM, então nem tentarei ser simpática nem nada. – Sam avisou. – Só estou aqui pra não morrer de tédio em casa... Ah! E porque eu amo livros, é claro.
- É, eu também amo. Adorei o convite, a propósito. Nunca imaginei que vocês viessem a esse tipo de lugar.
- A gente não vem mesmo. – Harry explicou. – É que o idiota do Danny disse que estava louco atrás de um livro e queria vir aqui.
- É um livro especial, ok? Vai ser o primeiro livro que vou ler na minha vida por livre e espontânea vontade!
- Qual é o livro, Jones? – Sam quis saber.
- Você não vai querer saber... – ele respondeu, abanando o ar.
- Fala logo qual é, Danny! – Tom insistiu. – Eu também to curioso pra saber que porra de livro é esse que te fez vir pra uma feira de livros.
- Na verdade, são três livros, porque quero comprar a trilogia. – ele explicou antes.
- Qual trilogia, Jones? – dessa vez, eu pressionei.
Estávamos todos curiosos, exceto Dougie, que olhava para o nada.
- A trilogia de cinquenta tons de cinza...
- Porra, Danny! – Harry exclamou com indignação. – Essa merda desse livro tem em todo lugar! Não precisava nos arrastar até aqui pra comprar!
- E eu posso saber pra que você quer ler isso? É coisa de mulher carente, Jones. – Sam disse e Thomas concordou.
- Minha mãe disse que era interessante. E disse que tinha bastante pornografia, eu ia gostar.
- Ah, Danny, puta que pariu... – Fletcher murmurou. – Agora que a gente já tá aqui, faça o favor de achar logo os livros e dar o fora dessa merda.
- Vocês vão me esperar aqui ou vão comigo? – ele perguntou antes de ir.
- Ah, gente, vamos andar por aí! Não quero ficar parada. – Sam resmungou. – Vem Dougie, vem Judd. Vamos com o Danny.
- Obrigada pela exclusão social. – Reclamei e ela deu de ombros, saindo com os outros.
- Bom saber da sua falta de consideração por mim, Bradley. – Tom gritou antes deles sumirem pela multidão.
- Sobramos... – falei, um pouco desconcertada.
- Parece que sim. – ele sorriu de lado, e eu senti vontade de apertar suas bochechas.
Mas desde quando sou fofa assim?
- Gostei da calça. – Thomas apontou, sem desviar os olhos dos meus. Eu sorri, em agradecimento.
- E eu planejo roubar essa sua blusa, porque eu curto muito Blink. Então durma de olhos abertos...
- Você... Curte Blink 182? – Fletcher pareceu chocado e eu ri. – Pensei que gostasse de Beethoven, Bach, Mozart, Chopin e essas coisas... - gargalhou brevemente, enquanto eu fazia careta.
- Você faz um juízo muito errado de mim, Fletcher.
- Faço, é?
- Faz.
- E por quê?
Ok, eu não tenho respostas muito inteligentes pra agora...
- Ah... Sei lá... Eu... Eu estou morrendo de cede! Olha! – apontei na direção da menininha que segurava um copo de refrigerante. – Vamos arranjar um daqueles. – o puxei pelo braço atrás de algo parecido com uma lanchonete, e logo encontrei.
Caminhamos até lá e eu apurei minha vista pra enxergar a tabela de preços atrás do caixa. O refrigerante estava custando duas libras.
Legal. Mas eu nem mesmo trouxe a carteira...
- Ah, deixa pra lá. – dei de ombros e ele me olhou sem entender. – A fila tá grande e eu esqueci a carteira.
- Eu pago, sem problemas.
- Não, deixa, é sério. A fila tá mesmo grande...
- Johnson, só têm sete pessoas, isso não é nem perto de fila grande. E duas libras não vão matar ninguém. – ele falou, já colocando a mão no bolso para pegar a carteira. Mas percebi que algo estava errado quando Fletcher franziu o cenho e passou a mão no outro bolso. E nos bolsos da frente... – Merda. Eu também esqueci a carteira.
- Viu? É um sinal pra gente não beber esse refrigerante.
- Ah, não. Agora eu quero refrigerante, é questão de honra! E eu sei que você também quer.
Eu nem queria tanto assim...
- Como você planeja arranjar um refrigerante sem dinhei...– parei ao ver seu sorriso malicioso surgir vagarosamente. – Oh, não. Você não está pensando em roubar, está? – perguntei rindo.
- Aposto que você nunca fez algo tão errado em toda sua vida.
Sim, já fiz coisas muito mais erradas, meu querido.
- E como você pretende roubar? – ergui uma sobrancelha, descrente de que aquilo fosse proceder.
- Está vendo aquela segunda fila? – apontou. – É para pegar os pedidos. É só a gente entrar ali...
- Isso não vai dar certo.
- Tá com medo, Johnson? – tomei aquilo como um desafio.
- Vamos lá. – ele riu, caminhando ao meu lado.

Ficamos na fila por exatos dois minutos e doze segundos e, quando chegou nossa vez, senti a adrenalina começar a pipocar em meu sangue.
- São dois refrigerantes grandes. – disse Tom, com a maior tranquilidade.
- Coca? – a mulher perguntou sem nem olhar pra nossa cara.
- Sim.
Ela encheu os dois copos e nos entregou.
- Aqui está. Próximo.
Saímos inexpressivos, mas, cinco passos depois, caímos na gargalhada.
- Foi muito mais fácil do que eu pensei! – comentei entre risos e ele concordou, abocanhando o canudo de seu refrigerante.
- Ninguém nem desconfi–
- Ei, vocês! – escutamos a voz grossa vinda de trás e, ao virarmos, lá estava um segurança enorme marchando até nós como um búfalo.
Olhei para o Fletcher sem saber o que fazer, esperando algum tipo de solução, mas a única coisa que veio dele foi um sussurro claro: "CORRE".
E, de mãos dadas, como dois idiotas, nós fomos correndo por entre as pessoas, que nos olhavam sem entender. Eu corria como se não houvesse amanhã, tentando manter o ritmo de Thomas, mas houve uma hora que eu não aguentei mais e explodi em gargalhadas. Tente correr seu máximo enquanto está rindo e você verá como é difícil.
O pior era que Fletcher também ria – senão até mais que eu –, e aquilo não parecia ter chances de terminar bem. O segurança estava cada vez mais perto, e nós, cada vez mais perdidos.
Foi então que, do nada, surgiu uma porta e nós nos trancamos dentro dela, esperando esperançosamente que o armário ambulante não tivesse visto.
Nós riamos tanto que cheguei a sentir dores terríveis no abdômen e pensar que fosse morrer sem ar.
- Ai... Meu Deus... – ofeguei – Como... Como surgiu... Essa porta?!
- Sei lá... Eu vi e entrei. – gargalhamos um pouco mais.
- Onde a gente tá? – parei pra respirar – Isso é um banheiro pra deficientes?
- Parece que sim... Tem esses metais na parede e tudo mais.
- Pelo menos ainda estamos com nossos refrigerantes! – bradei, erguendo meu copo que só estava cheio graças à tampinha plástica.
- E podemos matar a cede! – ele completou, e nós brindamos, em seguida bebendo milhares de goles daquela coca.
- Está mais gostosa porque é proibida.
- E porque a gente tá cansado pra caralho.
- Sim, é claro. – ri um pouco, me sentando na pequena pia. – Estou com medo...
- De que?
- De sair daqui. – gargalhamos – Mas é sério, não ria de mim!
- Eu também tô. – Thomas confessou, sentando-se ao meu lado. Aquela pia era bem mais baixa que as normais. – Estamos impossibilitando deficientes de ir ao banheiro.
- Mas nós somos deficientes mentais, podemos usar. – falei, o ouvindo rir – Além do mais, tem outros banheiros espalhados por aí.
- Certo.
- Sua bochecha tá... Vermelhinha. Dá vontade de apertar. – comentei vagamente, mas quando me dei conta do que tinha dito, já era tarde demais.
Alguém me mate, por favor.
Que tipo de Bela Johnson fala essas coisas?! O que houve com o mundo?
- As suas também estão. – ele sorriu de lado. – Foi uma corrida e tanto. – Oh, não sei se foi só a corrida que me deixou assim... – Mas... Pode apertá-las, se quiser. – ele riu.
- O que?
- As minhas bochechas. – Tom apontou – Pode apertar, se quiser.
Fiquei, por alguns instantes, sem saber como reagir, mas decidi simplesmente dar de ombros e levar minhas mãos àquelas coisinhas cor-de-rosa. Eu estava envergonhada, então apenas as apertei rapidamente.
"Mas que porra estou fazendo...?"
Era a única coisa que passava pela minha cabeça. Apertar as bochechas do Fletcher num banheiro de deficientes físicos? Que tipo de imbecilidade é essa?
- Isso foi idiota. – falei, por fim.
Thomas concordou comigo entre risadas, tomando mais um gole de Coca-cola.
- Mas me sinto honrado por você gostar das minhas bochechas. – disse ele, num tom de voz engraçado.
- Eu queria tê-las pra mim.
- Posso dá-las a você, se quiser!
- Eu adoraria! – gargalhei. – De agora em diante suas bochechas são minhas, então.
- Certo. Mas então eu também quero ter alguma parte do seu corpo.
Aquilo não soou malicioso. Mas com certeza houve pensamentos impróprios por ambas as mentes.
- Fiquei à vontade para escolher. – gesticulei, o fazendo rir.
- Hm... Não sei, são tantas...
- Pois é, realmente, é uma escolha complicada. – rimos juntos.
- Vou precisar de mais algum tempo pra escolher.
- Tido bem, entendo.
- Mas não vou esquecer! – avisou ele, apontando em minha direção. Ergui os braços, rendida.
- Tem o tempo que quiser. Mas acredito que nada em mim seja tão legal quanto suas bochechas.
- Acredito que você pode estar completamente errada.
Eu não tinha nada a responder e o silêncio que tomou o pequeno banheiro foi extremamente tenso.
- Bela... – o ouvi me chamar. – Eu... – a frase morreu no ar.
Ele não completou o quer que fosse dizer. Ao invés disso, apenas aproximou-se de forma lenta, até seu nariz colar ao meu.
Meu coração nunca batera tão forte e eu nunca estive tão em transe. Mal conseguia fechar os olhos. Nós ainda nos encarávamos, mesmo com toda aquela proximidade. Eu podia ver, em cada pintinha cor de mel que coloria sua íris, a incógnita na qual Thomas Fletcher estava inserido. Ele era tão ilegível para mim que chegava a irritar. Nossos olhares conectaram-se de forma quase palpável. A linha entre meu olho e o dele por pouco não era visível, bruta como um diamante não lapidado.
Pude sentir a distância entre nós diminuir ainda mais, e apenas quando sua boca roçou na minha, permiti-me fechar os olhos.
Meu corpo inteiro reagiu àquilo de forma exagerada. Eu estava arrepiada, sentindo calafrios, com frio no estômago, o coração batia descontrolado contra a caixa torácica... Mas que merda! Nós nem ao menos tínhamos nos beijados ainda!
A angústia da expectativa apenas aumentava a cada segundo que ele demorava a me beijar. Nossos lábios estavam apenas encostados e devia fazer quase dez segundos. Conte, e você vai perceber o quanto isso é estranho. Ele não fez nada além de manter a boca ali, junto à minha. Abri os olhos sem entender, encontrando um Thomas de olhos fortemente fechados e cenho franzido. E, como se tivesse percebido que eu abri os olhos, ele também abriu os dele, separando-se de mim e pigarreando.
- Eu... Desculpa por isso, mas eu não podia ter...
- Você tem namorada, não é? - lembrei de repente, sentindo-me frustrada.
- Não, não tenho. Não é isso... É que... Não sei. A gente não pode... Ficar.
Não queria perguntar "Por quê?". Eu pareceria uma idiota frustrada, por mais que fossem exatamente essas as palavras que me definiriam no momento. Entretanto, eu precisava saber por quê. Precisava muito.
- Hm... Tudo bem...Mas... Você tem... – eu não sabia o motivo de estar falando tão pausadamente. Talvez fosse o constrangimento. –... Você tem algo... Contra mim? Quero dizer, não no sentido de me odiar ou me–
- É que a gente não pode... A gente não combina, entende?
- Ahn?
- Você é a nerd e eu sou o–
- Pera aí. – dessa vez fui eu quem interrompeu, começando a entender as coisas. – Você está querendo dizer que não pode ficar comigo só porque eu sou nerd e você é o fodão popular que só come as gostosinhas da torcida?
- Eu não–
- Que criancice, Fletcher! Mas que babaquice! Que merda de preconceito idiota! Não que eu tenha alguma necessidade de ficar com você, eu estou pouco me fodendo pra isso, mas essa foi a coisa mais imbecil que eu já ouvi alguém dizer! Você está sendo um idiota! Tudo bem não querer ficar comigo, mas dizer que é porque eu sou nerd? Que coisa mais tosca, Fletcher. – ri sem humor. – Há dois minutos atrás, eu esperava mais de você... Mas tudo bem. – dei de ombros. – Bom que eu descubro com que tipo de moleque – frisei a palavra – estou lidando. Você é bem do tipinho da Brooklee, como posso ver. Do tipo "retardado que precisa manter as aparências e não pode se contaminar com os plebeus". Quer saber? Como diria a Sam, muito antes de falar isso tudo, vai tomar no seu cu.
- Bela, eu não quis dizer...
Eu não deixei que ele acabasse a frase. Saí do banheiro a passadas largas e, para minha sorte, vi Sam e os meninos logo à frente.

- O que te mordeu, garota? – Sam perguntou assim que analisou minhas feições. Tratei de mudá-las e fingir que nada havia acontecido.
- Nada, oras. – sorri brevemente. – Vou pra casa porque meu pai pediu pra eu não demorar. – avisei, e os meninos reclamaram.
- Ok, depois te ligo pra gente... Conversar. – Sam comunicou e eu assenti. Obviamente, ela percebeu ter algo errado.
- Bela, cadê o Tom? – Harry perguntou e eu olhei pra minha calça.
- No meu bolso é que não está. – respondi os fazendo rir. – Tchau gente, até amanhã. – acenei antes de ir.

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# Tom


- Cara. – Dougie falou pausadamente – Você foi um puto. Um belo de um puto.
- Porra, eu sei Dougie, eu sei. – resmunguei – Eu não queria ter dito aquilo, foi só uma desculpa idiota que eu arrumei.
- E põe idiota nisso! Puta que pariu. Cara, a Bela, ela não é... Quero dizer, ela não é... Tão... Ruim quanto você pensa, cara, ela é demais! Você foi um cabeça de pênis, mais sem cérebro que o Danny.
- Eu sei disso... – suspirei profundamente – E o que você quer dizer com "ela não é tão ruim quanto eu penso"? Eu não penso nada de ruim dela.
- Eu quis dizer que... Ah, você sabe, você fica dizendo que ela é nerd aos quatro ventos, usando essa merda de desculpa pra não admitir que tá louco pra pegar ela, quando na verdade ela nem é nerd!
- Não é nerd? – arqueei as sobrancelhas, completamente descrente. Ele tava se ouvindo? É lógico que ela é nerd, porra. – Impossível a gente estar falando da mesma Bela.
- Er, certo, é claro que ela é nerd. Eu só estava exagerando. – riu brevemente. – Mas mesmo assim. O que eu quis dizer é que ela não é tão nerd quanto aparenta. Se você pudesse conhecê-la melhor, como eu conheço, você não iria ficar de tanta viadagem...
Ahn?
- Do que está falando, Dougie?
- Erm... Nada! Esquece isso. – abanou o ar. E cada vez eu estava entendendo menos... – O que eu realmente quis dizer é que ela não é aquele tipo de nerd escrota que qualquer pessoa normal tem toda razão em ter preconceito. Ou não... Mas enfim, ela é apenas uma pessoa muito inteligente, que gosta de estudar e tira notas excelentes porque Deus quis que ela fosse esperta desse jeito. O que eu não entendo é porque você faz tanto doce pra chegar nela logo. Cara, doce é coisa de mulher. E você está dando uma de veado com essa porra de preconceito fajuto.
- Certo... Talvez eu não ligue tanto assim pro fato dela ser nerd... Mas é porque... Sei lá, eu tenho uma cabeça escrota e só eu entendo meus motivos.
- Eu não quero saber seus motivos, porque eu nunca entenderia. Se fosse eu no seu lugar, já teria pegado há muito tempo.
- Dougie... Você tem alguma coisa com a Bela? Já ficou com ela?
- Talvez... Por quê?
- Tá falando sério?
Agora eu estava realmente assustado. E puto. Como assim eu tava contando todo o meu drama com a garota pra ele, e ele me diz que os dois andaram tendo uma porra de um casinho?! Ele nem me contou nada! E que tipo de filho da puta pega a mulher que o melhor amigo quer? Não que eu já tenha falado isso claramente, mas estava óbvio, não é?
- Ah, cara... Você tava com a Angie e a Bela é bem gostosa... Eu poderia ter ficado com a Sam, mas ela já é do Danny...
- E a Bela já era minha, porra!
- Não era não, cara! Você tá com a Angie, esqueceu?
- Foda-se a Angie, eu queria a Bela e qualquer idiota saberia disso!
- Mas agora já era, eu to curtindo ficar com a Bela, ela é demais, como eu disse... Tem uma bunda muito boa... – ele sorriu malicioso e eu senti vontade socar a cara dele.
- Quer saber? Foda-se. Vou pro meu quarto.
- Ei, relaxa aí, Fletcher! – ele riu. – Só to testando minha teoria de que você tá afim dela. Eu nunca troquei mais que um abraço com a Johnson. E além de tudo, você sabe que eu quero outra...
- Filho da puta! – xinguei, com todo o alívio existente em mim. – Isso foi a coisa mais idiota que você já fez.
- E você ficou putinho que nem um maricas. – gargalhou. – Tá caidinho pela nerd.
- Cala a boca, Poynter. – rolei os olhos. – Não é questão de estar afim dela, eu apenas tenho vontade de ficar com ela pra saber como é. Afinal, ela é nerd e nunca deve ter nem beijado na boca.
- Ok, se é o que você acha... – ele deu de ombros. – Só que você foi um jumento com ela e vai ter que arrumar essa merda pra ter alguma chance. Posso te garantir que ela não vai ser tão fácil assim pra você, cachorrão.
- Tudo bem, eu vou me redimir com ela. Mas o que tem demais em ficar, Poynter? É uma coisa tão simples e experimental que ela não precisa nem levar em consideração se eu fui um idiota ou não.
- Primeiro: você foi um idiota como amigo, além de qualquer coisa, por ter mostrado que tem um preconceito sem fundamentos contra ela. Por isso você tem que se redimir. Segundo: depois que você realmente a conhecer e ver quem ela é, não venha me dizer que está apaixonado...
- O que? – comecei a gargalhar insanamente depois do que ele disse. – Me apaixonar? Ah, Dougie... Vá dormir, por Deus! – levantei-me de sua cama ainda rindo e fui pro meu quarto me arrumar. Já era tarde e Chris me aguardava na Fabric.

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# Bela

- Posso falar com você? – Thomas segurou meu braço enquanto eu estava indo em direção à sala de dança. – Por favor.
- Tenho street agora, não posso atrasar.
- Por favor. – repetiu ele, soando apelativo. Suspirei, decidindo ouvi-lo. Eu odiava discutir com as pessoas.
- Fala.
- Aqui não.
Assenti sem nenhuma animação e nós caminhamos até a escada que dava pro terraço, que estava perto dali. Eu não achava necessário ir até o terraço pois não pretendia estender tanto assim a conversa, mas não reclamei. Apenas o segui até lá.
- Bela... Me desculpa pelo que eu disse ontem, ok? Eu sei que foi meio tosco. – coçou a nuca, desconcertado.
- Foi bem tosco.
- É. Desculpa. Aquilo que eu disse sobre você ser nerd, olha, foi só uma desculpa idiota... Eu não ligo se você é nerd ou não. Gosto de ser seu amigo e a prova disso é que eu tenho andando com você na escola, e também fora dela, todos os dias. Não sou como a Brook, não mesmo. Me desculpa por ontem.
- Tudo bem. Desculpo. – dei de ombros.
Sim, eu ainda o achava um idiota. Não seria tão fácil assim.
- Sério? – ele pareceu não acreditar no quão rápido me convencera. O único detalhe era que ele não me convencera de nada.
- Aham. Não gosto de ficar brigada com as pessoas. – sorri de lado. – Tenho que ir, estou atrasada. – quando eu ia sair, ele segurou novamente meu braço.
- Me desculpa mesmo? Porque eu to realmente arrependido.
Certo. Olhando em seus olhos, eu podia acreditar naquilo...
- Desculpo, Fletcher, já disse.
- Me chama de Tom. – ele reclamou, fazendo careta, ainda sem soltar meu braço.
- Não. Prefiro Fletcher. É mais sexy. – sussurrei a última frase, antes de me soltar de sua mão e tomar meu caminho rumo à aula de dança.

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- Bela e Sam, querem ir ao shopping comigo? – Lia questionou enquanto trancava a porta da sala.
- Eu quero. Não tenho nada pra fazer. – Sam respondeu e eu dei de ombros, concordando.
- Fazer o que lá? – quis saber, enquanto ajeitava minha mochila nos ombros, me dirigindo ao carro de Lia.
- Eu preciso comprar um presente pra minha mãe porque hoje é aniversario dela e, bom, estou precisando de um pouco de diversão. Eu ando muito estressada ultimamente...
- Isso se chama falta de homem. – Sam falou, me fazendo concordar aos risos. – A gente pode chamar os meninos... Eles divertem qualquer um.
- Que meninos? – Lia franziu o cenho em sinal de confusão enquanto afivelava o cinto do carro. – Coloque o cinto de segurança, Sam.
- Os meninos, ora. Danny, Dougie, Tom e Harry.
Deitei-me no banco de trás e fechei os olhos, apenas escutando a conversa. Eu não estava muito afim de sair com os meninos hoje. Eu não estava muito afim de sair com o Fletcher hoje.
- Já estão assim, é? – Lia perguntou em tom de deboche – Saindo com eles toda hora?
- Pois é, pra você ver... As nerds estão virando sociáveis.
Lia riu.
- Pode chamá-los, por mim tudo bem. – Sam murmurou um "ok" em resposta. – E vocês vão sair hoje à noite?
- Eu vou. – avisei logo. – Já estou sentindo falta do pessoal.
- Imagina eu! Eu não saio com eles há um tempão. Todo santo dia Chris e Maxxie me mandam mensagem perguntando onde eu estou enfiada, e a Angie não para de me ligar... – Sam tagarelou. – O PJ disse que agora todo mundo fica perguntando por mim e dizendo que faço falta. Ah, adoro ser importante... – suspirou em tom de riso.
- Andam perguntando por você mesmo. – concordei. – Na última vez que fui, muitas pessoas perguntaram.
- Estão vendo? Tô muito sumida. Vamos sair hoje.

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# Tom

Já estávamos há uma hora no Burger King do shopping com elas e nem sinal da Bela falar comigo direito. Quer dizer, ela estava normal, mas mal me olhava. E aquilo estava potencialmente incômodo.
A professora de dança – mais legal do que eu pensava – conversava simpaticamente com todos, mas eu estava excluído no canto da mesa. Calado. Irritado.
Ela disse que me desculpava, não disse? Então por que não falava comigo normalmente, porra?
- E quantos anos você tem, Tom? – Thalia perguntou de repente, fazendo-me despertar do transe.
- Ahn?
- Sua idade.
- Ah. Dezessete.
- Oh, me sinto tão velha... – Ela torceu o lábio, fazendo uma cara dramática.
- Deixa de ser babaca, Hoppus. – Bela empurrou seu ombro, rindo.
- Vinte e um não é velha. – Harry deu de ombros – Já fiquei com garotas mais velhas que isso. Eu, particularmente, gosto das mais velhas. – Esse era o jeito do Judd de dizer que tinha se interessado por ela.
- A namoradinha do Tom tem vinte. – disse Danny, desnecessariamente.
- Idade não é um problema quando a mulher é bonita. – Harry voltou a falar.
- Entendo. O mesmo vale para os homens. – foi o que Thalia disse, mostrando um sorriso malicioso em seu rosto.
Oh, eu já tinha entendido tudo.
Harry ia pegar a professora de dança gostosa. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Eu tinha toda certeza.
- Mas eu acho que meninas da nossa idade também são muito válidas. – Danny adicionou.
- É obvio que são, né, Jones. Não dá pra ficar pegando só mulher velha. – Sam rolou os olhos.
- Com certeza. Mas eu ainda acho que idade é o de menos – Dougie interferiu na conversa. – Tem que combinar. Você e o Danny, por exemplo, combinam muito.
Bela gargalhou alto.
- Concordo plenamente, Poynter! – ela bradou em meio aos risos. – Os dois formam um belo casal, não é?
- Jura, Johnson? – Sam sorriu sarcasticamente. – Que coincidência, você e Fletcher também formam um casal lindo!
Não pude conter meus olhos de se arregalarem pelo conteúdo do comentário. Eu me senti meio... Estranho.
- Ah, creio que não... O Fletcher não gosta muito de nerds como eu. – alfinetou ela, como se sentisse algum pesar naquilo. Não poderia ter sido mais sarcástica.
Bufei, rolando os olhos, fazendo questão de que ela visse minha reação.
- Ah, que isso! – Dougie exclamou, falsamente descrente. – Impossível o Tom achar uma coisa dessas de uma princesa como você.
E, novamente, Bela gargalhou. Eu não via nenhuma graça naquilo.

O tempo passou sem mais assuntos muito constrangedores, mas Bela, hora ou outra, soltava comentários ambíguos que tivessem a ver com a situação embaraçosa de ontem. Eu estava realmente irritado com aquilo. Muito, muito irritado.

Fomos embora algum tempo depois. As meninas tinham algo a fazer e eu pretendia sair com o Chris e a Angie hoje. Danny, Dougie e Harry também iam. Esperava que servisse pra eu esfriar a cabeça, porque, de certa forma, Bela estava me tirando dos eixos. O que eu não entendia, entretanto, era o porquê disso tudo estar tendo repercussões tão grandes dentro de mim. Quero dizer, nunca fui de me importar tanto com esse tipo de coisa. Mas eu sabia que, se tratando de Bela Johnson, as coisas sempre eram um pouco diferentes. Ela era um grande enigma o qual eu precisava entender. Eu sentia essa necessidade de entender.

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# Bela

O relógio marcava dez e treze quando eu estava pronta. Meu pai já dormia, Luke já tinha saído e o Sr. Wilson já tinha mandado por sms o aval pra que eu saísse.
Eu e Sam subimos na moto de Spencer, que estava parada algumas quadras depois da nossa casa e, nós três, um pouco apertados, seguimos para o Fabric.

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- Ei, Bela. – Sam puxou meu braço. – Vamos ali com o Maxxie e a Florence. – ela apontou para os dois, que dançavam e nós fomos até lá.
- Hey, sumidas! – Flor nos agarrou, o cheiro de maconha empregando em seu corpo.
- Elas estão com amigos novos. – Maxxie comentou com desdém. – Está dando uma de Chris, que troca os amigos antigos por qualquer idiota que acha legal.
- Não estamos trocando vocês. Nós não saímos com eles pra esse tipo de lugar... Vocês são nossos amigos de balada pra sempre. São insubstituíveis. – disse Sam, apelando um pouco.
- Pode crer. Faço das palavras da Sam minhas. – levantei o polegar pra figurar minha alegria. O que não pareceu muito genuíno... Talvez tenha sido por isso que eles rolaram os olhos.
- Você não sabe nem bajular seus amigos, Bela. – Flor reclamou com sua cara de desgosto. – Vai um baseado hoje?
A pergunta foi quase retórica. "Não" seria a resposta esperada, mas, levando em consideração o meu comportamento diferente nas últimas vezes em que vi, já não se sabia mais a resposta a se esperar de mim.
- Claro, por que não? – eu ri. – Antes só me deixe ir ao bar buscar alguma coisa pra beber. Já estou com cede de novo.
- Pega cerveja pra mim, Bela? – Sam pediu e eu acenei positivamente, indo até o bar.
- Oi, Jack.
- Minha patroa! – ele exclamou. – O que manda? Mais um Jose Cuervo?
- Sim, pode ser! Pega a garrafa inteira! – apontei, quando ele fez menção de pegar um copinho. Ele riu, concordando. – E pega também um Heineken long neck pra Sam.
- Ok. Sua bêbada. – xingou, ao me entregar a garrafa.
- Você sabe, eu tenho um caso de amor profundo e voraz com o Jose, Jackie. Não vivo sem ele.
- Ei, também posso pegar uma garrafa dessas? – A voz de Dougie surgiu ao meu lado e eu quase dei um mortal pra trás. Ele nem ao menos percebeu que era eu ali, a vinte centímetros dele.
- Não, desculpe. É que ela é vip, sabe como é. – apenas quando Jackie mencionou-me, Dougie olhou de soslaio para ver quem era e, assim como eu, sua reação foi de surpresa extrema.
- O que faz aqui, Poynter?! Por que não me avisou que vinha?
- Sei lá, eu não me liguei nisso... Cara... Todos eles estão aqui e... Fodeu, eu pedi pra eles virem pra cá, é melhor você sair daqui, Bela.
- Poynter! Mas que merda! – rosnei, irritada – Vem comigo. – o puxei pelo braço me afastando do bar, que era um lugar muito fácil de ser vista. O levei pra um canto que eu sabia ser bem menos movimentado, até porque poucos sabiam da existência daquele pequeno vão que dava acesso às escadas para o terraço. Só quem aparecia por ali eram pessoas, como Chris, que praticamente moravam no Fabric.
- Você, por acaso, comeu algum tipo de merda?
- Cara, foi mal, eu esqueci que você vive aqui e, mesmo assim, você tinha dito que não tem mais vindo muito.
A Sam não tem mais vindo muito! Eu continuo vindo! – o corrigi – Você é lesado mesmo, hein? Vou ter que estragar minha noite, ir embora só por causa dos babaquinhas dos seus amigos que acham que podem vir aqui e–
- Ei, pera aí. Os "babaquinhas dos meus amigos" também são seus amigos! Vocês não contam essa porra de segredo pra eles porque não querem. Eu já falei que eles não vão falar nada pra ninguém. Talvez fiquem meio chocados, mas vão se acostumar com quem vocês realmente são e vão até gostar mais das duas... Se quer saber, você, Bela, é exatamente o que o T–
- Bela! você não sabe quem eu vi aqu...- Sam chegou correndo até mim, com sua cara de desgraça, mas parou de falar quando viu o Dougie. – Oh. Então você já sabe. Que porra vocês acham que estão fazendo aqui, Dougie?!
- Dá pra vocês pararem de falar como se a gente simplesmente não pudesse vir aqui? Esse é o tipo de lugar que a gente gosta também! Não são só vocês que curtem e podem!
- Só que... – Sam tentou rebater, mas, sem argumentos, resignou-se. – A gente vai ter que ir embora, de qualquer jeito. – disse num suspiro.
- É sério, por que não contam a eles? Vai facilitar a vida dos seis.
- Sem chances. – disse, por fim. – Vamos, Sam.

- Bela, Sam! Já estão indo embora? – Angie perguntou quando eu já estava perto da saída. Ela vinha com Spencer em nossa direção.
- Já... – murmurei sem vontade. Eu estava apressada.
- Poxa, a gente nem se viu hoje. – Spencer foi quem disse, aproximando-se de mim para um abraço.
- Logo hoje que eu ia apresentar meu gatinho a vocês... – Angie lamentou, fazendo uma cara engraçada.
- Depois você mostra, Angie. – disse Sam – Agora a gente tá com pressa. Até qualquer dia! – ela saiu me puxando pra fora dali e nós fomos pra casa.

# Tom

Mais uma vez, eu me encontrava rabiscando o caderno durante uma aula inútil. Mais uma vez, pensativo. Eu já não aguentava mais toda aquela confusão.
- Dougie! – o chamei aos sussurros. Ele quase cochilava, a mão apoiava a cabeça.
- O que? – respondeu com os olhos arregalados, tomando um susto que chamou a atenção da professora.
- Algum problema, Sr. Poynter? – Sra. Roughman questionou, irritadiça.
- Não, nenhum.
- Preste atenção na aula.
- Sim senhora.
A professora tornou a escrever na lousa e eu voltei a chamá-lo. Dessa vez, ele respondeu aos sussurros.
- O que é, Fletcher?
- Cara... Você pode me chamar de louco o quanto quiser, mas ontem eu também pensei ter visto a Bela... Eu não falei nada porque sei o quanto posso estar maluco, mas eu juro, era tão parecida com ela... – suspirei – Talvez eu esteja mesmo meio noiado, meio... Paranoico com isso.
- Er... É.
Obrigado pela atenção, Dougie.
- Quero dizer, eu não sei o que fazer. Fico vendo a Johnson pelos cantos como se ela fosse um fantasma. É sério, eu to ficando com medo.
- Você pode estar gostando dela, cara.
- O que? Não, não! – me apressei em descartar aquela hipótese absurda – Eu estou apenas enlouquecendo. Acho que eu deveria parar de me focar nela e começar a focar noutra pessoa, sabe? É que eu fico muito intrigado com ela. Talvez se eu me desligar mais da Johnson, eu pare de ficar vendo a garota por todos os cantos.
- Ou talvez não...
- Ahn?
- Nada. – ele era louco ou o que?
- Ok... – respondi, estranhando. Ele devia estar mesmo com sono...
- E o que você pretende fazer sobre isso?
- Você soou como um psicólogo veado.
- Ah, estou treinando! Minha mãe disse que se eu fracassar como músico, o que é bem provável segundo ela, eu posso ser psicólogo!
- Está falando sério?
- Err, não.
- Ah, sim. Então, continuando, eu pretendo ter algo sério com a Angie. Sabe, namorar com ela. Faz um tempo que eu não namoro e a Angie é mais velha. Não vai ser como meu namoro com a Kendal, vai ser diferente, mais maduro, e talvez eu possa gostar.
- Cara, você pode estar fazendo uma merda... Você nem gosta da Angie, vai ser uma bosta namorar com ela.
- Eu posso conseguir gostar, algum dia. Nunca vou saber se não tentar.
- Porra, Tom! Você é, por algum acaso, um travesti?
Rolei os olhos, já meio impaciente.
- Dougie, escuta, não custa nada tentar. Se for uma bosta, é só terminar e pronto, não existe nenhum problema nisso.
- Tudo bem, você é quem sabe. Mas essa historinha de ficar com uma mulher pra esquecer a outra já tá batida, todos sabem o final: as pessoas só se fodem e não esquecem nada, tudo fica apenas pior.
- Poynter, puta merda, não viaja! Não é como se a Johnson fosse o amor da minha vida ou algo assim. Não exagere...
- Certo, depois não diga que eu não avisei.
- Cala a boca, mestre dos magos.

# Bela

Eu escutava Brian May solar divinamente 'we will rock you' em meu itouch, fumando um cigarro no terraço da escola, durante um intervalo.
Eu não sabia por que estava fumando.
Eu nem ao menos gostava de cigarro.
Mas, de alguma forma, eu precisava de algo que acalmasse meus ânimos pra que eu pensasse com sabedoria – algo que eu não estava muito acostumada a fazer.
- Merda de vida... – murmurei, pegando o celular e vagando pela lista de contatos, a procura de alguém com quem eu pudesse conversar. O nome "Alice" quase brilhou na tela assim que bati meus olhos ali.
Não passaram de duas chamadas até sua voz sonolenta atender.
- Bela?
- Te acordei não foi? – torci os lábios, consciente da minha falha.
Não exatamente. Acordei há alguns minutos, mas ainda não levantei da cama... To com preguiça. – disse com voz de riso e eu me senti menos culpada.
Traguei o cigarro antes de falar.
- Posso conversar com você um pouquinho?
Claro que pode. Sempre. Mas não era pra você estar na escola?
- Estou no intervalo. – omiti o fato de que o intervalo estava praticamente no fim.
Ah, sim. Diga.
- Eu... Estou com alguns problemas, Alice... Nem sei como te explicar. – suspirei – É que eu não sou exatamente quem eu preço ser. E não se preocupe, você não precisa entender nada disso agora. Mas é que eu tenho um segredo que pouquíssimas pessoas no mundo sabem. E eu, ultimamente, estou me vendo encurralada... Estou me sentindo pressionada a contar pra pessoas que não têm nada a ver com isso. E não é um segredo só meu...  – traguei novamente o cigarro e soltei o ar devagar. – Só que se eu contar a esses... Caras, talvez facilite um pouco as coisas.

- Então conte a eles, ora.
- Mas já tem pessoas demais sabendo e eu tenho medo! Ao mesmo tempo em que pode facilitar, pode me ferrar completamente.
Wow, isso é complexo. Mas, pra compartilhar um segredo tão importante pra você, a pessoa tem que ser de extrema confiança. Não confie em alguém que você não conheça bem, que você não sinta segurança.
- Certo...
Você confia nessas pessoas pra quem você tem que contar?
Eu confio?

Confio neles?
A nossa amizade chega até certo ponto, mas, de longe, é o suficiente pra contar algo tão importante pra mim assim.
- É, eu não confio.
Então, bom, não conte. Deve ter alguma outra solução, Bela.
- Sim, deve... Eu vou pensar sobre isso.
Ok. Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, não é? – sorri entre uma tragada e outra.
- Sei. – Suguei uma última vez aquela fumaça e apaguei o cigarro, que já estava no final. – Obrigada, Alice.
Por nada. Amo você, vê se aparece por aqui.
- Pode deixar. – ri brevemente. – Beijo, a gente se vê.

- Beijo!
Desliguei.
Mesmo que aquela conversa tenha sido importante pra uma tomada de decisão, eu não sabia se aquilo era o certo.
Mas parecia óbvio. É lógico que não contar é infimamente melhor pra mim. Quanto menos pessoas souberem, mas segura estou.
Então era isso. Eu não iria contar nada a ninguém.

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- Por onde andou, sua idiota? – Sam me puxou pelo braço quando eu entrava no laboratório de química, no último tempo.
- Matei algumas aulas desde o intervalo. Eu precisava pensar.
- Pensar em que?
- Sobre conta aos meninos ou não. – ela ergueu as sobrancelhas pedindo pra que eu prosseguisse. – Acho melhor não falar nada, por questões de confiança.
- É, ainda não é a hora.
- E quanto menos pessoas souberem, melhor.
- É claro. Confesso que passou pela minha cabeça que contar a eles não seria tão ruim, mas, pensando por esse ponto, é melhor deixar em off.
- Sim. – sorri pra ela e nós passamos a aula testando reações químicas que geravam odores. Foi divertido, até.

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- Olha essa sala! Ficou imunda! – escudei Danny reclamar quando estávamos saindo. – E a gente vai ter que limpar igual a quatro cornos. Ah, se aquele filho da puta do diretor Johnson passar pela minha frente, eu bato na cara dele até desfigurar.
- Quanto amor no coração, Jones! – Sam se aproximou dele, acariciando seu ombro.
- Coitado do meu pai... – falei, falsamente afetada. Eles riram.
- Nossa, isso está mesmo imundo... – Harry comentou enquanto passava os olhos pela sala. O chão estava horrível. Todo molhado com diferentes soluções, de diferentes cheiros, de diferentes cores, e o fato de todos terem pisado ali ao irem embora apenas piorou consideravelmente a situação.
- Vocês querem a nossa ajuda? – Sam perguntou, compadecida.
Fiquei até assustada.
- Não vou mentir. Se vocês puderem ajudar, a gente aceita. – Tom respondeu e os meninos concordaram com ele.
- Sem problemas pra nós. – falei, sorrindo. – Mas vamos ter que arranjar panos de chão, esfregões, todos e aqueles desinfetantes porque isso não vai sair com aqueles paninhos que vocês usam todos os dias.
- Pode crer. – Dougie coçou a nuca, olhando para o chão pavorosamente sujo.
- Bela, pode ir buscar essas coisas lá no armário de limpeza enquanto a gente vai dando uma ajeitada nas mesas? O Tom te ajuda. – Harry pediu e eu dei de ombros, saindo do laboratório.
"O Tom te ajuda", mas é claro que isso iria acontecer comigo, né. Eu e minha sorte fenomenal.
Continuei andando, sem fazer questão de esperá-lo. Eu escutava seus passos atrás de mim, mas não me preocupei em olhar pra trás nem nada. Apenas fui, ignorando sua presença. E eu não sabia bem o porquê daquilo.
- Eu pensei que tinha me desculpado. – escutei sua voz soar calma pelas minhas costas e interrompi minha caminhada, virando para trás.
- O que?
- Pensei que tinha me desculpado.
- E eu desculpei, ora. – dei de ombros e ele andou até mim para que recomeçássemos a andar juntos.
- Não é o que parece. Você não me ignorava. Pelo contrário, sempre foi legal comigo.
- Eu realmente não gostei do que você falou. – admiti o óbvio. – E eu te desculpei, mas não consigo parar de pensar no quanto fiquei com vontade de socar sua cara. Você foi imensamente escroto.
- Eu sei disso. – suspirou – Mas foi sem querer, eu nem pensei no que eu disse.
- Significa que foi seu inconsciente. Você tem essa opinião ridícula no fundo da sua mente e, naquela hora, acabou falando.
- Não, nada a ver. Eu não ligo se você é nerd ou não e eu já te disse isso. – chagamos ao armário de limpeza. Eu o abri, começando a pegar as coisas que achava necessárias. – Você podia parar de graça e falar comigo direito.
- Não é graça Fletcher! Mas que merda!
- Ei ei ei! – a voz mais insuportável que eu poderia escutar naquele momento ressoou pelas paredes ao meu redor e eu virei o rosto para enxergar Brendon caminhando em nossa direção. – Está incomodando a minha garota, Fletcher?
- Não sou sua garota, Baker. Nem se me pagassem por segundo que eu fingisse ficar com você.
- Quietinha, minha linda. Meu papo é com o Fletcher. – disse Brendon, e Thomas simplesmente arqueou uma sobrancelha em deboche, cruzando os braços e escorando um dos ombros no armário de limpeza. Eu quase ri do descaso dele. Riria, se não estivesse muito puta com o que o Brendon acabara de dizer.
- O que quer que tenha a dizer a mim, Baker, será desnecessário porque eu estou pouco me fodendo pra qualquer coisa que você fale.
Brendon quase espumou. Pude jurar que sua pele ficou um tom mais vermelho.
- O que disse? – rosnou, com os punhos cerrados.
- Se quer repeteco, compra um papagaio. – respondeu Fletcher, como uma criança de sete anos, pegando metade dos esfregões que eu tinha separado e saindo dali. Eu não aguentei. Gargalhei tanto que meu abdômen doeu.
- Filho da puta! – Eu realmente não sei como Brendon não saiu correndo atrás dele para esmurrá-lo até a morte.
- Pra você ver o quanto você é desnecessário para o mundo... – eu disse, também pegando o resto dos equipamentos de limpeza – Ninguém aguenta nem ter um diálogo sensato com você, Baker. Você é patético.
- Escuta aqui, Johnson. – ele segurou meu braço com força – É melhor você medir suas palavras quando falar comigo porque eu sei de muita sujeira sua que seu papai iria odiar descobrir. Então, ou você me trata direitinho, ou eu não vou ter pena, entendeu bem?
Eu apenas ri sem humor, soltando bruscamente meu braço da mão dele e dando um passo a frente. Exatamente o oposto do que o que ele esperava.
- Escuta aqui, Baker. – imitei suas palavras com o mesmo veneno na voz, senão mais. – Da próxima vez que você ousar me segurar desse jeito, suas bolas vão virar ovo mexido. Acredite, você não iria gostar de saber do que eu sou capaz. – ameacei, mesmo que aquilo fosse um total absurdo. Eu não sei nem dar um tapa na bunda. – E aprenda de uma vez: eu não tenho medo de você e muito menos das suas ameaças idiotas.
Virei as costas com uma brutalidade atípica e me distanciei a passos largos dele.
Fiquei imaginando o quanto Sam ia gostar de ter visto aquela cena. Provavelmente, ela preferiria se eu tivesse o espancado, mas ela também gostaria de ter me visto falar aquele tipo de merda.

---

- VOCÊ DISSE ISSO?! – Ela gritou, quicando na minha cama.
- Disse! Eu sabia que você ia gostar. – rimos juntas.
- Boa garota! - fizemos um high five desengonçado. – Mas, vem cá, você não ficou preocupada com o que ele disse não? Acha que ele sabe de alguma coisa? Ah, meu Deus... Era só que me faltava...
- Não, relaxa. Acho que foi só um jeito de me colocar medo.
- Tomara... – ela torceu. – Se fosse pra mim que ele tivesse dito, eu ia acabar me entregando. Ia começar a tremer e implorar pra ele não contar pra ninguém, nem que eu tivesse que vender meu corpo pra ele.
Gargalhamos. Sam era retardada...
- Tá vendo, por isso que eu defendo a ideia de comprar uma coleira pra você não sair de perto de mim. Vai que você faz uma burrice dessas...
- Ah! Bela... Tenho que te contar uma coisa... Eu sei que era pra ter contado antes, mas eu não tinha nenhuma certeza sobre nada e agora as coisas tomaram uma proporção um pouquinho maio- 
- Conta logo, Sam!
- Ok, ok... – ela se ajeitou na cama e pigarreou. – Eu e Danny sempre conversamos muito pelo computador e ultimamente temos nos falado sempre por mensagem... – como assim? Por que ela nunca mencionou esse pequeno fato? – Eu nunca achei que isso fosse significar alguma coisa, mas... Ele me chamou pra sair. Tipo, só nós dois. E era pra ser secreto, mas eu estou te contando mesmo assim.
- O que?!
Não vou dizer que o primeiro sentimento foi felicidade por ela. Infelizmente, eu sinto ódio de mim mesma por ter sentido uma pontinha de inveja. Eu estava, obviamente, muito, MUITO feliz por Sam ter conseguido que o cara dos sonhos dela a chamasse pra sair, mas pensando sobre o fato dele ser ‘Danny Jones, o amigo de Tom Fletcher’, um pequeno incômodo me surgiu. Danny a via como uma garota normal e legal, digna de se chamar pra sair. Fletcher me via como uma nerd retardada que não dá nem pra dar um selinho. Por que os dois não podiam simplesmente pensar igual?
Quer dizer... Não que eu queira que o Fletcher me chame pra sair... Eu só não quero ter uma imagem de idiota...
- Que... Bom, Sam! 
- Nada no mundo foi mais falso que esse seu “que bom”, Bela. O que há de errado?
- Nada, ora... E meu “que bom” foi verdadeiro, ok? Não fale mal dele! Estou feliz por você! Cara, é o Danny Jones, o SEU Danny Jones! Isso é o máximo! – eu estava sendo verdadeira agora, depois que meus questionamentos imbecis esvaíram-se.
- Sim! Eu quase morri quando ele me convidou... Nós vamos ao The Lamb amanhã, às sete. Olha que menino prendado! – gargalhou.
- Se fosse o Spencer, ia querer me levar no Fabric às duas. Da manhã. – gargalhamos um pouco mais.
- Mas estamos falando de um gentleman, Bela. Não de um perdido...
- E até parece que você quer um certinho...
- Ok, não quero. – rimos um pouco e logo em seguida, meu pai bateu na porta do meu quarto.
- Princesa, coloca o lanche da tarde, por favor? Acredito que todos nós estamos com fome.
- Já estou indo pai. – lhe sorri antes dele deixar o cômodo. – Urgh, ele acha que eu tenho cara de empregada. – reclamei, a fazendo rir. – Mas não tenho muita escolha... Tenho que ir, né. – dei de ombros, levantando-me da cama.
- Vamos lá, reclamona. Eu te ajudo. Estou com fome também.

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# Tom

Era Sábado e Angie estava aqui em casa pra passar o dia comigo. Eu tinha planos de pedi-la em namoro ainda hoje, mas a constante sensação de desânimo que essa ideia causava me fazia perceber que não era aquilo o que eu queria.
Mas isso não é segredo algum, certo? Qualquer um sabe que eu não sinto absolutamente nada pela Angie, a não ser tesão. Quero dizer, ela é uma mulher atraente e bem resolvida. E é uma pessoa agradável. Mas meus sentimentos por ela não passavam de coleguismo e atração. Apenas isto.
- O que foi? Você está olhando pro nada há séculos... Está no mundo da lua. – Angie disse sorrindo. A olhei, sorrindo de volta, enquanto ela sentava-se na cadeira que jazia em frente à escrivaninha branca. – No que tanto pensa?
- Pra ser sincero... Em nós. – quando eu disse, ela arregalou os olhos surpresa e alargou o sorriso.
- No que, exatamente? – Angie não conseguia disfarçar a felicidade. A julgar pelo seu olhar, qualquer um que não fosse cego ou não fosse o Danny perceberia o quão radiante estava. Isso tudo só porque eu falei que estava pensando em nós. Imagina quando eu a pedisse em namoro?
Pressupus que esse fosse o momento certo pra começar meu discurso completamente ensaiado. Ela estava no clima, e eu também percebi que tudo favorecia. Bati no espaço da cama vazio ao meu lado, indicando que ela viesse deitar comigo. Angie não demorou nem dois segundos para aconchegar-se ao meu lado e respirar profundamente o aroma impregnado em meu pescoço. Deu um pequeno beijo ali e eu limpei a garganta antes de começar.
Não me sentia nervoso nem nada. Era só falar o que estava ensaiado e pronto.
- Sabe, Angie... Estou gostando muito do que nós temos. Passar o tempo com você é sempre bom, nós temos essa química incrível e você é tão mais madura que as outras garotas... Talvez eu possa estar apressando um pouco as coisas, mas eu gosto de você e queria saber se você não gostaria de... – me endireitei na cama e a olhei profundamente. – namorar comigo.
- Own! – Angie abriu um sorriso enorme antes de pular em cima de mim e tomar meu pescoço em seus braços. A abracei de volta, pela cintura, sentindo o cheiro do meu xampu exalar dos seus cabelos louros recém-lavados. – É claro que aceito, amor!
Beijamos-nos apressadamente, despejando, em cada ato, boa parte dos que estávamos sentindo naquele instante. Minha mente já projetava os momentos futuros onde estaríamos nus sobre a cama, fazendo o que Angie sabia fazer de melhor; entretanto, meus planos foram frustrados conforme meu ouvido captou o som de batidas à porta.
Não deu nem pra chegar à parte de tirar as roupas...
- Entra. – murmurei, enquanto Angie saia do meu colo.
- Foi mal se eu estiver interrompendo algo, – Danny já foi se desculpando, com as costas escoradas ao batente da porta e os braços cruzados despreocupadamente – mas é que o Harry saiu com não sei quem, Dougie saiu com a Bela e eu vou... Sair com uma pessoa. Então passei aqui pra avisar.
- Er... Ok. Valeu. – Falei desconfortável.
Eu sou mesmo um merda. Acabei de iniciar um namoro e fico me incomodando com um anuncio idiota de que Dougie saiu com Bela. Mas é obvio que as coisas não vão mudar de uma hora pra outra... Agora eu preciso, pelo menos, fingir que não me importo. Não é como se eu nunca tivesse feito isso...

#


Seis e quarenta oito. Lá estava Danny sentado à mesa a espera de Sam. Ele estava nervoso e mal sabia por quê. Era apenas a Sam, não é mesmo? A nerd gostosa que tinha um papo legal e um jeito exagerado extremamente particular.
Oh, por Deus...
A quem ele queria enganar? Era óbvio que Sam era perfeita para ele. Mesmo sendo demasiadamente nerd, ela era o tipo de garota que ele gostava. E Danny tinha total consciência de que Bradley sabia exatamente o que era pênis.
Ele contava os segundos para ela chegar. Queria saber que roupa estaria vestindo, como estaria seu cabelo, o quão largo estaria seu sorriso...
Sentiu-se inseguro. E se Sam estivesse usando algo muito arrumado? Ele não estaria à altura. Vestia uma calça jeans comum, nem muito larga e nem apertada, uma blusa de abotoar aberta, quadriculada em tons de azul, por cima de uma outra branca de malha fina e gola "v". O tênis branco Adidas vestia seu pé, completando o visual não tão desleixado quanto o de costume.
"Sou mesmo ridículo!", pensou, preocupado. Quis voltar pra casa apenas para trocar de roupa e vestir-se apropriadamente, de forma a impressioná-la. "Ela nunca mais vai querer olhar na minha cara porque eu pareço um mendigo".
Os minutos se passavam devagar, a cada hora que ele olhava o relógio achando ter passado meia hora, tinha passado apenas dois minutos. Entretanto, quando se deu conta de que já a esperava por quase meia hora, desesperou-se.
"Ela não vem. É lógico que não vem! O que uma garota como ela ia querer com um loser como eu?"
- Desculpe a demora, Danny!
Quando escutou aquela voz, ele quase pulou de seu acento. Sam sentava-se sobre a cadeira a sua frente, esbaforida e um pouco descabelada. O rosto era coberto por uma maquiagem quase nula - talvez algo nos cílios e nas maçãs do rosto. Suas madeixas eram as mesmas, sem nenhum tipo de alisamento ou cachos falsos. A roupa era simplesmente incrível, e o deixou um tanto surpreso. Era casual o suficiente para combinar com ele, mas tinha um bom bocado de personalidade em cada peça que a vestia. Danny nunca imaginara que Sam usaria algo assim.
Ela estava linda. Definitivamente linda.
- Você está... Maravilhosa.
- Er... Obrigada. – sorriu timidamente. Timidamente? Desde quando Sam sorria timidamente? – Você também. Está me esperando há muito tempo?
- Meia hora.
- Meia hora? Mas nós marcamos sete horas e são... – checou no celular – Sete e vinte.
- Cheguei antes. – sorriu amarelo. – Eu tava ansioso.
- Eu também estava. Demorei porque Bela, ao invés de me ajudar com as roupas, apenas atrapalhou. Ela ficava cada vez me mostrando novas opções e eu fiquei ainda mais confusa.
- Bela estava com você? Pensei que Dougie estivesse com ela.
- É, ele estava lá também. Os dois iam sair depois.
- Hm... E... Foi ela quem escolheu a roupa?
- Basicamente sim.
- Ela fez um ótimo trabalho, então. – sorriu sem graça. Ele estava tão nervoso! – Vamos pedir a comida?
- Ah, sim, vamos.
Alguns minutos depois, os dois já comiam silenciosamente. E bebiam seus refrigerantes silenciosamente. E olhavam-se silenciosamente. Estava tudo tão silencioso e tenso que nem parecia 'Sam e Danny'. O que estava acontecendo com os dois?
Não se sabia quem estava mais nervoso. As mãos dele transpiravam sobre a mesa, as dela mexiam compulsivamente. Pequenas gotículas de suor começavam a surgir pouco a pouco na testa de ambos, e o silêncio incômodo continuava.

Era o quinto copo de água de Danny. Quanto mais ele sentia-se sem palavras, mais água pedia. "Ela vai achar que não to falando nada porque to com sede", era a ideia dele.
Já estavam há quase duas horas no restaurante e o máximo que conseguiram além daquela conversa inicial foi debater sobre o tempo, um diálogo que não ultrapassou cinco minutos. Não havia nada mais ridículo que aquele encontro. Jones sentia-se patético.
- Danny... Você está bem?
- Er... Sim, por quê?
- Está bebendo água como se não houvesse amanhã...
- Sede.
- Wow, mas que sede é essa?! Insaciável!
- Pois é.
- Quer saber? Isso está ridículo. – ela suspirou e Danny assustou-se com o comentário. – Por algum acaso não está gostando do encontro, Jones?
- Não! Não, eu estou adorando. Só estou com... Sede!
- Ah, está com sede? – perguntou ela, erguendo uma sobrancelha, em tom provocante.
- Sim...? – Danny respondeu incerto.
- Então deixa que a minha saliva cuida disso. – No segundo seguinte, suas bocas estavam, finalmente, coladas.
"WTF?!"
Era o que o cérebro dos dois conseguia processar. What-the-fuck?!

#

Para Harry, as coisas foram um tanto mais simples. Havia chamado Thalia pra sair. Os dois foram a um pub onde o pessoal da escola costuma ir sempre, Tigger. O local era composto por dois ambientes. O primeiro piso, do qual as pessoas usufruíam como um bar normal, sentadas em suas mesas para comer e papear; e o segundo andar, que funcionava como uma boate onde o pessoal mais jovem - abaixo dos vinte e cinco - costumava ficar. Judd estava embaixo com a professora de dança, numa mesa, enquanto a conversa fluía naturalmente. O primeiro beijo fora trocado num pequeno silêncio que surgiu entre um assunto e outro, e, desde então, se beijaram muitas outras vezes.
Quando o relógio marcava quinze para as dez, eles resolveram subir para aproveitar um pouco da boate, mas ficaram pouco por lá. Tempo o suficiente para trocarem beijos mais quentes, mas, mesmo apreciando a companhia um do outro, decidiram ir embora, pois o lugar estava muito cheio e Lia se dizia cansada.
Harry, que havia se apossado do mini Cooper naquela noite, a deixou em casa. Entretanto, assim que o carro foi estacionado em frente ao jardim frontal, a professora perdeu a vontade de descansar.
- Não quer entrar, Harry?
- Seus pais não vão se incomodar?
- Nunca mencionei que moro sozinha? – ela respondeu com outra pergunta enquanto desafivelava o cinto de segurança. Judd negou com a cabeça, pouco antes de tirar a chave da ignição e abrir as travas das portas.

- Gostei muito da sua casa. Quero dizer, é perfeita pra se morar sozinho. Exatamente do jeito que eu gostaria, se não morasse com aqueles três. – disse ele, a fazendo sorrir. – Na verdade, eu tiraria um detalhe ou outro de menininha, mas fora eles, eu moraria aqui sem problemas. – adicionou, escutando as risadas de Thalia em resposta.
- Que bom que gostou daqui. Pode me visitar mais vezes.
- Eu visitarei, pode ter certeza.
- Será sempre bem vindo. – disse ela, aproximando-se do rapaz que escorava suas costas no batente da suíte.
- Isso é ótimo. – Harry sorriu ladino, antes de envolvê-la nos braços e beijar-lhe a boca com extremo vigor. O beijo estendeu-se às caricias mais íntimas, e estas, por sua vez, precederam momentos de sexo maravilhosos para ambos.
Harry mal podia acreditar no quão boa Thalia fora, do mesmo jeito que ela sentia-se realizada, suspirando em deleite ao lembrar-se das cenas que acabara de viver. Sam estava certa quando dizia que Lia precisava de um homem... Seu humor não podia estar melhor. E Harry não estava muito diferente. Pra ele, Thalia tinha algo especial. Algo diferente que o fez querer voltar pra ela o mais rápido possível. Algo forte o suficiente pra o fazer pensar sobre como seria interessante construir uma história com ela.

# Bela

Pulei da árvore para minha sacada me lembrando de como era difícil fazer isso no início, quando eu fugia nas primeiras noites. Hoje em dia era tão simples...
Era por volta de quatro da manhã e eu estava pavorosamente cansada. Só o que eu queria era minha cama e nada mais. Por isso, levei o maior susto quando encontrei um corpo largado arreganhadamente sobre ela.
- Sam? – chamei, mas ela não respondeu. Devia estar no quinto sono, óbvio. – Saaaam! – balancei suas pernas, tentando fazer com que minha voz não saísse muito alta. Meu pai não podia nem sonhar em acordar. – Sam! – apelei para uns tapas.
- O QUE?!
- SHHHH! Tá louca?! – sussurrei brava.
- Foi mal... – abaixou o tom de voz – Nossa, que horas são? Eu tentei te esperar acordada, mas não consegui.
- Umas quatro e pouca.
- Queria te contar sobre mim e Danny... – ela sorriu maliciosa e eu soltei uma risada comedida.
- Depois você conta, a gente precisa dormir. Chega pra lá.
- Ok... Mas não me deixa esquecer.
- Você não esqueceria nem se aliens invadissem a terra e obrigassem a rainha a fazer favorzinhos sexuais a eles em praça pública.
- Certo.
- Boa noite.
- Boa noite, princesa.

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Segunda feira estava sendo extremamente tediosa. A única parte do dia que eu esperava que fosse ser legal seria o momento em que eu e Sam estudaríamos com Danny e Dougie. Quero dizer, teria todo aquele climinha entre Jones e Bradley, mas eu não seguraria a vela sozinha.
Eu esperava conseguir enrolar Danny pra que ele não percebesse que nós não estamos nem perto das gênias que aparentamos... Mas, cá entre nós, Jones não é alguém muito difícil de persuadir.

O tempo se arrastou até a hora mais esperada do dia, que, ironicamente, resumia-se em estudar.
- Ei, Sam, precisamos achar uma sala.
- Tem mil salas vagas, Bela. Inúmeras. Milhares. Milhões. – falou, exagerada como sempre – Podemos usar a sala de química mesmo, já que os meninos já estão lá.
- É, pode ser. – Dei de ombros, me pondo a caminhar junto a ela até o segundo andar. Os encontramos fazendo uma guerrinha de panos sujos, rindo que nem hienas e correndo pela sala.
- Vocês, por algum acaso estranho, são primatas subdesenvolvidos? – questionou Sam, assustada com a zona. – Vocês estão aqui pra limpar e não bagunçar mais, seus neandertais.
- A culpa foi do Dougie! – Tom apontou, rindo. – Ele que começou a usar o pano sujo pra bater no Harry.
- E como você e Jones se envolveram nisso? – eu quis saber, cruzando os braços autoritariamente, como se tivesse alguma moral.
- Eu e Danny rimos e eles começaram a bater na gente também. – Tom voltou a se explicar.
- E esses panos são nojentos, tá? – Danny mostrou o tecido podre a nós e eu tive que concordar.
- Eca! – Sam gritou fazendo careta. – Tira isso de perto de mim, Jones!
- Tá com medinho, é?! – ele começou a persegui-la com o pano. Um minuto depois estavam os dois correndo pela sala. – Deixa eu te limpar com o paninho, Sam, vem cá!
- Se você encostar isso em mim eu quebro um por um dos seus ossos, Danny! Não ouse! – ela continuava correndo.
- Ah, deixa disso, Sam! Vem cá, vem!
- Ih... Chamou pro cantinho! – Harry zoou. – Daqui a pouco os dois aparecem se pegando por aí...
De repente, fez-se um curto silêncio. Mas eu não aguentei a ironia do destino e caí na gargalhada, sendo seguida por Sam e Danny.
- Não foi tão engraçado assim o que o Harry disse. - disse Dougie, enquanto Judd nos olhava sem entender e Tom ria de nós.
- Que seja. – dei de ombros, tentando parar de rir para não dar bandeira – Limpem logo isso, nós precisamos estudar!
- É, e eu tenho que sair com a minha namorada ... – Tom adicionou, tornando a esfregar a esponja ensaboada no mármore da mesa.
Namorada?
- AH! Vocês estão sabendo da maior?! Tomzinho está namorando! Isso porque ele disse que ia ficar só no sexo sem compromisso... – bradou Harry, deixando Fletcher um tanto sem graça.
- Eu tenho minhas razões... – ele deu de ombros, arrepiando os cabelos desconfortavelmente.
- Começar um namoro por razões ao invés de emoções nunca é uma coisa boa, querido Thomas. – disse Sam com cara de sabia e Dougie concordou freneticamente.
- Eu gosto dela, ok? – Fletcher respondeu furtivamente, findando o assunto.
Eu ainda não tinha conseguido assimilar. Então Thomas Fletcher estava mesmo namorando? Ele estava gostando de alguém? Foi pior do que eu pensei. Eu senti vontade de... Esmurrar todo mundo, principalmente a namorada dele.
Céus, onde eu vou parar desse jeito?

Para de palhaçada, Johnson. Ele não é nada seu. N-A-D-A. Nada além de um amigo dos seus amigos, porque nem mesmo seu amigo ele é. Deixe de ser ridícula.

Durante todo o dia, me senti mal. Meio deprimida e mal humorada, e, por mais que meu cérebro tentasse arduamente convencer-me de que os motivos para meu repentino desapontamento eram apenas os efeitos do ciclo feminino - já que eu já acordei meio emburrada -, eu sabia muito bem qual era a real razão para tamanha consternação. E me odiava mais a cada segundo por isso.

Passei aquela semana inteira saindo com Florence e Spencer pra lugares mais barra pesada, pra ver se esquecia a angústia que me assolava. Funcionava enquanto eu estava bêbada e drogada. Fora isso, tudo ainda estava uma merda.
Sam estava muito ocupada, me abandonando pra sair às escondidas com Jones. Angie também não deu mais as caras. PJ estava viajando com Maxxie para os Estados Unidos. Meu irmão continuava passando mais tempo fora de casa do que dentro. Lia só queria saber de sair com Harry pra todos os cantos. Chris não largava aqueles novos amiguinhos. Quanto a Dougie, eu me distanciei profundamente dele durante esses últimos dias. Nós mal nos falamos. Aliás, as únicas pessoas que conviveram direito comigo, nessa semana, foram Flor e Spencer – com quem eu tenho ficado frequentemente. Não sei se é por carência, não sei se é frustração. O que sei é que sempre que me dou por mim, estou aos beijos com ele em algum canto.
O pior é que... Andei tendo momentos estranhos envolvendo ninguém mais, ninguém menos que Tom Fletcher. Urgh... Não quero nem lembrar. Aquilo só serviu pra embaraçar ainda mais a minha mente.
Resumindo: descobrir que Thomas está namorando fez da minha vida uma merda, e o fato disso ter acontecido me amedrontava intensamente.
O que há de errado com Bela Johnson?!

# Tom

Joguei as costas pra trás, caindo na cama completamente exausto.
Angella Shelsher.
Não era pra esse nome me irritar tanto.
Uma semana. Apenas UMA SEMANA e já me arrependo amargamente por ter iniciado essa merda. Angie era legal. Era. Ela era uma pessoa aturável enquanto ficante.
Mas como namorada?
Céus.
Nem mesmo minha mãe gosta dela.
Como alguém é capaz de não gostar de música?! DE MÚSICA! É um crime! Tudo que ela sabe escutar são aquelas porras eletrônicas que não acabam nunca, que ninguém canta, ninguém toca, não tem nexo algum! Ela não me deixa ensaiar com os caras porque "isso não vai nos levar a lugar algum" e "nós podemos ficar transando loucamente no quarto ou então, vendo um filme de amor". Ah, porra!

Sinceramente? Já estou até cansado de comê-la. É sempre a mesma merda, nunca muda, nunca sinto nada diferente... E isso porque só tem UMA SEMANA.
Eu, definitivamente, não nasci pra namorar.

Tubo bem, posso estar sendo um pouco cruel demais e me deixando levar pelos acontecimentos momentâneos... Eu e Angie acabamos de brigar exatamente pelo fato dela não me deixar ensaiar, então talvez eu possa estar generalizando as características do nosso recém-namoro. Mas, mesmo assim, as coisas andam péssimas pra mim. Principalmente depois do que vem acontecendo na escola esses dias.

Flashback on (dois dias atrás, Terça-feira)

Estávamos entediados no intervalo, sentados em nossa mesa de sempre. Senti falta da presença de Bela e automaticamente me repreendi por aquilo. Eu devia evitar pensar nela...
- Tom. – Sam me chamou, tocando em meu braço. – Acho que a Bela está lá no telhado. Pode ir até lá e chamá-la, por favor?
- Por que eu e não o Dougie, ou o Harry, ou o Danny, ou você? – questionei, não por falta de vontade de ir, mas por curiosidade e desencargo de consciência.
- Porque eu estou morrendo de preguiça de subir até lá e decidi pedi pra você, ora. Mas se não quer, tudo bem, eu peço ao Dougie.
- Ah não! Eu tava quase dormindo aqui. – Poynter levantou o rosto, que estava apoiado nos braços dobrados sobre a mesa, com o cenho franzido em protesto.
- Ai, bando de preguiçosos... – ela reclamou.
- Tudo bem, eu vou. – Falei, já me levantando sem demonstrar animação. Mas eu estava meio pilhado, na real.
Apressadamente, rumei às escadas que davam acesso ao terraço e, por subir com uma rapidez desnecessária, resolvi tomar o fôlego que me faltava antes de abrir a portinha.
A encontrei completamente deitada no chão de cimento, onde batia a sombra da caixa d'água. Os braços meio abertos, as pernas desajeitadas – que acabaram por me conferir uma boa (e rápida, já que ela logo percebeu minha presença) visão de sua calcinha. Bela encarava o céu com extrema suavidade. Ela estava tão linda ali que lamentei internamente quando ela desviou a atenção para mim.
- O que faz aqui? – sua voz ressoou rouca e cansada.
- Eu quem deveria fazer essa pergunta... O que a filha perfeita do diretor faz no terraço, matando aula? – caminhei até ela e sentei-me ao seu lado, sem deixar de observar seu rosto por um segundo sequer. – Eu tenho mais motivos que você pra estar aqui.
Ela suspirou.
- Incrível como você sempre diz a coisa errada. – Bela ergueu as costas, pondo-se sentada ao meu lado. Olhou-me exaustivamente antes de tomar mais fôlego que o normal para dizer – Estou tão cheia de você, Thomas... Tão cheia! – Aqueles múrmuros estranhamente sôfregos me pegaram completamente desprevenido. – Cheia das suas instabilidades irritantes! Numa hora você é... Um cara maravilhoso, na outra, um completo idiota! Você não pode se decidir?! Não pode se decidir pra que eu me decida também? Mas que inferno! – esbravejou ela, levantando-se. Senti-me mal.
- Bela...
Mas ela não quis me ouvir. Ela nunca quer. Tem essa porra de mania irritante de sair andando e cagar pra o que quer que eu tenha a dizer. Ela me tirava do sério! O que foi que eu fiz de tão errado? Eu não sou tão idiota assim com ela.
Decidi ir atrás dela em busca de explicações mais claras sobre o que ela quis dizer com tudo aquilo. Eu queria saber qual foi a merda da vez, porque não fazia ideia. Nós nem ao menos temos nos falado!
- Bela! – Segurei seu braço no final da escada. Ela me olhou quase entediada. Nada era mais ofensivo que aquela cara – O que foi que eu te fiz dessa vez?
- TUDO! – exasperou-se. – Você fez tudo errado como sempre faz. – uni as sobrancelhas em confusão e indignação – Não adianta me olhar com essa cara, Fletcher.
- Eu não te fiz absolutamente nada! Você simplesmente parou de falar comigo por algum motivo qualquer e...
- Você também tem me tratado diferente, ok? E se eu me afastei, foi porque você foi realmente um idiota comigo, tendo aquele tipo de pensamen-
- Ainda aquela história do banheiro?!
- Sim! Me machucou, tá? – rolei os olhos e ela me olhou colérica. – Quer saber? Vá achar alguém pra perturbar, Fletcher. Por que não vai atrás da sua namoradinha nova? Ela parece ser bem disposta a te aguentar. Vai lá com ela e vê se me deixa em paz... – aquilo quase fora como um pedido.
Bela soltou-se de minha mão e terminou os poucos degraus que faltavam. A segurei uma última vez, num ímpeto, antes que ela cruzasse a porta que dava no corredor.
- Isso te incomoda? – perguntei, me agarrando à ilusão de que ela diria sim. Claro. Só em outra galáxia, talvez.
- O quê? – Ergueu uma sobrancelha em total confusão.
- A minha namorada te incomoda? – eu não sei o que deu em mim para dizer aquilo. Eu devia saber que ela me odiaria ainda mais.
Bela se deu ao trabalho de gargalhar o mais alto que pode. E da forma mais falsa e cruel possível.
– Fletcher, se enxerga! – rosnou amarga. – Meus sentimentos para com esse namoro não vão muito além da indiferença e falta de interesse. Eu não perderia meu tempo me angustiando com algo tão sem importância. – seus olhos transbordavam frieza e indiferença. Mas havia algo por trás daquilo tudo. Algo que não apagou o resto de esperança que eu guardava.
Pera aí... Que porra eu tava pensando?! Esperança? Esperança pelo que?! Eu só posso estar maluco. Numa dimensão paralela. Era isso. Aquela merda de terraço era uma outra dimensão onde se passavam coisas bizarras dentro de mim.
O baque arranhado e acompanhado de eco da porta se fechando me arrancou dos devaneios, anunciando a saída agressiva de Bela. Eu também precisava sair dali. Precisava entender o que acabara de acontecer, porque foi tudo muito, MUITO confuso. Aquela escadinha claustrofóbica estava me sufocando.

Flashback off

Na quarta feira, ontem, discutimos novamente, quando nos encontramos na saída dos vestuários, sem nenhum motivo compreensível. Ambos falávamos coisas as quais não entendíamos, nada fazia nenhum sentido. Era apenas uma discussão idiota com muitas razões implícitas.
E eu queria desvendar todas essas razões. Eu necessitava saber o que ela pensava. Se aquilo significava pra Bela Johnson o mesmo que significava pra mim.
Merda! Estava tudo tão confuso que eu mal conseguia saber no que pensar!
O pior e mais incompreensível dia fora hoje de manhã, entretanto. Fora como a chave de ouro pra que eu me sentisse ainda mais perdido no meio desses desentendimentos.

Flashback on (horas antes)

A movimentação nos corredores estava agitada, mas eu não parecia estar ali. Estava tão alheio e perturbado, que só conseguia encarar o chão e mais nada.
Péssima ideia.
Quase colidi com a pessoa menos indicada para isso. Bela freou bruscamente antes de esbarrar de frente comigo e me olhou impaciente, como vinha fazendo toda vez que nossos olhares se cruzavam. Ambos calados, seguimos nossos caminhos, mas, minutos depois, me peguei, intrigado, pensando no porquê dela ter ido  na direção contraria de onde eram as salas. Nós tínhamos aula agora, não era pra ela ir naquela direção.
Ainda não tinha me acostumando com a ideia de que Bela andava matando aula nos últimos dias.
Dei meia volta, disposto a descobrir para onde ela estava indo. A encontrei, algum tempo depois, na parte de trás da escola, onde estava o grande gramado com árvores enormes e antigas, próximo ao pátio, onde muitas pessoas costumam passar seus intervalos quando queriam alguma tranquilidade. O gramado era o único lugar relaxante naquela selva que chamavam de escola. Raramente aparecíamos lá.
- Ah, não é possível. – ela riu sem humor. – Não pode me deixar em paz um dia sequer?
- Não. Eu só quero... Entender o que está acontecendo. – suspirei derrotado e Bela engoliu seco, guardando na mochila, com pressa, algo que se escondia em suas mãos. Mas, sem sucesso, deixou o objeto metalizado cair. Apurei a visão, porque não estávamos muito próximos.
Um isqueiro.
Isqueiro?
- O que tá fazendo com isso? – apontei.
- Não é da sua conta, Fletcher. Eu já te pedi antes e vou pedir de novo. – o tom cansado e hostil não lhe abandonava – Pode me deixa em paz?
Subitamente - ainda não sei exatamente por que - me senti revoltado.
- Porra, O QUE EU TE FIZ?! Eu não consigo entender por que tantas farpas! Por que tanta hostilidade, tanto desprezo?! Mas que merda, Johnson, quando foi que tudo começou a mudar?!
Ela pareceu pega de surpresa. Não esperava aquele tipo de reação. É claro, nem eu mesmo esperava. Foi completamente impulsivo.
- Eu... N-não sei. – recuou. – Eu vou... Sair daqui.
- Pare de fugir, Johnson, converse como a pessoa madura que você faz questão de ser! – a segui e segurei seu braço, fazendo-a olhar pra mim.
- NÃO ME SEGURE DESSE JEITO, FLETCHER, EU NÃO SOU-
- O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! O QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO COM A MINHA FILHA, SEU DELINQUENTE? – a voz rude e cortante do Diretor Johnson invadiu nossos ouvidos com fúria. Bela e eu olhamos, ao mesmo tempo, assustados, para ele que parecia prestes a explodir, a julgar pela veia saltando na testa, os punhos cerrados e os olhos praticamente flamejando em minha direção. – Tire suas mãos da minha filha. – seu tom nunca me fora tão ameaçador. Obedeci imediatamente, engolindo seco. Ele podia me expulsar, mandar me prender, me matar apenas por tocar em sua amada herdeira. Eu não duvidaria de nada disso. – Nunca mais ouse tocar um dedo nela ou não vou ter pena de você, marginal. – rosnou, o rosto contorcido em ódio. – quero os dois na minha sala agora.

– Pai... – a voz da Bela foi ouvida pela primeira vez, já na diretoria, vacilante. Ela foi a primeira a se pronunciar. – Thomas não fez absolutamente nada. Não tire conclusões precipitadas.
O diretor continuava impassível.
- Eu sei o que vi e não gostei nada. O aquele ele estava fazendo com você?
- O Fletcher queria falar comigo, era algo importante para ele, mas eu tava nervosa... – Mantive-me quieto. - Por isso gritei, ele não tem culpa. Não precisava falar daquele jeito, pai-
- Não venha me dizer o que fazer. – a cortou grosseiramente e ela recuou. Aquilo me incomodou. – Fletcher. – dirigiu-se a mim e eu o olhei firmemente. – Está suspenso. Esta é a terceira vez no ano. A quarta é expulsão, direto.
- Suspenso por tocar na sua filha?! – ri incrédulo. – Que merda é essa?
- Não questione minha autoridade, – rebateu ele, mais frio que um iceberg. – ou terá problemas maiores. Isso é pra você aprender como se trata uma menina como a minha filha.
- Pai! O senhor está sendo irracional e injusto! Ele não fez nada de errado! Se o Fletcher for suspenso, eu não aceito que eu não seja. – disse ela, decididamente. Meus olhos arregalaram-se no mesmo instante.
- O q-que? – o diretor parecia à beira de um infarto.
- Pode assinar minha suspensão, diretor. – Bela sibilou, dando ênfase na ultima palavra. – Se ele está suspenso, eu também estou.
- Não farei isso! – bradou Sr. Johnson, completamente consternado. – Olha que está dizendo, minha filha, manchará um histórico perfeito de anos por uma imbecilidade de um moleque-
- A verdadeira questão aqui, pai, – ela o interrompeu, sem medo – é que não houve imbecilidade alguma da parte dele. Por que é tão difícil entender que ele apenas tocou meu braço?
- Você gritou!
- Não tinha nada a ver com isso! Dá pra entender ou tá muito complicado?! – ela estava quase aos berros.
- Não fale com essa petulância com o seu pai. – o diretor apontou o dedo em sua direção, falando com ódio.
- Você deveria ao menos respeitá-la da mesma forma. – intrometi-me, completamente incomodado.
- CALE A BOCA, NÃO DIRIJA A SUA PALAVRA SUJA A MIM, THOMAS.
- NÃO FALE ASSIM COM ELE! – Bela bradou, levantando-se da cadeira. Eu estava mesmo surpreso. Mesmo. E, obviamente, o adorável diretor também estava. - Vem, Tom. Vamos sair daqui. – ela me puxou pela mão.
E me chamou de Tom.
Ela me chamou de Tom.
Eu não deveria estar tão absurdamente feliz com isso.
- Você está fora de si. – disse a seu pai, antes de fechar a porta.

- Você não... Precisava ter me defendido daquele jeito e ter brigado com seu pai.
- Odeio injustiças. – murmurou, soltando sua mão da minha. – Não me procure mais, Fletcher. Por favor.

Flashback off

Odiei-me por ter me sentido tão desolado com seu último pedido. Odiava-me cada vez mais por ter feito o papel de donzela injustiçada, que precisa de alguém valente pra tomar suas dores e defendê-la. Bela deve ter me achado um babaca, maricas!
Odiava-me ainda mais intensamente por ter quase certeza da razão de minhas confusões a respeito de Bela. Odiava-me por ter começado uma porra de namoro chato e sem fundamentos e não ter adiantado de nada.
Eu, Tom Fletcher estava gostando de uma... Nerd. Eu tinha que me odiar muito.

- Filho? – a voz da minha mãe foi como um casaco num dia frio. – Ainda acordado?
- Sim...
- Posso entrar?
- Claro que pode, mãe. – sentei sobre a cama, escorando minhas costas na cabeceira e cruzando os braços na frente do peito.
- Está tudo bem, Tom?
- Sim.
- Não parece... – sorriu maternalmente, sentando ao meu lado. Senti suas mãos acariciarem minha cabeça. – Eu te conheço, você sabe.
- Nada está bem, pra falar a verdade. – confessei suspirando.
- Imaginei. Sua cara não é das melhores. Algo a ver com Angie?
- Er... Também. Ela não é... Como posso dizer?... – gesticulei tentando ser expressivo e minha mãe franziu o cenho.
- A menina certa pra você? – sugeriu tentativamente.
- É. Ela não está nem perto de ser.
- Hm... Pude perceber que vocês dois não combinavam muito... Angie deve ser mesmo boa na cama pra te fazer até pedi-la em namoro! – comentou risonha. Eu adorava o sorriso da minha mãe. Era tão cativante e contagiante...
Ri baixo.
- Ela é boa. – sorri ladino, recebendo um tapa pesado no ombro. – Que foi? Só estou sendo sincero. – rimos, nos aconchegando melhor um ao outro – Mas não foi por isso que começamos a namorar... Não sei se quero falar disso.
- Tudo bem. Mas talvez Dougie tenha deixado escapar alguma coisa... – ela comentou vagamente e eu abri a boca, incrédulo.
- Dougie é um filho da puta, fofoqueiro! Não sei por que o escolhi como confidente! – reclamei. – O que ele disse?
Minha mãe ria comedidamente.
- Nada demais. Apenas que te achava meio burro por começar um namoro com a garota errada...
- Ele não disse só isso. – afirmei, certo.
- É. – ela riu. – ele disse que a garota certa pra você era uma tal de... Como é mesmo o nome dela? – olhou pro teto tentando lembrar.
Seria muito vergonhoso se eu falasse?
- Bela Johnson? – arrisquei, e minha mãe me olhou com um sorriso perspicaz.
- Essa mesmo. – alargou o sorriso. – Você está apaixonado por ela ou ela é quem está louca por você?
- Er... Nenhum dos dois. Eu só... Você sabe... Eu gostaria de...
- Já entendi, já entendi. Tenho quarenta e sete anos, Thomas, sei das coisas.
- O que quer dizer com "sabe das coisas"?
- Filho. Você começou um namoro para esquecer essa menina. Isso é uma coisa tão... Adolescente! – riu. Dougie era um filho da puta. Contou tudo pra minha mãe, tenho certeza! – É tão bobo... Por que não facilita logo sua vida e fica com quem você realmente quer?
- Não é tão simples. – rebati categórico.
- Ah, não? E por quê? – seu tom era descrente e zombeteiro.
- Ela é muito nerd, mãe. Ela é... – eu não soube como completar, e nem precisei.
- Oh... Então é isso. – ficou séria. – Preciso mesmo dizer o quanto isso é errado?
- Não, mãe, eu já tenho uma noção. – rolei os olhos desconfortavelmente
- Querido, você pode descobrir nela o mesmo que descobriu em si mesmo, já pensou nisso? Pode ser, pra ela, a válvula de escape que ela tanto precisa pra ser quem ela realmente quer ser. Nunca se sabe, não é? Mas não é certo julgá-la dessa forma. Você não gostou quando foi com você. – Advertiu, lembrando-me de uma época que eu não queria lembrar – Ser nerd é o de menos, Tom. O que importa são os valores. O legado que a pessoa deixa. E, pelo amor de Deus, meu filho, quando vai deixar de ser imaturo e superar essa historinha antiga?
- Mãe, é complicado! Abalou meu ego... Foi um ano terrível.
- Eu sei, eu sei. Mas você não pode refletir toda essa insegurança sobre outras pessoas. Tenho certeza que Bela Johnson poderia ser minha nora agora, se não fosse essa sua bobeira.
- Eu não teria tanta certeza... Ela é muito irritante mãe. Não dá pra sacar qual é a dela.
- Sinto que você está obstinado a descobrir.
Sorri. Ela sabia.
- Estou.
- Faça o que é certo, filho. Termine com Angie, conquiste essa garota e traga-a aqui, porque eu quero saber quem é a beldade que fez meu filho ficar todo abobado.
- Não estou abobado! – reclamei.
- Ok, ok... Desculpe. Mas você me entendeu? Vá lutar pela sua garota.
- Mãe, está falando como se ela fosse, sei lá, o grande amor da minha vida. – ri com ironia, tentando ser reticente.
- E quem sabe não possa ser? – sorriu sonhadora. – Paixões na adolescência são arrebatadoras e costumam ser inesquecíveis. Eu e seu pai nos conhecemos no colegial e nosso amor cresceu tão lindo e forte que nada nunca abalou nosso relacionamento... – suspirou apaixonada. Minha mãe era uma romântica incurável – Estou dizendo: os amores da adolescência são os melhores, se bem cultivados. E, se tem uma coisa que seu pai te diria, era: não perca tempo! Namorar quem a gente gosta é uma delícia, pare de ser medroso!
- Tudo bem, acho que você se empolgou um pouco, mãe. – rolei os olhos. – Vou penar nisso, tá? Mas meu lance com a Bela nem é tanta coisa assim... Ela só é bonita e-
- Angie também é.
- Eu quis dizer REALMENTE bonita. Ela é... Incrível.
- Vou dormir pra não encher seus ouvidos. – disse ela em tom de zombaria, enquanto plantava um beijo na minha testa. – Boa noite, filho.
- Boa noite.
- Eu te amo.
- Também te amo. – respondi, já me deitando na cama do quarto de hóspedes. Agradeci mentalmente por não ter que ir à escola amanhã. Eu não sabia se estava mesmo suspenso, até porque não levei papel nenhum pra casa, mas achei melhor não dar as caras por lá depois de toda a bagunça que se encontrava na minha cabeça.
E eu sabia que um tempo com minha mãe esclarecia algumas coisas em minha vida.

# Bela

Acordei, na sexta, com telefonemas de Sam. Apalpei a mesa de cabeceira em busca do aparelho que tocava ensandecido e acabei o derrubando no chão. Continuei a apalpar às cegas o espaço em meu alcance até conseguir finalmente pegar o celular.
- Alô?
- Você tem alguma noção de que eu te liguei VINTE E DUAS vezes e mandei TRINTA E SETE mensagens?! VOCÊ CAGA PRA SUA MELHOR AMIGA, JOHNSON, EU NEM SEI POR QUE AINDA ME PREOCUPO COM UMA ORDINÁRIA SEM CORAÇÃO FEITO VOCÊ! – escandalosa como sempre, Sam berrava do outro lado da linha. – São ONZE DA MANHÃ e você ainda não apareceu na escola. Vai explicar o que houve ou eu vou ter que ter uma conversinha com Hitler pra ele me ensinar umas técnicas de tortura?
- O Hitler já morreu, Sam... – falei com o pouco de voz que ainda habitava em minhas cordas vocais, completamente sem saco pra falar ao telefone.
- EU LIGO, ME IMPORTO COM VOCÊ, E VOCÊ AINDA TEM A AUDÁCIA DE FALAR DESSE JEITO COMIGO, COMO SE EU FOSSE UMA NINGUÉM, UMA INIMIGA PRA VOCÊ?! É ASSIM, JOHNSON? QUER SABER? EU NÃO MEREÇO ISSO! VÁ SE FODER! TCHAU! – desligou. Eu simplesmente joguei o telefone no chão novamente voltei a dormir.
Mais tarde, quando realmente acordei - por volta de uma da tarde - vi o tanto de ligações perdidas e mensagens que tinham ali. Praticamente todas de Sam (havia algumas em que ela só mandava pontos de exclamação, emoticons de fezes, vacas, galinhas, cobras, cadelas e outros animais, pontos de interrogação, palavrões, etc). Aliás, a única que não era dela era uma de Chris, que avisava sobre um evento hoje no Aura. Fiquei surpresa ao ler.
"Banda Freakiedeakie hoje, oito horas, no aura. Eles só tocam covers de bandas fodas... Você vai adorar. Achei a sua cara. Topa? Descolei entradas gratuitas pra nós, óbvio! Responde logo x"
Sorri animada. Já amei pelo nome. Realmente, a minha cara! O pessoal do Fabric costumava me chamar de Freaky Deaky mesmo. Não sabia que o Aura abrigava esse tipo de evento...
"Ó.B.V.I.O. que eu tô dentro. Não precisava nem perguntar, camarada. Já falou com a Sam?"
Ele respondeu quase que imediatamente após eu tê-lo enviado a mensagem.
"Falei. Ela vai também, claro"
"Ok! A gente se vê mais tarde, então! Xx"
Assim que enviei, escutei o barulho do carro do meu pai sendo parado na garagem.
Apressei-me em fingir que estava estudando, afinal, com toda certeza ele tinha percebido que eu levei a sério a história de suspensão.

Ao contrário do que eu pensava, meu pai nem mesmo veio falar comigo - o que eu achei muito bom. Não estava afim de ter mais uma conversa tensa e fingir ser compreensiva e resguardada. Eu nem ao menos o queria ver tão cedo.

O dia se arrastou até a hora de começar a me arrumar. Hoje eu teria que sair mais cedo por conta do horário do show, e eu usaria a mesma desculpa de sempre. "Pai, vou dormir na casa de Sam. Preciso de um tempo com ela e vou aproveitar pra pegar a matéria que perdi hoje".
Em pouco tempo eu já me encontrava arrumada, na porta da boate.
- Wow! Alguém caprichou hoje! – Jeremy, que estava junto com Spencer, elogiou, me fazendo virar para encará-lo.
- Ah, valeu, Jeremy. – sorri brevemente. – Hoje é um dia especial. – dei de ombros. Vai que o vocalista se apaixona loucamente por mim? Quero estar linda pra ter chances. – Brinquei, vendo uma careta surgir no lugar no rosto entediado de Spencer.
- O vocalista teria que concorrer comigo, páreo duro. – ele comentou.
- Você o conhece? – eu quis saber.
- O vocalista? Não, não... – deu de ombros. – Mas ele tem que ser muito bonito pra concorrer comigo, senão é injustiça, coitado.
Rolei os olhos, o escutando rir da própria piada.
- Bela Johnson. – dei meu nome ao segurança prado com cara de paisagem na porta.
- Ah, sim. Pode entrar, senhorita Johnson. – ele me lançou um sorriso curto.
- Ei, por que ela entra tão fácil? – Jeremy questionou, risonho.
- Você sabe que meu nome tem poder, não sabe? – pisquei antes de entrar.
Wow, estava cheio! Andei por ali, cumprimentando alguns conhecidos, e demorei pouco até achar PJ.
- Oi, Bela! Tudo certo? – me abraçou. – Chegou em cima da hora! Já está pra começar! Ah! A Angie está aí, quer falar com você.
- Certo... Me arranja um baseado? Só de olhar pra sua cara me deu vontade. – ele gargalhou, enfiando a mão no bolso e me entregando um saquinho com um pó esbranquiçado.
- A boa de hoje é cocaína. Mas cheira pouco, você não tá acostumada!
- Tudo bem. – dei de ombros, levando o saquinho até o bar, onde eu teria onde sentar e ter algum apoio.
- Olá mocinha. – Flor chegou, apertando minhas bochechas. – Vai cheirar? – perguntou sorrindo. – Quer ajuda?
- Não precisa, sei como fazer, Flor. – rolei os olhos, a fazendo rir mais que o necessário. Eu não queria parecer uma idiota iniciante.
- Então tudo bem. Ei, cara! – chamou o barman com alguns acenos. – Quero uma cerveja. Duas, na verdade. – pediu.
- Flor... – a chamei, assim que cheirei a primeira carreira, um pouco desastradamente, sentindo minhas vias nasais arderem – Viu o Chris?
- Vi sim. Ele tava com uns amigos. São todos muito gatinhos... – Comentou maliciosamente. – E, se eu pudesse, roubava aquele namorado da Angie pra mim. Ele é bonito demais pra ela! – Flor estava dando uma de Sam. – Veja bem, não estou chamando minha amiga de feia. Mas aquele namorado dela a deixa parecer sem sal, de tão lindo... E tem um outro que é amigo dele... Meu Deus do céu. Nunca vi um grupo de amigos onde todos são deuses. Você já viu?
- Hm... Sei lá. – dei de ombros. – Acho que sim. – respondi sem dar real atenção. Flor estava totalmente chapada... – Vou andar por aí e ver se acho Sam ou Chris. – beijei sua bochecha e saí.

No meio do caminho, percebi que as pessoas se eriçaram. O Show havia começado e... Nossa. Os caras eram bem legais. Não bonitos, mas tinham uma pinta legal. Bem do tipo que dá pra ficar. “Nem feio, nem bonito, mas simpático”. Todos eram mais ou menos assim. O baterista era o mais bonito, tinha um belo par de olhos verdes que eram tão brilhantes que, mesmo estando longe, não pude deixar de reparar. Eram cinco caras. Um no baixo, um no piano, dois na guitarra e o baterista. O pianista e o baixista, pelo visto, eram os cantores também.
Quando prestei atenção nos acordes da primeira música, quase surtei. Eles abriram, ironicamente e em grande estilo, com Cocaine, do Érico Clapton. Eu amava aquela música.

- Bela! – Sam chegou perto de mim no meio da musica. – Eles são bons, né? Tocam bem! – percebi que ela já tava meio bêbada. – Que bom que te achei, não queria ficar o show todo sozinha.
- Você ia acabar arrumando alguém. – comentei certa.
- É, eu ia.
A música estava ótima, o público tava adorando - e eu também. Nas últimas vezes em que ele repetia "Cocaine", deixou a plateia cantar em coro, o que saiu mais legal que o esperado. Eles eram mesmo bons. A música seguinte era Smoke on the Water do Deep Purple, que foi solada divinamente bem. Depois dessa, a gente curtiu Livin' on a Prayer e uma seção maravilhosa que incluía The Beatles, Queen, Joe Cocker, Aerosmith e, nossa, muitas outras bandas boas. Eu me acabei ali. Minha garganta ardia de tanto gritar. No final de Twist and Shout, o baixista anunciou uma breve parada antes de fecharem com as três músicas finais.
Aproveitei pra arranjar algo pra beber, eu tava praticamente lisa.
- ELES. SÃO. DEMAIS. – Sam berrou roucamente.
- MUITO. – concordei com a mesma precariedade nas cordas vocais. – Preciso de álcool, vamos lá no bar! – a puxei pela mão, mas, no caminho acabamos cruzando com Angie.
- ACHEI VOCÊS, NOSSA! – ela sorriu animada. – Antes que eu as perca, fiquem exatamente aqui paradas, vou chamar meu amorzinho pra apresentar pra vocês.
- Er... Pode ser no bar? A gente te espera lá! – Sam sugeriu. – A gente tá com cede, e aquele carinha ali – apontou pra um ruivo bonitinho. – Está me querendo, eu sei disso. – argumentou e Angie riu.
- Tudo bem, mas não saiam de lá. É um parto pra achar vocês duas aqui. – falou, antes de se afastar.
Dois minutos depois de chegarmos ao bar, Sam já estava aos beijos com o ruivinho. Sem exageros. Foram mesmo dois minutos. Eu não sei como ela consegue. Pelo visto, estava matando a cede com a saliva dele.

# Tom

- Cara... Esses caras aí... São fodas. – Danny comentou exasperado. Ele já tava meio bêbado.
- ELES SÃO DEMAIS. – Harry bradou bem no meu ouvido. Quis matá-lo.
- Eles tocaram Don't Stop Me Now tão fodasticamente bem que eu... Fiquei com inveja. – disse Dougie, cabisbaixo.
- A gente pode tentar, um dia. – dei de ombros. – Mas esses caras aí são demais mesmo. – concordei.
- E aí, o que acharam? – Chris se aproximou, abraçando a mim e a Dougie pelos ombros.
- Foda. - Harry respondeu por todos.
- E ainda não acabou! – Chris adicionou, excitado com a informação. – Ah! Lembrei! – sorriu ladino – Sabem aquelas amigas minhas que eu disse que eram as mais sensacionais? Estão bem ali no bar. – Apontou pra trás, como se a gente pudesse ver alguma coisa – Vou apresentar vocês a elas.
- Oba! – Harry exclamou maliciosamente, me fazendo rir.
- Amor! – não sei de onde Angie surgiu, só que eu queria mais alguns minutos de paz. Ela mal tinha se afastado! – Vou apresentar vocês às minhas nerds falsas! – ela riu.
- Eu já estava indo fazer isso, Angie. – Chris informou e ela sorriu, assentindo. Segurou minha mão e me guiou até o bar, junto com os caras e nós paramos perto de onde uma garota com umas pernas que... Puta que pariu. Não vou nem comentar sobre a bunda. Ela era perfeita, pelo menos de costas, e segurava uma garrafa se Jose Cuervo distraidamente. A outra, ao lado dela e também de costas pra nós, era engolida por um cara não muito alto, que deixava seus cabelos desgrenhados de tanto passar a mão ali.
- Puta. Que. Pariu. – Escutei Dougie sussurrar, com a cara repentinamente pálida e inexpressiva.
Não deu tempo de perguntar "O que foi". Angie me cortou com sua voz animada:
- Gente, essas são minhas nerds fajutas preferidas. Aquela ali que eu não vou interromper é a Sam e essa é a... – a menina com o Jose Cuervo virou-se para nós – Bela.

# Bela

-...Bela, esse é o Tom, meu namorado, esse é o Danny, esse é o Dougie e esse é o Harry. – eu não respirava. Ninguém respirava. Ninguém acreditava. – Que sorte conseguir apresentar vocês uns aos outros hoje! Estou tentando há dias! – Gargalhou sozinha. – Gente... Que caras são essas? Parece que vocês viram um espírito!
Foi então que a ficha caiu. Depois de tantos segundos encarando aqueles quatro pares de olhos arregalados sobre mim e Sam - que já tinha interrompido a pegação-, depois de tantos segundos mal conseguindo respirar ou raciocinar, a ficha finalmente caiu.
E eu saí correndo. Corri, corri e corri. Mas eu sabia que apenas um deles viria atrás de mim. E veio. Só parei de correr sua mão envolveu bruscamente meu braço.
Ofeguei profundamente antes de criar coragem para olhá-lo. Aqueles globos cor de mel me encaravam com um misto de sentimentos que eu não era capaz de desmembrar e compreender. Senti-me ameaçada por eles. A luz vermelha gritava sobre minha cabeça.
Nos encaramos por tempo indeterminado, nenhum dos dois parecia saber o que falar. Eu não tinha reparado que estávamos quase fora de Aura.
- Eu não... – ele balbuciou. O maxilar trancado como se estivesse com raiva. – Sei nem o que pensar...
- Você não precisa pensar em nada disso, Fletcher. Nós não temos nada a ver um com o outro. – contra-ataquei.
- Sim, nós temos! Eu pensei que... Fossemos amigos!
- Podíamos até ser, mas cada um tem seus segredos, não é? Qual é o problema?
- Por quê? – ele questionou confuso. – Por que esconde quem você é? Por que você finge ser algo que não é?
- Isso não é algo pra se conversar aqui. – me desvencilhei de sua mão. Estranhamente, a música que tocava era Your Song, do Elton John. Por que algo tão romântico pra um lugar e uma hora tão inapropriada?
- Espera, Bela. Por favor, vamos conversar. Eu... Preciso saber. Eu quero saber... De tudo sobre você. – declarou, receoso.
- Por quê? – perguntei num ímpeto.
Nada me fora respondido, no entanto. Thomas apenas me olhava intensamente, como se seus olhos buscassem respostas, ou mais que isso, nos meus. Nada saia de sua boca além do som de sua respiração tensa, acompanhada do hálito quente e envolvente. As duas esferas cor de mel cravadas em mim eram de um brilho tão denso e extravagante que me encurralavam como se eu fosse uma presa indefesa. Era exatamente assim que eu me sentia.
- Me diz o porquê disso! – pediu afoito, sedento – Me explica! Me fala por que mente tão descaradamente pra todo mundo, por que finge ser alguém que você não é!
- Não fale como se eu tivesse a obrigação de explicar alguma coisa, Fletcher! Eu estou cansada dessas discussões sem nexo, ok? Me deixa em paz, por favor, não aguento mais ter que pedir isso! Será que é difícil, entender? – dei as costas, obstinada a cair fora dali. Eu queria um pouco de paz e não tinha a menor ideia de pra onde ir.

- Você deveria saber que eu não ia te deixar em paz. Não agora quando tudo está uma puta confusão na minha cabeça. – ouvi a voz dele penetrar em meus tímpanos, mais tórrida que o normal. – Desculpa por ter soado tão... Incisivo. É que você não tem noção do quanto minha mente está confusa agora... – confessou, parecendo mais calmo.
Andávamos lado a lado na rua onde se localizava Aura. Ambos menos chocados.
- Tudo bem. Eu também to confusa... Digo, eu nunca pensei que tantas pessoas fossem descobrir meu segredo assim. Está sendo complicado digerir. – tentei ser dócil. Meu comportamento arredio contra Thomas já estava me cansando. Afinal, não havia motivo algum para tratá-lo tão mal como o quanto eu vinha o tratando ultimamente.
- Então você é uma rebelde? – perguntou em tom de riso.
- Pode-se dizer que sim. – dei de ombros – Não sou nem um pouco nerd, Fletcher. – adicionei, me arrependendo no segundo seguinte.
Aquilo tinha soado mais como "Você não quis ficar comigo porque eu sou nerd, mas, agora que já sabe que eu não sou, vem cá, gato".
Urgh, me odeio.
Pra piorar meu desconforto, Thomas ficou quieto, como se pensasse sobre o que eu disse. Eu queria me jogar dentro de um bueiro. Será que ele ia estranhar se eu fizesse isso?
- Johnson? – A voz de Spencer interrompeu meus pensamentos suicidas. – O que faz aqui com esse cara? – sua entonação não era das mais simpáticas e cordiais.
- Estamos andando, ora. – fiz pouco caso. Eu odiava quando Spencer se achava meu dono e isso acontecia muito quando ele ficava bêbado.
- Posso saber por quê? – continuou deseducado.
- O que isso te diz respeito? – Thomas entrou na discussão e eu previ coisas ruins. Fletcher não conhecia Spencer.
- Mano, meu papo é com a Bela e não contigo, fica na sua senão minha mão não vai ter pena da sua cara.
O sorrisinho de escárnio de Thomas diante da ameaça intransigente não foi uma boa ideia, definitivamente. Ele cruzou os braços em deboche e riu brevemente, como se soubesse exatamente como tirar Spencer do sério.
- Ah, é? – Fletcher não economizou ironia. – E o que te faz pensar que isso me assusta de alguma forma?
- Para, Fletcher. – me senti na obrigação de intervir, antes que desse briga. Spencer parecia furioso. A bebida o deixava outra pessoa, sempre. – E você também, Spencer. Eu saio com quem eu quiser, não vem com essa de me monitorar.
- Até com o namorado da sua amiga? Wow, fantástico! Isso aí, Bela! Está ficando boa na arte de ser uma vadia! – bateu palmas com risadas exageradas.
Thomas avançou nele tão rápido que eu nem mesmo percebi. O segurou pelo colarinho, empurrando seu corpo contra o muro ao nosso lado.
- Lave essa merda dessa boca, Spencer, porque não é assim que se fala com uma mulher. – a voz de Fletcher era fria e grosseira.
- Thomas! – repreendi, o puxando pelos ombros. – Vamos embora daqui, anda. – continuei o puxando, mas os dois não despregavam os olhos um do outro com aquelas caras de ódio. Homens são tão... Neandertais... – o Spencer é assim mesmo, ele fala merda quando tá bêbado. – expliquei, tentando amenizar sua carranca enquanto tornávamos a andar.
- Odeio caras que destratam mulheres. – murmurou irritado.
- Tomara que isso signifique que você não nos destrata. – falei, brincando.
- Posso ser um cachorro, às vezes, mas nunca as destrato.
Rimos sem muito clima, e o toque do celular dele - American Idiot do Green Day, gostei - acompanhou nossas risadas. Ele colocou a mão no bolso pra atender e fez uma careta de confusão ao ler o nome do visor.
- Que estranho... – murmurejou pouco antes de atender – Alô?... Oi, vó, aconteceu alguma coisa?
Meus ouvidos se alertaram. Por que uma avó ligaria pro neto às duas da manhã?
-...O q-que? – meu coração passou a bater mais rapidamente contra o peito, nervosa, apenas por ver seu rosto empalidecer e seu olhar tomar um medo doloroso – Como assim, qual hospital, vó? Ela tá bem? O que houve?!... Sei, sei onde é! – Thomas respirava freneticamente e parecia perdido – Tô indo aí agora. Certo, certo. Tchau.
- O que houve?! – a preocupação, o receio, a ansiedade não cabiam no meu peito. Só de observar as íris cor de mel, sempre tão eletrizadas, tomadas por uma insegurança e medo sem tamanho, eu já me sentia em pane. – Fala logo, Fletcher!
Ele andava tão rápido que estava difícil de acompanhar.
- Minha mãe tá no hospital, eu não sei o que aconteceu.
- Qual hospital?
- Central de Londres.
- Eu tenho dez libras no bolso, dá pra pagar uma corrida de táxi até metade do caminho, ou a gente anda até o metrô e compra duas passagens. Também tem o ônibus, mas ele dá muita volta pra ir daqui até o hospital.
Ele parou de andar subitamente e me olhou.
- Bela, você não precisa-
- E então, vai ser o que? Decide logo, quanto antes a gente chegar, melhor! – o interrompi, deixando-o a par de que eu iria estar com ele nessa. Eu queria.
Thomas sorriu. Um sorriso lindo no meio da tempestade escura que o circundava. Sorri, inconscientemente, junto.
- Er... Metrô. – disse ele, em seguida segurou minha mão para que corrêssemos até lá. O
Déjà vu passou de relance por minha mente.

---

- Vó! – Tom exclamou, quando a viu sentada no corredor de espera da ala de emergência. A senhora (uma vovozinha muito bonitinha que dava vontade de apertar) olhou primeiro para o neto, depois pra mim e depois para as nossas mãos. Foi quando me lembrei de que elas ainda estavam entrelaçadas e tratei de separá-las.
Me dei conta, no segundo seguinte, de que eu devia estar parecendo uma dessas putas drogadas desequilibradas. Meus cabelos deviam estar desgrenhados por conta da corrida, minhas roupas eram as piores possíveis para a ocasião, a maquiagem era pesada e intensa, e eu possivelmente estava com cheiro de bebidas e drogas, assim como o netinho querido dela.
- Oh, querido... – abraçou o neto com carinho. – Fique tranquilo, sim? O médico acabou de avisar que ela está bem.
- O que ela tem?
- Acho que isso deve ser uma conversa entre vocês dois, Tom.
- Por quê?
- Acabei de dizer que é uma conversa entre vocês dois. Além de baladeiro é surdo? – juro que a vovozinha falou isso. E ainda riu. – Não vai me apresentar a menina? – apontou pra mim, enquanto passava um dos braços por minhas costas pra me abraçar de lado.
- Ah, essa é Bela Johnson. Minha... Amiga.
- Amiga, sei... – seu tom era provocativo. Céus, qual é a dessa vovó?
Sorri sem graça, observando Thomas rolar os olhos.
- Bela, essa a minha avó. Joanna.
- Prazer, querida! Você é exatamente como minha versão morena, na época em que eu era jovem. – ela me lançou um sorriso sagaz. – Sei que ainda nem abriu a boca, mas já adorei você! Aquela outra que o Tom anda de sassarico é muito sem graç–
- Vó, menos. – Tom repreendeu e eu gargalhei.
- Também adorei a senhora!  – sorri.
- Oh, não me venha com essa de 'senhora'! Sou senhora apenas por fora, mas o externo não conta. O que conta é o que eu sou por dentro, e, minha filha, por dentro, estou na puberdade, ainda.
Gargalhei mais uma vez.
- Certo, certo.
- Eu pergunto isso pra todas as namoradinhas dele, então não se acanhe: o Tom é bom na cama?
- Vó! – Tom rolou os olhos novamente, dessa vez, mais consternado. – Bela e eu não somos absolutamente nada.
- Não precisa esconder de mim, Thomas. Quer que eu acredite que você anda com essa... Uva suculenta e nunca tenha a levado pra cama?! Faça-me favor! Anda, querida, me diga se ele é bom!
- Nós não fomos pra cama, Joanna. – comentei, prendendo o riso.
- Ah, pare com isso, não se acanhe!
- Eu não me acanharia se tivesse algo para contar! – garanti – Mas ainda não pude experimentar seu neto sobre uma cama. Acredite, se algo tivesse acontecido eu te descreveria com detalhes!
- Oh! – ela riu. – Já disse que gostei de você?! Por que não fica com ela logo, filho? – dirigiu-se ao Tom, que apenas afundou o rosto nas mãos ao som das minhas risadas.
Era engraçado deixá-lo tão constrangido e rosadinho!
- Vocês são os familiares de Debbie Fletcher, certo? – um médico de semblante neutro veio a nosso encontro.
- Sim! – Tom exclamou exasperado. A tensão, antes dissipada, voltou ao ar.
- Podem entrar no quarto, se quiserem. Ela está apta a receber visitadas.
Todos sorrimos aliviados.
Me senti meio deslocada, então os deixei irem sozinhos, é claro.
- Bela, você não vem? – Tom perguntou, ao perceber que não os acompanhei.
- Vou deixar vocês mais à vontade.
- Ah, que é isso, menina, venha! – Joanna me chamou, gesticulando. – Anda, venha.
- Vem cá, Bela.
"Vem cá"
Era idiota, eu sei, mas aquela expressão sempre mexera comigo. Era um jeito tão íntimo e carinhoso de desejar o corpo do outro junto ao seu, de pedir por proximidade e companhia... Era quase dengoso, tão cálido e dócil... Aquela expressão, dita com aquela entonação, amaciava meu coração rijo em qualquer situação que ele se encontrasse. Eu podia estar explodindo de raiva, mas se a pessoa certa, com o tom certo, me chamasse com um "vem cá", eu estaria aquecida. Estaria derretida.
E aquele "vem cá" de Thomas, com aquela voz que fez os pelos do meu corpo se eriçarem, com aquele olhar pidão, com aquele tom manhoso, aquele sorriso levemente torto e aquele inclinar de cabeça sutil... Aquele "vem cá" me trouxera tantas sensações gostosas que eu não soube fazer nada além de obedecer e caminhar para junto dele, sorrindo sem perceber.
Eu sei que sou uma idiota por sentir borboletas com um “vem cá”. Mas eu senti, pode me processar, se quiser. O vem cá dele é tão...

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- Oi! – a mãe de Thomas parecia radiante, mesmo com o semblante tão fraco e frágil. Ela e Fletcher se pareciam bastante. Os olhos eram idênticos; os traços, extremamente fiéis à hereditariedade. Sorri com as semelhanças. Talvez, de tanto olhar para a Sra. Fletcher, ela percebeu minha presença tímida, imóvel ao lado da porta. – Olá, querida. – seu tom não poderia ser mais doce.
- Oi, Sra. Fletcher.
- Você é Bela Johnson, não? – ela sorriu com perspicácia.
- Er... Sim. – respondi envergonhada. Como ela sabia da minha existência?
- É um enorme prazer te conhecer. – incrível como seu sorriso era dócil e aconchegante. Senti-me bem com ela ali. E feliz por ela estar bem.
- Oh, o prazer é todo meu. – Não pude deixar de expressar a surpresa ao ouvir suas palavras. – Você é... Linda. – Tive que dizer.
- Imagina! – ela riu, abanando o ar. – Quem dera se eu fosse como você.
Eu não podia estar mais sem graça.
- Mãe... – Tom chamou, acariciando seus cabelos. – Como você está?
- Ótima, filho. Só foi um mal estar. Eu fui limpar a casa, mas senti muita tontura porque não comi direito. E você sabe como eu sou, não é? – riu fraco. – Desmaio com tudo. – falou bem humorada.
- Mas isso está ficando estranho, mãe. Não é melhor investigar? Pode ter algo errado.
- Filho, – sorriu, segurando a mão dele entre as suas com carinho – eu estou bem. Não fique preocupado.
Ele suspirou.
- É que... Você sabe, eu não quero...
- Thomas. – Joanna o chamou com a voz tranquila. – Não fique tão nervoso, querido. O que tiver que acontecer, acontecerá. Você querendo impedir ou não.
- Do que está falando? – a confusão estampada em seus olhos irradiava-se até mim.
- Não é nada. O que eu quero dizer é que você tem que viver sua vida, construir laços... É tudo que importa.
Eu me sentia uma intrusa ali.
- Eu sei, mas...– suspirou. – Não tem como não me preocupar, ok? Vocês são tudo que tenho na vida. Não é tão fácil...
- Tudo bem, filho. – sua mãe replicou, mantendo a candura. – Mas relaxa. Amanhã eu já posso ir pra casa. Vai ficar tudo bem. A sua avó vai passar a noite aqui comigo. Você pode ir pra cas–
- Não, não. Eu faço questão de ficar. Vou só levar a Bela em casa e–
- Não! – dessa vez fui eu que me apressei em interromper. – Não precisa. De modo algum, Fletcher. Eu vou sozinha mesmo, já estou acostumada e... Eu... Olha, não precisa. Eu já estou indo. Fico muito feliz por você, Sra. Fletcher. Que bom que está bem. Até mais, galera. – tagarelei sem ao menos pensar antes de falar.
"Galera"?
Nossa. Onde tem uma serra elétrica?
- Ei, Bela, espera! – Thomas andou apressadamente até mim, antes que eu deixasse o quarto. – Minha mãe está de carro e ela não vai usar agora. Eu te levo, é sério. – Neguei com a cabeça, mas antes que eu falasse...:
- Querida, deixa meu filho praticar um pouco da educação que eu dei a ele! – brincou a Sra. Fletcher. – e Tom, só pode ficar uma pessoa comigo. Sua avó não quer ficar sozinha em casa então você também não tem opções, ok? Nos busque amanhã!
- Tudo bem. – ele concordou sem muita animação – Vamos, Bela. – colocou a mão em minhas costas. Gostei daquilo. – Até amanhã, mãe, te amo.
- Eu também, filho. – sorriu feliz – E Bela? Espero te ver muitas vezes, ainda.
- Eu também! Até breve. – acenei e então Thomas e eu deixamos o hospital.
# Tom

Eu não consigo formular nem meio pensamento, no momento. Depois do susto da minha mãe, todos os acontecimentos da noite caíram sobre minha cabeça como uma bigorna. O carro veio em total silêncio, porque eu não conseguia nem mesmo falar.

Quando Angie falou "Bela", eu tive a sensação de que poderia desmaiar que nem uma gazela a qualquer momento. Senti-me gelado. Como se o mundo tivesse parado, sem som, sem movimento, sem cor. Foi o momento mais estranho da minha vida.
Então Bela Johnson era... Outra pessoa. Era a falsa nerd. A famosa amiga do Chris, a menina mais popular do Fabric.
Ela não poderia ser menos prefeita. Bela Johnson era a garota perfeita pra mim.
E eu tinha que correr atrás do prejuízo. Porque, se tem algo que eu quero, agora, esse algo estava sentado bem ao meu lado, no banco do carona, encarando a janela como se não existisse nada mais interessante que aquilo.
- Você... Sabe onde é a minha casa? – não pude impedir-me de estremecer assim que escutei sua voz rasgar o silêncio incômodo.
- Já te deixei em casa uma vez, lembra?
- Ah, sim. – ela ajeitou-se no acento. – Pode me deixar na entrada da vila, se quiser. Eu vou a pé até minha casa...
- Não, Bela, eu te deixo lá na sua porta. Não tem problema.
- É melhor não chegar muito perto da minha casa, sabe? – riu nervosamente – Meu pai não pode acordar.
- Ah, certo.
Eu nunca me acostumaria com a versão rebelde dela.
Ou talvez eu me acostumasse até rápido demais.

Alguns poucos minutos depois, lá estava eu parando o carro a um quarteirão da sua casa. Ela soltou o cinto de segurança apressada e abriu a porta do carro.
- Bela – a chamei antes que saísse – Será que... Será que não podemos conversar?
- Agora?
- É. Mas... Tudo bem se você não...–
- Não, não tem problema. – suspirou, fechando a porta do carro novamente e virando-se para mim no banco do carona – Eu imagino que você esteja mesmo confuso e eu... Gosto de conversar para resolver as coisas. Não quero que esse clima estranho entre nós perdure. – ela foi sincera e eu concordei com um maneio de cabeça.
- É, nem eu. Sabe... Eu... Eu estou realmente confuso.
- Por quê? Quero dizer, não foi algo muito esperável de se acontecer... Mas por que tanta confusão?
- É que... Eu... – eu não sabia como me expressar, mas achei que... Talvez se eu fosse sincero... – Eu venho... Tendo umas coisas nas últimas semanas...
Ela arqueou as sobrancelhas, curiosa com o que quer que eu estivesse tentando dizer.
Anda, Fletcher! Deixa de ser uma gazela...
Ignorei minhas mãos soadas, minha vergonha e hesitação. Pensei em como as coisas precisavam ser postas à mesa, em como minha mãe e minha avó tinham gostado dela, sem contar com Danny, Dougie e Harry.
É, eu devia falar.
Não tinha nada a perder, tinha?
- Bela. – falei firme, tentando não demonstrar toda aquela confusão interna – Eu... Urgh, merda! – esbravejei suspirando, um tanto frustrado. Por que era tão difícil me expor? – Vou ter que falar mesmo? Quero dizer... Você já deve ter entendido tudo só pela minha cara...
- Er... Olha, eu sou um pouco lerda, às vezes. – entortou a boca, sem graça. Ela era tão linda... – Mas... Talvez eu tenha... Entendido.
- Isso é bom... Eu acho.
- Mas e se eu tiver entendido errado?
- O que você entendeu?
- Ah, tenho vergonha de dizer. Se tiver errado você vai rir e tudo mais...
- Não vou rir. – disse em meio a risadas.
- Você já está fazendo isso, Fletcher. – bufou, ruborizando e tornando a sentar virada para frente.
Sorri ao observá-la tão constrangida.
- Ok. Então vamos dar um jeito de saber se estamos falando da mesma coisa.
- Que jeito? – ela me olhou, cruzando os braços.
- Hm... Certo, eu não sei.
- Fletcher. – chamou impaciente – Isso tudo é uma tentativa idiota de dizermos que temos algum interesse um no outro?
- É, talvez.
- Então pronto. Já está esclarecido. – deu de ombros. Tive vontade de gargalhar.
- Então você tem algum tipo de interesse em mim?
- Talvez. – ela replicou rapidamente.
- Bom saber.
- E isso é só porque eu não sou mais nerd na sua cabeça? – alfinetou, com um sorriso irônico. – Porque, que eu saiba, até pouco tempo atrás você saiu correndo como um cabritinho indefeso alegando que não podíamos ficar só porque eu era nerd.
- A vontade de ficar comigo era tanta assim?
- Não tire palavras tão absurdas da minha boca, Fletcher!
- Certo. – dei de ombros querendo rir. – Eu já disse um milhão de vezes que aquilo foi algo... Irracional. É mais complexo do que você pensa. Eu não ligo se você é nerd ou não, já disse. Eu gosto de você.
- Gosta, é? – perguntou risonha. Eu balancei a cabeça afirmativamente.
- Vem cá. – a chamei e pude ver seus olhos brilharem. Bela ficou levemente corada e acanhada. Locomoveu-se como um felino em minha direção e abraçou meu pescoço.
- Eu também gosto de você, Fletcher. – sussurrou próximo ao meu ouvido, enquanto eu abraçava sua cintura com apego.
Não pude explicar como me senti bem ao tê-la ali, exatamente daquela forma, junto comigo.
- E eu já disse que isso é bom, não é?
- Sim. – afagou-se em mim. Sorri ao senti-la tão pequena entre os meus braços. – Mas é um pouco ruim também. – disse ela, afastando seu rosto do meu pescoço pra que pudéssemos nos encarar.
- Ah, é? E por quê?
- Porque... Bom, – piscou lentamente, arrebitando o nariz de forma engraçada. Ela era adorável. – Eu não me sinto muito no controle das coisas. Não sei o que pode acontecer. Tudo tem sido tão imprevisível... Eu... Me sinto meio perdida, sabe? Gosto de estar por cima do que acontece na minha vida, principalmente quando se trata dos meus sentimentos, e ultimamente não tem dado certo.
- Sei perfeitamente do que está falando. – fui sincero, afinal, eu estava sentindo um pouco daquilo. Não que eu costumasse dominar os acontecimentos da minha vida com tanta frequência, mas era estranho ter a sensação de que eu estava me descontrolando. Pulando de cabeça num precipício sem nenhum paraquedas.
É assim que eu me sinto.
- Então é melhor irmos com calma, não? Não estou acostumada com nada disso.
- Claro.
- Ótimo.
- Hm... Então, só pra você não se sentir tão pedida e fora do controle das coisas, estou avisando que vou te beijar agora, ok?
Ela riu, jogando a cabeça pra trás de forma extremamente sexy. E eu tinha certeza de que não fora intencional.
Quando seu rosto voltou para perto do meu, nos encaramos profundamente, sem abandonar os sorrisos. Não pude deixar de admirá-la um pouco antes de me aproximar de fato, fechar os olhos e, enfim, selar nossos lábios.

# Bela

"Senti uma corrente elétrica passar por meu corpo, borboletas no estômago e um calor que me envolvia com tanta veemência que perdi os fôlego. Nossas línguas se acariciavam com sincronia, e eu nunca pensei que fosse possível sentir aquilo apenas num beijo! Oh, eu estava viciada nos lábios macios de Thomas Fletcher!"
Quanta balela.
Não foi NADA disso.
O beijo de Fletcher foi simplesmente... Estranho. Tão estranho quanto toda aquela noite. Eu senti vontade de parar de beijá-lo logo, à medida que nossas línguas se envolviam mais e mais. Não é que eu não estivesse gostando, mas é que... Eu tava sentindo umas coisas...
Tão...
- Tudo bem, preciso ir. – cortei o beijo exasperadamente, tentando me recompor.
- Er... Certo. – ele parecia desconcertado. E muito sexy. Por um momento me arrependi de não continuar o beijando. Coçou a nuca expressando seu embaraço e eu decidi parar de ficar fitando-o tão descaradamente.
- Obrigada pela carona e, por favor, dê notícias sobre sua mãe. – falei antes de praticamente sair correndo dali.
Escalei minha árvore rapidamente e depois de alguns segundos eu já estava na minha cama, pegando o celular e ligando pra uma das pessoas que fazia parte da minha gama de conselheiras nos momentos de crise.
Alice.

# Tom

Ela já tinha saído há uns... Dez minutos talvez?
Não sei. Tanto faz.
O fato é que eu fique um século lá, parado, autista, sem conseguir entender porra nenhuma do que tinha acabado de ocorrer.
Uma vez, eu tive que me esconder da Helga, a inspetora, no banheiro feminino do pátio principal e escutei uma conversa, coincidentemente, sobre mim.
Wendie Cazolsky falava algo como "Meninas... Fiquei com Tom Fletcher ontem! Ele beija TÃO bem! Eu nunca vou ficar com ninguém melhor que ele!"
Tudo bem, eu tinha minhas desconfianças de que ela era apaixonada por mim desde a terceira série, mas, mesmo assim, Wendie não fora a primeira a dizer que eu beijo bem. Quero dizer, eu tenho bom senso de saber no que eu sou bom e no que não sou. E, pode e acreditar, sou bom quando se trata de garotas.
O fato é que o que acabou de acontecer me deixou extremamente intrigado. E inseguro. INSEGURO.
Mas que porra está acontecendo comigo? Eu simplesmente nunca fiquei inseguro mediante às minhas relações (se é que pode chamar assim) com garotas. Mas Bela me deixava extremamente instável.
Será que ela não é uma garota?
Seria uma excelente solução para os meus problemas.
Urgh, o que estou dizendo?

Minha mente, então, decidiu vagar sobre o beijo que acabara de ocorrer. Foi diferente. Diferente das demais que eu já beijei. Não por uma questão de sentimentalismo e toda essa ladainha, mas por uma questão de... Expectativas. Eu queria ficar com Bela há tempos e a concretização desse desejo aumentou qualquer tipo de sensação que um beijo pode causar. E isso somado ao fato de que ela estava impiedosamente gostosa e vestindo sua "pele original" resultou num belo de um choque. Eu devia imaginar, depois de meus descobrimentos de hoje, que Bela era experiente com esse lance de beijar (e eu mal podia esperar pelos outros lances), mas não sabia que era tanto assim. O beijo foi simplesmente... Genial. Eu sentia necessidade de repetir a dose muitas - MUITAS - vezes.

# Bela

Eu nem cheguei a ver Sam no domingo. Eu não sei por que, mas nós ao menos nos falamos. A verdade é que eu quis me ausentar do mundo por um instante e passar o dia trancada em meu quarto.
Deixei o celular desligado, não atendi os telefonemas de casa, não falei com ninguém.
Durante a madrugada conversei com Alice e me senti um pouco menos perdida, uma vez que ela ofereceu seu ombro amigo para qualquer coisa que eu precisasse. Mesmo sem saber exatamente do que eu tava falando, foi compreensiva. Era bom ter alguém como ela por perto. Alice sempre foi um dos meus abrigos em dias tempestuosos.

Segunda feira amanheceu ensolarada. Um dia lindo.
Eu me sentia bem humorada e não parava de pensar em Thomas Fletcher. Sentia um frio terrível na barriga ao pensar que ia vê-lo em poucos minutos. E ver Danny. E Harry. E Dougie.
Oh, céus...

- Johnson? Podemos conversar? – a voz de Sam foi a primeira que me chamou atenção, assim que pisei no corredor principal da entrada.
- Podemos. – assenti, estranhando seu tom frio.
Caminhamos até o jardim de trás, onde havia bancos reservados o suficiente para levar uma conversa particular.
- Por que me deixou lá sozinha, que nem uma idiota, aguentando toda a aquela porra sozinha? – perguntou rancorosa.
- Eu... Eu... – não tinha uma boa resposta. – Sam... Me desculpa... Foi uma reação impensada, eu estava chocada demais pra fazer qualquer coisa senão correr dali... Desculpa, mesmo.
- E você acha que eu levei aquilo numa boa? Quer saber? Foi muito pior pra mim do que pra você, Johnson! Muito pior! Eu estava ficando com Jones e, quando ele me viu beijando outro cara, ficou puto! Eu não sei o que se passa dentro daquela cabeça de coacervado dele, porque ele nunca me explicou que queria exclusividade! Tenho certeza que se o veado tava ali, pegou mil vagabundas, e depois ainda teve a PACHORRA de vir tirar satisfação! E TUDO PORQUE A MINHA SUPOSTA MELHOR AMIGA ME LARGOU SOZINHA AGUENTANDO TODO AQUELE PEPINO. – esbravejou em meio ao seu monólogo enérgico – Tive que aguentar as perguntas daqueles dois primatas SOZINHA! O Dougie é outro! Filho da puta assim como você, que não moveu uma palha pra me ajudar. O imbecil ficou me olhando com os olhos arregalados como se estivesse vendo uma orgia de belugas! EU TENHO CARA DE QUEM CURTE SER LARGADA?! ACHO QUE NÃO!
- Sam, Sam... Calma! – segurei seus ombros, tentando trazê-la de volta ao mundo civilizado. – Me desculpa, ta bom? Eu infelizmente não posso fazer nada além de pedir desculpas–
- E assumir que foi uma idiota babaca.
- E assumir que fui uma idiota babaca. – concordei com a cabeça tentando a deixar menos furiosa. – Eu errei, e peço desculpas. Agora pare com o drama... – rolei os olhos. – A merda já está feita e jogada no ventilador, tudo está fodido e nós temos que conviver com essa nova realidade. Fim. – ergui os braços em falso entusiasmo. – E quanto a você e Danny, sinto muito que tenham brigado. Mas vocês fazem um casal legal, combinam bastante. – sorri cordialmente. – Deviam tentar conversar pra resolver as coisas.
Ela concordou brevemente e suspirou, encostando as costas no banco e encarando um ponto fixo aleatório, no qual seus olhos se perderam, entre as poucas pessoas que passavam ali atrás antes da aula começar.
- Estive com Angie no domingo.
A menção do nome dela me caiu como um elefante com obesidade mórbida. Como não pensei nela?!  Nós éramos amigas, afinal. Eu deveria me sentir péssima por ter ficado com Fletcher. Eles estavam namorando.
Wow! Não existe nada mais sem nexo que Angie e Thomas juntos!
A olhei interessada, aguardando que ela prosseguisse.
- Ela está um pouco brava com algumas coisas, e eu achei que as reclamações foram pertinentes. – me olhou incisiva – Ela não gostou nada do namorado dela ter saído correndo atrás de você, simplesmente ter sumido depois e cagado pra ela. E ela acredita piamente que vocês estavam juntos durante todo o final da noite.
- M-mas... Ele que me seguiu e... A mãe dele foi pro hospital! Eu estava com ele pra dar uma força, ele ficou muito preocupado.
- Sério? O que houve com ela?
- Não sei direito. Ela desmaiou, mas disse que só foi um mal estar. – fui reticente.
- Hm. Ela tá melhor?
- Não tive notícias, mas acho e espero que sim.
- E foi só isso?
- Só isso o que? – a olhei, já sabendo onde queria chegar.
- Você só foi com ele no hospital e fim?
- Na verd– o sinal soou alto, nos assustando um pouco. Salva pelo gongo. – Depois te explico, Sam, vamos pra sala.
- Só me diz se vocês se pegaram. – quis saber, andando ao meu lado até a sala. Seu olhar oscilava entre curiosidade, malícia e desaprovação.
- Er... Depende do que você está querendo dizer com–
- VOCÊS FICARAM!
Esse foi o momento mais constrangedor da minha vida.
Ela berrou isso com toda a sua veemência, na porta da sala e, adivinha quem estava exatamente atrás de nós, entrando ao mesmo tempo?
Os quatro.
Sim.
Eu sou uma fodida, como todos já sabem.
E cada dia isso fica mais explícito.
- Er... você e... você e Spencer ficaram... N-não é? – Bradley sorriu sem graça e eu quis enfiá-la na lata de lixo.
Apenas fechei os olhos com força, amaldiçoando toda a minha sorte Ou a falta dela, no caso.
Caminhei até o fundo da sala, sentando-me no lugar de costume e Dougie sentou-se ao meu lado. O lado que Sam não ocupava.
- Ei, Bela. – me cutucou. – Tá tudo certo?
- Tá. – dei de ombros. – Como sempre, estou me ferrando por aí... E você?
- Tentando fazer as pazes com os caras. – contou, e eu achei engraçado.
- Fazer as pazes? – perguntei risonha.
- É... Eles brigaram comigo porque eu sabia e não contei nada.
- Posso te ajudar com isso. – sorrindo lado. – Depois falo com eles que você estava sob ameaças.
Ele riu.

- Eu sei que o clima vai ficar MUITO tenso... Mas a gente vai comer aqui com vocês do mesmo jeito. – falei, ao me aproximar da mesa. Eles riram. Bom sinal.
- Não vai ficar nada tenso, Bela. – Danny lançou-me um sorriso simpático.
- Só ficamos meio tristes por vocês não terem nem cogitado a possibilidade de nos contar... Fala sério, a gente ia adorar saber! – Harry falou, batucando algo na mesa.
- É mais secreto que segredo de Estado. E já tem muita gente sabendo. – Sam explicou.
- A gente nunca contaria. – disse Tom. Eu estava evitando o contato visual por motivos de:
Vergonha.
- Ok, ok... Vamos tratar isso como passado e fazer com que as coisas permaneçam do jeito que estavam. Aliás, a gente finge que nada mudou. – propus enérgica.
- Tudo mudou. – Tom rebateu com um sorrisinho de canto. Retribuiu de forma sem graça.
- Olá, Guys! – Brooklee sentou sua bunda sobre a mesa onde apoiávamos as comidas. Desnecessário. – Vocês não foram à última festa que dei. – fez um biquinho tentando ser comovente. – Vou dar a chance de se redimirem. Esse Sábado, lá em casa. A partir das nove. Apareçam! – balançou os dedos numa gesticulação "Barbie girl" demais para o meu discernimento. Talvez fosse um tchau. – Oh! Oi nerds! – o sorriso cínico era ostentado em seu rosto de boneca. – Não as vi aqui, desculpe. – Jura? – Ah! Quanto a minha festa, podem ir se quiserem, lindas.
- Não tenho o menor interesse, valeu. – falei, sem realmente dar atenção a ela.
- Muito menos eu, não sou mosca pra dar moral pra merda. – Sam deu de ombros e eu fiz a maior questão de gargalhar alto. Os meninos me acompanharam lindamente.
- BRADLEY, APRENDA A FALAR COMIGO! – Brooklee só faltou cuspir fogo.
- Ei, ei, ei! Algum problema por aqui? – Helga se aproximou com sua prancheta e o tórax inflado.
- Ela me insultou! – piou Brook, colérica.
- Eu não fiz coisa alguma, Helga! – Sam se defendeu na maior cara de pau.
- MENTIROSA! – Brook gritou.
- Todos aqui estão de prova. Sam nunca faria uma coisa dessas. – advoguei supostamente indignada com a acusação.
Helga nos olhou hesitante. Era óbvio que acreditaria em nossas palavras. Brooklee não era uma pessoa muito confiável, já nós...
- Parem de intrigas, meninas. Senhorita Bailey, deixe-os em paz. – disse autoritária fazendo Brooklee ficar à beira de um colapso. Eu queria tanto poder rir...
A capitã das líderes de torcida saiu à passadas largas dali, entrando em ebulição. Helga foi junto com ela, nos deixando à sós novamente.
- Vocês não valem nada! – Harry comentou aos risos.
- Valemos muito pra quem merece. – sorri categórica, voltando minhas atenções ao incrível sanduíche de frango que clamava por meu estômago.











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